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Livre Pensador, interessado em estimular o pensamento e o questionamento. Nunca se cansando de perguntar - por que?

terça-feira, 27 de novembro de 2012

Essa noite tive um sonho terrível; que um grupo de sambistas pretendia criar um samba enredo baseado na Mitologia Grega. Era alguma coisa como o "Samba do Crioulo Doido" do Stanislaw Ponte Preta. Acordei tão impressionado que decidi examinar um pouco melhor as minhas lembranças.




Daí...


Creta tinha um labirinto – construído por Dédalo, e que prendia o Minotauro, morto por Teseu;

A Esfinge ficava na porta de Tebas, e ao perguntar a quem pretendia entrar “o que é que de manha tem quatro patas, de tarde duas, e à noite três” se não respondida corretamente devorava os pretendentes. Foi derrotada por Édipo, e se autodevorou (?) ou se atirou no abismo;

Quem transformava em pedra quem olhasse para ela, era a Medusa, uma górgona que foi morta por Perseu.

E a Mitologia Grega está disponível em uns 10.000 sites explicando tudo. É só olhar. Os compositores do Samba do Grego Maluco, se esqueceram de pesquisar...

Julgaram - como sempre - que sabiam de tudo...

Que Lástima.


 

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Vampiros de energia: 10 formas de identificar o sugador
Todos nós os conhecemos! Sabemos como são! Como se vestem! E como agem! E seus propósitos: sugar o sangue de suas vítimas, pois só assim eles sobrevivem. De quem estamos falando? É claro que dos "Vampiros dos filmes", o Conde Drácula e seus amigos, seres errantes de capa preta e grandes dentes, ávidos por sangue (ou energia vital), e que andam pelas sombras em busca de suas vítimas que, na maioria das vezes, não percebem sua presença ou atuação maléfica, mesmo que estejam muito próximos. Aí, o filme termina e os vampiros desaparecem, certo? Errado!
Existe um tipo de vampiro que é de carne e osso, e que convivemos diariamente. Estamos falando dos "Vampiros de Energia”, pessoas de nosso relacionamento diário. Pode ser nosso irmão (a), marido/esposa, empregado, familiar, amigo de trabalho. vizinhos, gerente do banco, ou seja qualquer pessoa de nosso convívio, que esta roubando nossas energias, para se abastecer. Eles roubam energia vital, comum no universo, mas que eles não conseguem receber.
Mas, por que estas pessoas sugam nossa energia, afinal? Bem, em primeiro lugar a maioria dos Vampiros de Energia atuam inconscientemente, sugando a energia de suas vítimas, sem saber o que estão fazendo.
O vampirismo ocorre porque as pessoas não conseguem absorver as energias das fontes naturais (cósmicas, telúricas, etc), tão abundantes, e ficam desequilibradas energeticamente. Quando as pessoas bloqueiam o recebimento destas energias naturais (ou vitais), elas precisam encontrar outras fontes de energia mais próxima, que nada mais são do que as outras pessoas, ou seja, você.
Na verdade, quase todos nós, num momento ou outro de nossas vidas, quando nos encontramos em um estado de desequilíbrio, acabamos nos tornando vampiros de energia alheia.
Tipos de vampiros:
Mas, como identificar estas pessoas, ou estes vampiros? Em estudos feitos, foram identificados os seguintes tipos de vampiros (você provavelmente conhece mais de um):
• Vampiro Cobrador
• Vampiro Crítico
• Vampiro Adulador
• Vampiro Reclamador
• Vampiro Inquiridor
• Vampiro Lamentoso
• Vampiro Pegajoso
• Vampiro Grilo-Falante
• Vampiro Hipocondríaco
• Vampiro Encrenqueiro
 
