Pequeno tratado das grandes virtudes
10 - A gratidão
A gratidão é a mais agradável das virtudes; não
é, no entanto, a mais fácil. Por que seria? Há prazeres difíceis ou raros, que
nem por isso são menos agradáveis. Talvez sejam até mais. No caso da gratidão,
todavia, a satisfação surpreende menos que a dificuldade. Quem não prefere
receber um presente a um tapa? Agradecer a perdoar? A gratidão é um segundo
prazer, que prolonga um primeiro, como um eco de alegria à alegria sentida,
como uma felicidade a mais para um mais de felicidade. O que há de mais
simples? Prazer de receber, alegria de ser alegre: gratidão. O fato de ela ser
uma virtude, porém, basta para mostrar que ela não é óbvia, que podemos carecer
de gratidão e que, por conseguinte, há mérito – apesar do prazer ou, talvez,
por causa dele – em senti-la. Mas por quê? A gratidão é um mistério, não pelo
prazer que temos com ela, mas pelo obstáculo que com ela vencemos. É a mais
agradável das virtudes, e o mais virtuoso dos prazeres.
Objetar-me-ão a generosidade: prazer de
oferecer, diz-se… O fato de ser um argumento publicitário deve, porém, nos
deixar vigilantes. Se fosse agradável dar, acaso teríamos necessidade dos
publicitários para pensar nisso? Se a generosidade fosse um prazer, ou antes,
se fosse apenas um prazer, ou sobretudo um prazer, será que ela nos faltaria a
esse ponto? Não se dá sem perda, por isso a generosidade se opõe ao egoísmo, e
o supera. Mas e receber? A gratidão não nos tira nada, ela é dom em troca, mas
sem perda e quase sem objeto. A gratidão nada tem a dar, além do prazer de ter
recebido. Que virtude mais leve, mais luminosa, diríamos mais mozartiana, e não
apenas porque Mozart nos inspira essa virtude, mas porque a canta, porque a
encarna, porque há nele essa alegria, esse reconhecimento desvairado por
sabe-se lá o que, por tudo, essa generosidade da gratidão, sim, que virtude
mais feliz e mais humilde, que graça mais fácil e mais necessária do que ser
grato, justamente, com um sorriso ou um passo de dança, com um canto ou uma
felicidade? Generosidade da gratidão… Esta última expressão, que devo a Mozart,
esclarece-me: se a gratidão nos falta com tanta freqüência, não será, de novo,
mais por incapacidade de dar do que de receber, mais por egoísmo do que por
insensibilidade? Agradecer é dar; ser grato é dividir. Esse prazer que devo a
você não é apenas para mim. Essa alegria é a nossa. Essa felicidade é a nossa.
O egoísta pode regozijar-se em receber. Mas seu regozijo é seu bem, que ele
guarda só para si. Ou, se o mostra, é mais para fazer invejosos do que felizes:
ele exibe seu prazer, mas é o prazer dele. Já esqueceu que outros têm
algo a ver com isso. Que importância têm os outros? Por isso o egoísta é
ingrato: não porque não goste de receber, mas porque não gosta de reconhecer o
que deve a outrem, e a gratidão é esse reconhecimento, porque não gosta de
retribuir, e a gratidão, de fato, retribui com o agradecimento, porque não
gosta de partilhar, porque não gosta de dar. O que a gratidão dá? Ela dá a si
mesma: como um eco de alegria, dizia eu, pelo que ela é amor, pelo que ela é
partilha, pelo que ela é dom. É prazer somado ao prazer, felicidade somada à
felicidade, gratidão somada à generosidade… O egoísta é incapaz disso, pois só
conhece suas próprias satisfações, sua própria felicidade, pelas quais zela
como um avaro por seu cofre. A ingratidão não é incapacidade de receber, mas
incapacidade de retribuir – sob a forma de alegria, sob a forma de amor – um
pouco da alegria recebida ou sentida. É por isso que a ingratidão é tão freqüente.
Nós absorvemos a alegria como outros absorvem a luz: buraco negro do egoísmo.
A gratidão é dom, a gratidão é partilha, a
gratidão é amor: é uma alegria que acompanha a idéia de sua causa, como diria
Spinoza, quando essa causa é a generosidade do outro, ou sua coragem, ou seu
amor. Alegria retribuída: amor retribuído. No sentido próprio ela só pode,
portanto, referir-se a seres vivos. No entanto, podemos nos indagar se toda
alegria recebida, qualquer que seja a sua causa, não pode ser objeto dessa alegria
retribuída que é a gratidão. Como não agradecer ao sol por existir? À vida, às
flores, aos passarinhos? Nenhuma alegria seria possível para mim sem o resto do
universo (pois, sem o resto do universo, eu não existiria). É nisso que toda
alegria, mesmo puramente interior ou reflexiva (a acquiescentia in se ipso
de Spinoza), tem uma causa externa, que é o universo, Deus ou a natureza: que é
tudo. Ninguém é causa de si, nem portanto (em última instância) de sua alegria.
Toda série de causas, e há uma infinidade delas, é infinita: tudo se amarra, e
nos amarra, e nos atravessa. Todo amor, levado a seu limite, deveria pois tudo
amar: todo amor deveria ser amor a tudo (quanto mais amamos as coisas
singulares, poderia dizer Spinoza, mais amamos a Deus), o que produziria como
que uma gratidão universal, não indiferenciada, é claro (como poderíamos ter a
mesma gratidão pelos passarinhos e pelas cobras, por Mozart e por Hitler?), mas
global pelo menos no fato de que seria gratidão pelo todo, de que não excluiria
nada, de que não recusaria nada, mesmo o pior (gratidão trágica, logo,
no sentido de Nietzsche), pois o real é para pegar ou largar, pois o todo do
real é a única realidade.
Essa gratidão é gratuita, por não se poder
exigir dela, ou para ela, nenhum pagamento. O reconhecimento talvez seja um
dever, em todo caso uma virtude, mas, observa Rousseau, não poderia ser um
direito exigi-lo ou exigir o que quer que seja em seu nome. Não confundamos
gratidão com retribuição de cortesias. Como quer que seja, porém, o amor quer
bem ao amado, quase necessariamente, pelo menos se é amor ao outro e não a si,
portanto, se é antes benevolência que concupiscência. Voltaremos a isso em
nosso último capítulo. Digamos apenas que a gratidão é levada a agir, por sua
vez, em favor de quem a suscita, não decerto para trocar um obséquio por outro
(não seria mais gratidão, e sim troca), mas porque o amor quer dar alegria a
quem o alegra, com o que a gratidão nutre a generosidade, quase sempre, que
nutre a gratidão. Daí um “amor recíproco”, como diz Spinoza, e um “zelo de
amor”, que caracterizam também a gratidão: “O reconhecimento ou gratidão
é o desejo ou o zelo de amor pelo qual nos esforçamos em fazer o bem àquele que
o fez a nós, em virtude de um sentimento semelhante de amor por nós.” É aí que
passamos da gratidão simplesmente afetiva, como dirá Kant, à gratidão ativa: da
alegria retribuída à ação retribuída. Quanto a mim, e apesar de Spinoza, eu
veria nisso menos uma definição (pois, por exemplo, podemos ter gratidão por um
morto, ao qual não poderíamos fazer o bem) do que uma conseqüência, mas pouco
importa. O certo é que a gratidão se distingue da ingratidão precisamente por
saber ver no outro (e não, como o amor-próprio, unicamente em si mesmo) a causa
de sua alegria – pelo que a ingratidão é ruim, pelo que a gratidão é boa, e
torna bom.