Quais as principais características deles? Como combatê-los?
a) Vampiro Cobrador: Cobra sempre, de tudo e todos. Quando nos encontramos com ele, já vem cobrando o porque não lhe telefonamos ou visitamos. Se você vestir a carapuça e se sentir culpado, estará abrindo as portas. O melhor a fazer é usar de sua própria arma, ou seja, cobrar de volta e perguntar porque ele não liga ou aparece. Deixe-o confuso, não o deixe retrucar e se retire rapidamente.
b) Vampiro Crítico: é aquele que critica a tudo e a todos, e o pior que é só crítica negativa e destrutiva. Vê a vida somente pelo lado sombrio. A maledicência tende a criar na vítima um estado de alma escuro e pesado e abrirá seu sistema para que a energia seja sugada. Diga "não" às suas críticas. Nunca concorde com ele. A vida não é tão negra assim. Não entre nesta vibração. O melhor é cair fora e cortar até todo o tipo de contato.
c) Vampiro Adulador: é o famoso "puxa-saco". Adula o ego da vítima, cobrindo-a de lisonjas e elogios falsos, tentando seduzir pela adulação. Muito cuidado para não dar ouvidos ao adulador, pois ele simplesmente espera que o orgulho da vítima abra as portas da aura para sugar a energia.
d) Vampiro Reclamador: é aquele tipo que reclama de tudo, de todos, da vida do governo, do tempo, etc. Opõe-se a tudo, exige, reivindica, protesta sem parar. E o mais engraçado é que nem sempre dispõe de argumentos sólidos e válidos para justificar seus protestos. Melhor tática é deixá-lo falando sozinho.
e) Vampiro Inquiridor: sua língua é uma metralhadora. Dispara perguntas sobre tudo, e não dá tempo para que a vítima responda, pois já dispara mais uma rajada de perguntas. Na verdade, ele não quer respostas e, sim, apenas desestabilizar o equilíbrio mental da vítima, perturbando seu fluxo normal de pensamentos. Para sair de suas garras, não ocupe sua mente à procura de respostas. Para cortar seu ataque, reaja fazendo-lhe uma pergunta bem pessoal e contundente, e procure se afastar assim que possível.
f) Vampiro Lamentoso: são os lamentadores profissionais, que anos a fio choram sua desgraças. Para sugar a energia da vítima, ataca pelo lado emocional e afetivo. Chora, lamenta-se e faz de tudo para despertar pena. È sempre o coitado, a vítima. Só há um jeito de tratar com este tipo de vampiro, é cortando suas asas. Corte suas lamentações dizendo que não gosta de queixas, ainda mais que não elas não resolvem situação alguma.
g) Vampiro Pegajoso: investe contra as portas da sensualidade e sexualidade da vítima. Aproxima-se como se quisesse lambê-la com os olhos, com as mãos, com a língua. Parece um polvo querendo envolver a pessoa com seus tentáculos. Se você não escapar rápido, ele irá sugar sua energia em qualquer uma das possibilidades. Seja conseguindo seduzi-lo com seu jogo pegajoso, seja provocando náuseas e repulsa. Em ambos os casos você estará desestabilizado, e, portanto, vulnerável. Saia o mais rápido possível. Invente uma desculpa e fuja rapidamente.
h) Vampiro Grilo-Falante: a porta de entrada que ele quer arrombar é o seu ouvido. Fala, absoluto, durante horas, enquanto mantém a atenção da vítima ocupada, suga sua energia vital. Para livrar-se, invente uma desculpa, levante-se e vá embora.
i) Vampiro Hipocondríaco: cada dia aparece com uma doença nova. Adora colecionar bula de remédios. Desse jeito chama a atenção dos outros, despertando preocupação e cuidados. Enquanto descreve os pormenores de seus males e conta seus infindáveis sofrimentos, rouba a energia do ouvinte, que depois sente-se péssimo.
j) Vampiro Encrenqueiro: para ele, o mundo é um campo de batalha onde as coisas só são resolvidas na base do tapa. Quer que a vítima compre a sua briga, provocando nela um estado raivoso, irado e agressivo. Esse é um dos métodos mais eficientes para desestabilizar a vítima e roubar-lhe a energia. Não dê campo para agressividade, procure manter a calma e corte laços com este vampiro.
Bem, agora que você já conhece como agem os Vampiros de Energia, vá a caça deles, ou melhor, saia fora deles o mais rápido possível. Mas, não esqueça de verificar se você, sem querer, é obvio, não é um destes tipos de Vampiro.
 
Obs.: Algumas vezes – na maioria – eles não sabem o que são... 
 

sábado, 24 de novembro de 2012

Pequeno tratado das grandes virtudes






Pequeno tratado das grandes virtudes


15 - A doçura

A doçura é uma virtude feminina. É por isso, talvez, que ela agrada, sobretudo, nos homens.