A força do amor-próprio explica assim a raridade
ou a dificuldade (“tudo o que é belo é tão difícil quanto raro…”) da gratidão:
cada um, do amor recebido, prefere tirar glória, que é amor a si, em vez de
reconhecimento, que é amor ao outro. “O orgulho não quer dever”, escreve La
Rochefoucauld, “e o amor-próprio não quer pagar”. Como não seria ele ingrato,
se só sabe amar a si, admirar a si, celebrar a si? Há humildade na gratidão, e
a humildade é difícil. Uma tristeza? É o que diz Spinoza, e voltaremos a isso
no próximo capítulo. O que a gratidão ensina, porém, é que existe também uma
humildade alegre, ou uma alegria humilde, porque ela sabe que não é sua própria
causa, nem seu próprio princípio – e se regozija ainda mais (que prazer dizer
obrigado!) com isso -, porque ela é amor, e não amor a si antes de tudo ou
sobretudo, porque se sabe devedora, se quisermos, ou antes (pois nada tem a
reembolsar), porque se sabe plenamente satisfeita, além de qualquer expectativa
e anteriormente a qualquer expectativa, pela própria existência do que a
suscita, e que pode ser Deus, quando se crê nele, que pode ser o mundo, que
pode ser um amigo, um desconhecido, que pode ser qualquer um, porque ela se
sabe objeto de uma graça – aí está! – que é a existência, talvez, ou a vida, ou
tudo, e que ela agradece, sem saber a quem nem como, porque é bom agradecer,
regozijar-se com seu regozijo e com seu amor, cujas causas sempre nos excedem,
nos contêm, nos fazem viver, nos arrebatam. Humildade de Bach, humildade de
Mozart, tão diferentes uma da outra (o primeiro agradece, dá graças, com
gênio sem igual, o segundo, poder-se-ia dizer, é a própria graça…), mas ambas
comoventes de gratidão feliz, de simplicidade verdadeira, de potência quase
sobre-humana, com a serenidade, mesmo na angústia ou no sofrimento, de quem se
sabe efeito, não princípio, e contido naquilo que canta, e que o faz ser, e que
o arrebata… Clara Haskil, Dinu Lipatti ou Glenn Gould souberam exprimir isso,
parece-me, pelo menos em seus melhores momentos, e essa alegria que temos em
ouvi-los diz o essencial da gratidão, que é a própria alegria enquanto
recebida, enquanto imerecida (sim, mesmo para os melhores!), enquanto graça, e
sempre integrada (e parte integrante, porém) numa graça mais elevada, que é
existir, o que estou dizendo, que é a própria existência, que é o próprio ser,
e o princípio de toda existência, e o princípio de todo ser, e de toda alegria,
e de todo amor… Sim, isso que podemos ler na Ética de Spinoza também
ouvimos na música, e nas de Bach e de Mozart, parece-me, melhor do que em
qualquer outra (em Haydn ouvem-se mais a polidez e a generosidade, em Beethoven
a coragem, em Schubert a doçura, em Brahms a fidelidade…), e é o suficiente
para dizer a que altura a gratidão se situa: virtude de ápice, e para os
gigantes muito mais que para os anões. No entanto, isso não nos poderia
dispensar dela: agradeçamos à graça, antes de tudo aos que a revelam
celebrando-a!
Nenhum homem é causa de si. O espírito, dizia
Claude Bruaire, está “em dívida de seu ser”. Mas que nada, por ninguém pediu
para estar (o empréstimo, não o dom, é que faz a dívida), pois ninguém, de
resto, poderia saldar essa dívida. A vida não é dívida: a dívida é graça, o ser
é graça, e esta é a mais elevada lição de gratidão.
A gratidão se regozija com o que aconteceu, ou
com o que é; ela é, portanto, o inverso do arrependimento ou da nostalgia (que
sofrem com um passado que foi, ou que não é mais), como também da esperança ou
da angústia, que desejam ou temem (desejam e temem!) um futuro que ainda
não é, que talvez nunca seja, mas que as tortura com sua ausência… Gratidão ou
inquietude. A alegria do que é ou foi, contra a angústia do que poderia vir a
ser. “A vida do insensato”, dizia Epicuro, “é ingrata e inquieta: ela se volta
toda para o futuro.” Por isso eles vivem em vão, incapazes de se saciarem, de
se satisfazerem, de serem felizes: eles não vivem, dispõem-se a viver, como
dizia Sêneca, esperam viver, como dizia Pascal, depois lamentam o que viveram
ou, mais freqüentemente, o que não viveram… O passado como o futuro lhes falta.
Já o sábio regozija-se com viver, claro, mas também com ter vivido. A gratidão
(charis) é essa alegria da memória, esse amor do passado – não o
sofrimento do que não é mais, nem o pesar pelo que não foi, mas a lembrança
alegre do que foi. É o tempo reencontrado, se quisermos (“a gratidão do que
foi”, diz Epicuro). Compreendemos que esse tempo torna a idéia da morte
indiferente, como dirá Proust, pois aquilo que vivemos, a própria morte, que
nos levará, não poderia tomar de nós: são bens imortais, diz Epicuro, não
porque não morremos, mas porque a morte não poderia anular o que vivemos, o que
fugidia e definitivamente vivemos. A morte só nos privará do futuro, que não é.
A gratidão liberta-nos dele, pelo saber alegre do que foi. O reconhecimento é
um conhecimento (ao passo que a esperança nada mais é que uma imaginação); é
por aí que ela alcança a verdade, que é eterna, e a habita. Gratidão: desfrutar
eternidade.
Isso não nos restituirá o passado, objetar-se-á
a Epicuro, nem o que perdemos… Sem dúvida, mas quem pode fazê-lo? A gratidão
não anula o luto, consuma-o: “É necessário curar os infortúnios com a lembrança
reconhecida do que perdemos, e pelo saber de que não é possível tornar
não-consumado o que aconteceu.” Pode haver formulação mais bela do trabalho do
luto? Trata-se de aceitar o que é, portanto, também o que não é mais, e de
amá-lo como tal, em sua verdade, em sua eternidade: trata-se de passar da dor
atroz da perda à doçura da lembrança, do luto a consumar ao luto consumado (“a
lembrança reconhecida do que perdemos”), da amputação à aceitação, do
sofrimento à alegria, do amor dilacerado ao amor apaziguado. “Doce é a
lembrança do amigo desaparecido”, dizia Epicuro – a gratidão é essa própria
doçura, quando se torna alegre. No entanto, o sofrimento é mais forte primeiro:
“Que terrível ele ter morrido!” Como poderíamos aceitar? Por isso o luto é
necessário, por isso é difícil, por isso é doloroso. Mas a alegria retorna,
apesar dos pesares: “Que bom ele ter vivido!” Trabalho do luto: trabalho da
gratidão.
Não estou persuadido de que a gratidão seja um
dever, como pensavam Kant e Rousseau. Aliás, não acredito muito nos deveres.
Mas o fato de ela ser uma virtude, isto é, uma excelência, é atestado pela
evidente baixeza de quem é incapaz de gratidão, e atesta a mediocridade de nós
todos, que carecemos dela. Como o ódio sobrevive melhor que o amor! Como o
rancor é mais forte que a gratidão! Pode ser até que esta às vezes se inverta
naquela, a tal ponto o amor-próprio é suscetível: a ingratidão para com o
benfeitor, escreve Kant, “é um vício na verdade extremamente detestável ao
juízo de todos, embora o homem tenha tão má reputação sob esse aspecto, que
ninguém considera inverossímil que seja possível fazer um inimigo mediante
benefícios notáveis”. Grandeza da gratidão: pequenez do homem.
Sem contar que o próprio reconhecimento pode ser
às vezes suspeito. La Rochefoucauld não via nele mais que interesse disfarçado,
e Chamfort notava com razão que “há uma espécie de reconhecimento baixo”. É
servilidade disfarçada, egoísmo disfarçado, esperança disfarçada. Só se
agradece para se ter mais (diz-se “obrigado”, pensa-se “mais”!). Não é
gratidão, é lisonja, obsequiosidade, mentira. Não é virtude, é vício. Aliás,
mesmo sincero, o reconhecimento não poderia nos dispensar de nenhuma outra
virtude, nem justificar qualquer falta que fosse. Virtude segunda, se não
secundária, que cumpre manter em seu devido lugar: a justiça ou a boa-fé podem autorizar
uma falta com a gratidão, mas não a gratidão uma falta com a justiça ou a
boa-fé. Ele me salvou a vida: devo, por isso, impor-me um falso testemunho em
seu favor e com isso condenar um inocente? Claro que não! Não esquecer não é
ser ingrato, pelo que devemos a determinado indivíduo, o que devemos a todos os
demais e a nós mesmos. Não é ingrato, escreve Spinoza, “aquele que os dons de
uma cortesã não transformam em instrumento dócil de sua lubricidade, os de um
ladrão num receptador de seus roubos, ou qualquer outra coisa semelhante. Pois
esse, ao contrário, mostra que é dotado de constância de alma, que não se deixa
corromper por nenhum presente, seja para sua própria perda, seja para a perda
comum.” Gratidão não é complacência. Gratidão não é corrupção.
A gratidão é alegria, repitamos, a gratidão é
amor. É por isso que ela se aproxima da caridade, que seria como “uma gratidão
incoativa, uma gratidão sem causa, uma gratidão incondicional, assim como a
gratidão é uma caridade segunda ou hipotética”. Alegria somada a alegria: amor
somado a amor. A gratidão é nisso o segredo da amizade, não pelo sentimento de
uma dívida, pois nada se deve aos amigos, mas por superabundância de alegria
comum, de alegria recíproca, de alegria partilhada. “A amizade conduz sua dança
ao redor do mundo”, dizia Epicuro, “convidando todos nós a despertar para dar
graças.” Obrigado por existir, dizem um ao outro, e ao mundo, e ao
universo. Essa gratidão é de fato uma virtude, pois é a felicidade de amar, e a
única.
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