Poderão objetar-me que as virtudes não têm sexo, o que é verdade. Mas isso não nos dispensa de o ter, e o sexo marca todos os nossos gestos, todos os nossos sentimentos e até as nossas virtudes. A virilidade, nada obstante o que a etimologia possa sugerir, não é uma virtude, nem o princípio de nenhuma. Mas há uma maneira mais ou menos viril, ou mais ou menos feminina, de ser virtuoso. A coragem de um homem não é igual a de uma mulher, nem sua generosidade, nem seu amor. Veja-se Simone Weil ou Etty Hillesum: nenhum homem nunca escreverá, nem viverá, nem amará como elas… Apenas a verdade é absolutamente universal, logo assexuada. Mas a verdade não tem moral, nem sentimentos, nem vontade… Como poderia ser virtuosa? Só há virtude do desejo, e que desejo não é sexuado? “Há um pouco de testículo”, dizia Diderot, “no fundo de nossos raciocínios mais sublimes e de nossa ternura mais pura.” Testículo dizia-se então também para os ovários; mas isso não anula a diferença entre um e outro… Se só há valor para o desejo, como creio, e por ele, é normal que todos os nossos valores sejam sexuados. Não, claro, no sentido de que cada um deles seria reservado a um dos dois sexos, queira Deus que não, mas antes no sentido de que cada indivíduo terá, em função do que é, homem ou mulher, esta ou aquela maneira, masculina ou feminina (e o sexo biológico não basta para tanto), de vivê-los ou carecer deles… Que desastre, nota Todorov, “se todo o mundo se alinhasse aos valores masculinos”! Seria o triunfo da guerra, ainda que fosse justa, e das idéias, ainda que fossem generosas. Faltaria o essencial, que é o amor (ninguém me tirará da cabeça que o amor, tanto para o indivíduo como para a espécie, começa pela mãe), que é a vida e que é a doçura. Não me venham objetar, por piedade, que as mulheres também têm idéias: já o percebi. Mas acho que percebi também que elas com freqüência se deixam enganar menos que os homens pelas idéias, o que, é claro, depõe em favor das mulheres. Poucas mulheres, segundo creio, ter-se-iam disposto a escrever a Crítica da razão pura [de Kant] ou a grande Lógica de Hegel, por motivos que, parece-me, prendem-se ao que torna esses livros, apesar de geniais, tão pesados e aborrecidos: eles supõem uma seriedade intelectual, uma fé nas idéias, uma idolatria do conceito, que um pouco de feminilidade torna improváveis, mesmo num homem, e quase risíveis, não fossem tão mortíferas. O que há de mais pobre que uma abstração? O que há de mais morto e mais ridículo do que levá-la totalmente a sério?

Quanto à violência feminina, também já dei com ela. Mas quem poderá acreditar que é apenas por acaso que a quase totalidade dos crimes de sangue são consumados por homens? Que quase só os meninos brincam de guerra? E que quase só os homens a fazem e, às vezes, nela encontram prazer? Dir-me-ão que isso decorre tanto ou mais da cultura do que da natureza. Talvez, mas o que me importa? Eu nunca disse que feminilidade e masculinidade são exclusivamente biológicas. A diferença sexual é demasiado essencial, demasiado onipresente, para não se explicar sempre e simultaneamente pelo corpo e pela educação, pela cultura ao mesmo tempo em que pela natureza. Mas a cultura também é real. “Ninguém nasce mulher, mas se torna mulher”? É evidentemente menos simples que isso. Nascemos mulher ou homem, depois nos tornamos o que somos. A virilidade não é nem uma virtude nem uma falta. Mas é uma força, assim como a feminilidade é uma riqueza (inclusive nos homens), e uma força também, mas diferente. Tudo em nós é sexuado – salvo a verdade, insisto -, e tanto melhor. Que diferença é mais rica e mais desejável?

Mas voltemos à doçura. O que ela tem de feminino, ou que assim parece, é uma coragem sem violência, uma força sem dureza, um amor sem cólera. É o que ouvimos tão bem em Schubert, o que temos tão bem em Etty Hillesum. A doçura é antes de tudo uma paz, real ou desejada: é o contrário da guerra, da crueldade, da brutalidade, da agressividade, da violência… Paz interior, e a única que é uma virtude. Muitas vezes permeada de angústia e de sofrimento (Schubert), às vezes iluminada de alegria e de gratidão (Etty Hillesum), mas sempre desprovida de ódio, de dureza, de insensibilidade… “Aguerrir-se e endurecer-se são duas coisas diferentes”, notava Etty Hillesum em 1942. A doçura é o que as distingue. É amor em estado de paz, mesmo na guerra, tanto mais forte quanto é aguerrido, e tanto mais doce. A agressividade é uma fraqueza, a cólera é uma fraqueza, a própria violência, quando já não é dominada, é uma fraqueza. E o que pode dominar a violência, a cólera, a agressividade, senão a doçura? A doçura é uma força, por isso é uma virtude: é força em estado de paz, força tranqüila e doce, cheia de paciência e de mansuetude. Veja-se a mãe com seu filho (“a doçura é toda sua fé”). Veja-se Cristo ou Buda, com todos. A doçura é o que mais se parece com o amor, sim, mais ainda que a generosidade, mais ainda que a compaixão. Aliás, ela não se confunde nem com uma nem com outra, embora na maioria das vezes as acompanhe. A compaixão sofre com o sofrimento do outro; a doçura se recusa a produzi-lo ou a aumentá-lo. A generosidade quer fazer bem ao outro; a doçura se recusa a lhe fazer mal. Isso parece ser favorável à generosidade, e talvez o seja. Quantas generosidades importunas, porém, quantas boas ações invasoras, esmagadoras, brutais, que um pouco de doçura teria tornado mais leves e mais amáveis? Sem contar que a doçura torna generoso, pois é fazer mal ao outro não lhe fazer o bem que ele pede ou que poderíamos fazer. E que ela vai além da compaixão, pois a antecipa, pois não precisa dessa dor da dor… Mais negativa talvez do que a afirmativa generosidade, porém mais positiva também do que a compaixão totalmente reativa, a doçura mantém-se entre as duas, sem nada que pese ou ostente, sem nada que force ou que agrida. Eu citava, a propósito da pureza, a notável fórmula de Pavese, em seu Diário: “Você será amado no dia em que puder mostrar sua fraqueza, sem que o outro se sirva dela para afirmar sua força.” Era querer ser amado puramente, dizia eu; era querer também ser amado com doçura, isto é, ser amado. Doçura e pureza andam juntas, quase sempre, pois a violência é o mal primeiro, a obscenidade primeira, pois o mal faz mal, pois o egoísmo, corrompe tudo, é ávido, indelicado, brutal… Que delicadeza, ao contrário, que doçura, que pureza, na carícia da amante! Toda a violência do homem vem morrer aí, toda a brutalidade do homem, toda a obscenidade do homem… “Minha doçura”, diz ele, e é uma palavra de amor, a mais verdadeira talvez, e a mais doce…

Se os valores são sexuados, nota Todorov, todo indivíduo é necessariamente heteróclito, imperfeito, incompleto: só na androginia ou no casal podemos encontrar o caminho de uma humanidade mais consumada e, com isso, mais humana. O homem só é salvo do pior, quase sempre, pela parte de feminilidade que traz em si. Vejam o brutamontes, que não a tem, vejam nossos trens de recrutas, todo o horror dos homens entre si, toda a violência, toda a vulgaridade… Não sei se podemos dizer o mesmo das mulheres, se elas precisam do mesmo modo de uma parte da masculinidade. “A mulher, mais perto do humano do que o homem…”, dizia Rilke. Que a androginia, também nas mulheres, possa ser uma riqueza, um encanto, uma força, não há dúvida. Mas uma necessidade? Mas uma virtude? Confunde-se com demasiada freqüência feminilidade com histeria, que não é (inclusive nos homens) nada mais que sua caricatura patológica. A histérica quer seduzir, ser amada, aparecer… Não é doçura, não é amor: é narcisismo, artifício, agressividade desviada, tomada de poder (“a histérica”, dizia Lacan, “procura um senhor sobre o qual reinar”), sedução, de fato, mas no sentido em que a sedução desvia ou engana… É a guerra amorosa, e o contrário do amor. É a arte da conquista, e o contrário do dom. É a arte da exibição, e o contrário da verdade. A doçura é o oposto: é acolhida, é respeito, é abertura. Virtude passiva, virtude de submissão, de aceitação? Talvez, e mais essencial ainda por causa disso. Que sabedoria sem passividade? Que amor sem passividade? Que ação, inclusive, sem passividade? Isso, que pode surpreender ou chocar um ocidental, seria no Oriente uma evidência. Talvez porque o Oriente seja mulher, como sugere em algum lugar Lévi-Strauss, ou, em todo caso, porque se deixe enganar menos pelos valores da virilidade. A ação não é o ativismo, não é a agitação, não é a impaciência. A passividade, inversamente, não é a inação ou a preguiça. Deixar-se levar pela corrente, diz Prajnânpad, nadar com ela, nela, em vez de se esfalfar contra as águas ou se deixar arrastar… A doçura submete-se ao real, à vida, ao devir, ao mais ou menos do cotidiano: virtude de flexibilidade, de paciência, de devoção, de adaptabilidade… O contrário do “macho pretensioso e impaciente”, como diz Rilke, o contrário da rigidez, da precipitação, da força teimosa ou obstinada. O esforço não basta a tudo. “Por uma necessidade natural”, dizia Tucídides, “todo ser exerce sempre todo o poder de que dispõe.” A doçura é a exceção que confirma essa regra: é poder sobre si, contra si se preciso. O amor é recuo, mostra Simone Weil, recusa de exercer sua força, seu poder, sua violência: o amor é doçura e dom. É o contrário do estupro, é o contrário do assassínio, é o contrário da tomada de poder ou de controle. É Eros libertado de Tanatos e de si. Virtude sobrenatural, dizia Simone Weil, mas não acredito: veja-se uma gata, com seus filhotes, veja-se um cachorro que brinca com as crianças… A humanidade não inventa a doçura. Mas a cultiva, mas se alimenta dela, e é isso que torna a humanidade mais humana.

O sábio, dizia Spinoza, age “com humanidade e doçura” (humaniter et benigne). Essa doçura é a benignidade de Montaigne, que devemos até aos animais, dizia ele, ou mesmo às árvores e às plantas. É a recusa a fazer sofrer, a destruir (quando não é indispensável), a devastar. É respeito, proteção, benevolência. Ainda não é caridade, que ama seu próximo como a si mesma, o que suporia, como já vira Rousseau, que adotássemos esta “máxima sublime”: “Faz ao outro o que queres que ele te faça.” A doçura não visa tão alto assim. É uma espécie de bondade natural ou espontânea, cuja máxima, “bem menos perfeita, porém mais útil talvez do que a precedente”, seria antes a seguinte: “Faz teu bem com o menor mal possível ao outro.” Essa máxima da doçura, menos elevada sem dúvida do que a da caridade, menos exigente, menos exaltante, é também mais acessível, por isso mais útil de fato, e mais necessária. Podemos viver sem caridade, toda a história da humanidade o prova. Mas sem um mínimo de doçura, não.

Os gregos, em especial os atenienses, gabavam-se de ter levado a doçura ao mundo. É que viam na doçura o contrário da barbárie e, portanto, um sinônimo aproximado da civilização. O etnocentrismo não data de ontem. É verdade, porém, que nossa civilização em todo caso é grega, e que nossa doçura necessariamente deve algo à deles. Ora, o que é a doçura (praotés) para um grego antigo? A mesma coisa que para nós: o contrário da guerra (os primeiros exemplos atestados são os do verbo, que significa apaziguar), o contrário da cólera, o contrário da violência ou da dureza. É menos uma virtude, a princípio, do que o encontro de várias, ou sua fonte comum:

No nível mais modesto, a doçura designa a gentileza das maneiras, a benevolência que atestamos para com outrem. Mas ela pode intervir num contexto muito mais nobre. Manifestando-se em relação aos infortunados, ela torna-se próxima da generosidade ou da bondade; em relação aos culpados, torna-se indulgência e compreensão; em relação aos desconhecidos, os homens em geral, torna-se humanidade e quase caridade. Na vida política, do mesmo modo, ela pode ser tolerância, ou ainda clemência, conforme se trate das relações com cidadãos, com súditos ou com vencidos. Na origem desses diversos valores está, porém, uma mesma disposição a acolher o outro como alguém a quem queremos bem – pelo menos em toda a medida em que podemos fazê-lo sem faltar com algum outro dever. E o fato é que os gregos tiveram o sentimento dessa unidade, pois todos esses valores tão diversos podem, ocasionalmente, ser designados pela palavra praos. [J. de Romilly]

Aristóteles fará dela uma virtude integral, que será o meio-termo, na cólera, entre estes dois defeitos que são a irascibilidade e a frouxidão: o homem doce ocupa o meio entre “o homem colérico, difícil e selvagem” e o homem “servil e tolo”, à força de impassibilidade ou de placidez excessiva. Pois há cóleras justas e necessárias, assim como há guerras e violências justificadas: a doçura é que delas decide e dispõe. Aristóteles sente-se embaraçado, porém, pois vê que sua virtude de praotés “inclina-se perigosamente no sentido da falta”. Se o homem doce é aquele “que está colérico com as coisas com que cumpre estar e contra as pessoas que o merecem, e que ademais o está da maneira que convém, no momento e por tanto tempo quanto o devido”, e não mais freqüentemente, por mais tempo nem em excesso, isso não resolve a questão dos critérios nem dos limites. O doce só é assim chamado porque o é mais que seus concidadãos, e quem sabe então aonde ele vai se deter? Quem vai julgar do objeto, do alcance e da duração legítimas de uma cólera? A doçura pode se opor aqui, e de fato se oporá, à magnanimidade, assim como a altivez grega à humildade judaico-cristã: “Suportar ser achincalhado ou deixar com indiferença insultarem seus amigos é coisa de uma alma vil”, escreve Aristóteles. O mestre de Alexandre, tanto quanto seu aluno, não era dado a oferecer a outra face… Há um extremismo da doçura, que pode ser julgado desprezível ou sublime, de acordo com o ponto de vista adotado, e como que uma tentação evangélica. Covarde? Não, pois a doçura só é doçura se nada deve ao medo. Simplesmente é necessário escolher aqui entre duas lógicas, a da honra e a da caridade, e ninguém ignora para que lado pende a doçura…

Devemos então, por doçura, pregar a não violência? A coisa não é tão simples assim, pois a não-violência, levada ao extremo, nos impediria de combater eficazmente a violência criminosa ou bárbara, não apenas quando nos visa, ou que a caridade ainda poderia admitir ou justificar, mas quando visa outrem, por exemplo quando massacra ou oprime inocentes indefesos, o que nem a caridade nem a justiça poderiam tolerar. Quem não lutaria para salvar uma criança? Quem não se envergonharia de não o fazer? “A não-violência só é boa se for eficaz”, escreve Simone Weil. Isso quer dizer que a escolha não é de princípio, mas de circunstância. Para eficácia igual ou superior, a não-violência é sem dúvida preferível, como a doçura lembra e Gandhi, na Índia, compreendera. Mas calcular a eficácia respectiva deste ou daquele meio cabe à prudência, que não poderíamos sacrificar, quando está em jogo o outro, sem faltar com a caridade. Como fazer, por exemplo, se uma mulher é atacada diante de mim? “Use a força”, responde Simone Weil, “a não ser que você tenha condições de defendê-la, com igual probabilidade de sucesso, sem violência.” Isso, é claro, depende dos indivíduos, das situações e, acrescenta Simone Weil, “também depende do adversário”. A não-violência contra as tropas britânicas, vá lá. Mas e contra Hitler e suas panzerdivisions? A violência é melhor que a cumplicidade, que a fraqueza diante do horror, que a frouxidão ou a complacência diante do pior.

Portanto, não se confundam os pacíficos, que gostam da paz e estão dispostos a defendê-la, inclusive mediante a força, com os pacifistas, que recusam toda guerra, qualquer que seja e contra quem quer que seja. É erigir a doçura em sistema, ou em absoluto, e impedir-se de defender de verdade, pelo menos em certas situações, aquilo mesmo – a paz – que se reivindica. Ética de convicção, diria Max Weber, mas irresponsável, às vezes, de tanto ser convencida… Não há valor absoluto, em todo caso a doçura não o poderia ser, não há sistema da moral, não há virtude suficiente. O próprio amor não justifica tudo, não desculpa tudo: ele não substitui a prudência, não substitui a justiça! A fortiriori, a doçura só é boa se não sacrifica as exigências da justiça e do amor, que se devem antes de tudo aos mais fracos, convém recordar, e muito mais às vítimas do que aos carrascos.

Em que casos então temos moralmente o direito (ou mesmo o dever) de lutar e, em especial, de matar? Exclusivamente quando é necessário para impedir um mal maior, por exemplo mais mortos, ou mais sofrimentos, ou mais violências… Dir-se-á que cada um poderá julgar a seu modo e que tal princípio, portanto, não oferece nenhuma garantia. Mas como poderia haver garantias? Só há casos particulares, casos singulares, e ninguém pode decidir em nosso lugar. A pena de morte, por exemplo, pode ser justificada? Por que não, se é eficaz? O problema, nesses domínios, é menos moral do que técnico e político. Se a pena de morte contra os assassinos de crianças pudesse salvar um número maior de crianças (por um eventual efeito dissuasivo e pela impossibilidade de reincidência), ou mesmo igual, ou mesmo um pouco menor dos que o das execuções efetivas de criminosos, quem poderia contestá-la? A não ser que se faça da vida humana um absoluto, como se diz, e, mais uma vez, por que não? Mas então é necessário condenar também o aborto: por que se protegeria mais um assassino de criança do que uma criança em gestação? Mas então não se tinha o direito de matar os nazistas, durante a última guerra, e os juízes de Nurembergue são culpados, pois mandaram executar Goering, Ribbentrop e vários de seus pares. O absoluto é o absoluto, e por definição não poderia depender nem das circunstâncias nem dos indivíduos. Para mim, que não creio em nenhum absoluto (o que há de mais relativo do que a vida e do que o valor da vida?), o problema é todo de oportunidade, de medida, de eficácia, disse eu, e concerne menos à doçura, no caso, do que à prudência – ou antes, a doçura sob o controle da prudência e da caridade. Não se trata primeiro de punir: trata-se de impedir. No que diz respeito à pena de morte, nos casos de direito comum, não tenho opinião formada, nem dou muita importância a isso: por acaso a prisão perpétua ou mesmo durante vinte ou trinta anos é tão melhor assim? Marcel Conche propõe a esse respeito uma solução razoável, que me agradaria bastante [Não a abolição da pena de morte, mas sua suspensão, que “poderia ser anulada, por exemplo, se nos víssemos de novo às voltas com inimigos públicos do tipo dos que foram julgados em Nurembergue”.]. Remeto a ele. Mas não me farão dizer que nunca se deve matar, em nenhum caso, nem que um Hitler, se tivesse sido pego vivo, ou algum de seus sucessores, deveria ter acabado seus dias na prisão. Elas são muito mal guardadas, muito pouco seguras, e as vítimas – passadas e futuras – têm o direito de exigir mais.

Problema político, dizia eu, ou técnico. Isso não resolve a questão moral. Se admitirmos que algumas vezes pode ser legítimo matar, quando for para combater um mal maior, nem por isso o valor individual deixará de variar, como sempre, e mesmo numa circunstância supostamente comum (por exemplo, na guerra), em função dos indivíduos. Cada um que julgue por conta própria, mas como? Seria necessário um critério. Simone Weil com seu rigor habitual, propõe um, que é cheio de doçura e de exigência:

Guerra. Manter intacto em si o amor à vida; nunca infligir a morte sem aceitá-la para si.

Caso a vida de X… estivesse ligada à sua a tal ponto que as duas mortes devessem ser simultâneas, você iria querer apesar disso que X morresse? Se o corpo e a alma inteiros aspiram à vida e se, apesar disso, sem mentir, você puder responder que sim, então tem o direito de matar.

Dessa doçura muito poucos serão capazes, e só eles poderão ser violentos, às vezes, com toda inocência. Para nós, que não o somos, que estamos longe de ser, isso não quer dizer que a violência nunca se justifique (ela se justifica, quando sua ausência seria pior), mas simplesmente que ela nunca é inocente.

Felizes os doces? Eles não pedem tanto assim. Mas só eles, não fosse a misericórdia, poderiam sê-lo inocentemente.

Para os demais a doçura vem limitar a violência, tanto quanto possível, ao mínimo necessário ou aceitável.

Virtude feminina, graças à qual – e só a ela – a humanidade é humana.


sábado, 17 de novembro de 2012

Entremeado às virtudes.... um vício...

Intelectuais de Oportunidade (Falsos Filósofos)

Intelectuais de Oportunidade


Quanta filosofia barata,
Dos intelectuais de plantão,
Que bradam aos quatro cantos
Conceitos que não são seus.

Donos da eterna verdade,
Com vaidade escrevem,
Aquilo que nos livros leram,
Mas refletir... Ah, são incapazes.

Copiam, imitam, transcrevem,
Mas pouco sabem da vida,
Da fome que mata o corpo,
Da droga que mata a alma.

Não sabem do frio nas calçadas,
Nas madrugadas dormentes,
Enfrentando seus medos insanos,
Estereotipados como dementes.

Anódinos que pensam em mudar o mundo,
Com filosofia medíocre e barata,
Discorrendo sobre o que não sabem e,
Efetivamente não sentem.

Zombam sem clemência dos poetas,
Dos versos apaixonados,
Às vezes com escrita errada
Por falta de oportunidade.

Intelectuais incompetentes,
Para ser poeta, não precisa ser letrado,
Precisa ter amor no coração
Alma pura e emoção!


Mazé Carvalho


 

Pequeno tratado das grandes virtudes

 

14 - A pureza

De todas as virtudes a pureza, se é que é uma virtude, pode ser a mais difícil de apreender, de captar. No entanto, temos de experimentá-la, senão o que saberíamos do impuro? Mas é uma experiência a princípio estranha, e duvidosa. A pureza das meninas, ou de algumas delas, sempre me tocou profundamente. Como saber se era verdadeira ou fingida, ou antes, se não era uma impureza diferente da minha, que só a perturbava a tal ponto por sua diferença, como duas cores se realçam à proporção de seu contraste, decerto, mas nem por isso deixam de ser cores, tanto uma como a outra? Eu, que nada amei tanto quanto a pureza, que nada desejei tanto quanto o impuro, será que ignoro o que é a pureza ou o que são a pureza e o impuro? Por que não? Talvez valha para a pureza o mesmo que vale para o tempo, segundo santo Agostinho: se ninguém me pergunta o que ela é, eu sei; mas se me perguntam e eu quero explicar, não sei mais. A pureza é uma evidência e um mistério.

Eu falava das meninas. O fato é que a pureza, pelo menos nos dias de hoje, se produz antes de tudo no registro sexual. Por diferença? Precisamos ver. As meninas em que penso, várias das quais iluminaram minha adolescência, não eram menos sexuadas do que as outras, é claro, nem menos desejáveis (às vezes eram até mais), nem mesmo, quem sabe, menos desejosas. Mas elas tinham a virtude – aí estamos -, ou pareciam tê-la, de habitar na clareza esse corpo sexuado e mortal, como luz na luz, como se nem o amor nem o sangue pudessem maculá-las. Aliás, como poderiam? É a pureza do vivo, e a própria vida. Aquilo batia nas veias como uma gargalhada.

Outras meninas, com certeza, e outros o experimentaram, todos talvez, seduziam-me ao contrário por não sei que impureza sugerida. Elas pareciam habitar muito mais a noite do que o dia: detinham a luz, como fazem certos homens, ou antes a refletiam (o que os homens não sabem fazer), e no entanto enxergavam bem tanto nelas como em você. Pareciam viver em pé de igualdade com o desejo dos homens, essa violência, essa crueza, esse fascínio pelo obsceno ou belo obscuro, exatamente com o necessário de perversão alegre e com aquele nada de vulgaridade que atrai os homens ou os tranqüiliza…

Mais tarde todas elas envelhecerão e se distinguirão menos. Ou então apenas pela quantidade de amor de que serão capazes: o amor nada tem a ver com a pureza, ou antes é a única pureza que vale. As mulheres sabem mais a esse respeito do que as mocinhas, é por isso que nos atemorizam mais.

Voltemos, porém, à pureza. A palavra, em latim como em francês, tem antes de tudo um sentido material: puro é o que é limpo, sem mancha, sem mácula. A água pura é a água sem misturas, a água que é apenas água. Note-se que é, então, uma água morta, e isso já diz muito sobre a vida e sobre uma certa nostalgia da pureza. Tudo o que vive suja, tudo o que limpa mata. Assim, ponhamos cloro em nossas piscinas. A pureza é impossível: só temos escolha entre diferentes tipos de purezas, é o que se chama higiene. Como faríamos disso uma moral? Fala-se de purificação étnica na Sérvia: esse horror basta para condenar os que a reivindicam. Não há povos puros ou impuros. Todo povo é uma mistura, e todo organismo, e toda vida. A pureza – pelo menos essa pureza – está do lado da morte ou do nada. A água é pura quando é sem germes, sem cloro, sem calcário, sem sais minerais, sem nada além da água. É pois uma água que não existe nunca, ou apenas em nossos laboratórios. Água morta e mortificante (sem cheiro nem gosto!), e mortífera, se só bebêssemos dela. No entanto, só pura em seu nível. Os átomos de hidrogênio poderiam protestar contra essa mistura que lhes é imposta, essa impureza do oxigênio… E por que não o núcleo, em cada um deles, contra a impureza do elétron? Só o nada é puro; ora, o nada não é nada: o ser é uma mancha no infinito do vazio, e toda existência é impura.

Sim. O fato é que todas as religiões, ou quase, deram-se essa distinção entre o que a lei impõe ou autoriza, que é puro, e o que ela proíbe ou sanciona, que é impuro. O sagrado é antes de tudo o que pode ser profanado, e talvez seja apenas isso. Inversamente, a pureza é o estado que permite aproximar-se das coisas sagradas sem as macular e sem se perder nelas. Daí todas as proibições, todos os tabus, todos os ritos de purificação… É a superfície, e é um começo. Seria ter uma visão bem curta reduzir tudo isso à higiene, à prudência, à profilaxia. Que as proibições alimentares, por exemplo no judaísmo, também possam ter esse papel, tudo bem. Mas se houvesse apenas isso, nossa dívida para com o povo judeu não seria o que ela é – enorme, decisiva, indelével para sempre -, e a dialética substituiria vantajosamente, como Nietzsche queria, a moral. Quem pode acreditar nisso? Será que isso foi tudo o que guardamos do monoteísmo? Será nossa única preocupação, nossa única exigência? A manutenção de nossa saúde? De nossa limpeza? De nossa integridade? Que bela coisa! Que belo ideal! Os verdadeiros mestres, evidentemente, sempre disseram o contrário. O essencial não está nos ritos, mas no que os ritos sugerem ou engendram. Trata-se de comer kasher ou não! O são não é o santo. O limpo não é o puro. Longe de devermos reduzir o ritual ao higiênico, conviria antes, um e outro, discernir o que os supera e, no fundo, os justifica. Na verdade, é o que acontece em toda religião viva. Aprende-se depressa a dar a essas prescrições externas um sentido sobretudo – se não exclusivamente – simbólico ou moral. O rito tem uma função muito mais pedagógica do que sanitária: a pureza cultual, como se diz, é um primeiro passo no sentido da pureza moral, ou mesmo de uma outra pureza, totalmente interna, perto da qual a própria moral pareceria redundante ou sórdida. A moral só vale para os culpados; a pureza, nos puros, é o que a substitui ou a dispensa.

Dir-se-á que a moral é, portanto, mais necessária, e estarei de acordo; ou mesmo que essa pureza não passa de um mito, e não posso, certamente, provar o contrário. Não vamos dar, no entanto, toda essa colher de chá a Pascal e seus congêneres, a todos aqueles que querem nos encerrar na queda ou no pecado. A pureza não é o angelismo. Há uma pureza do corpo, uma inocência do corpo, e no próprio gozo: pura voluptas, dizia Lucrécio, o puro prazer, perto do qual a moral é que é obscena. Não sei como se arranjam os confessores. Sem dúvida eles renunciaram a interrogar, a julgar, a condenar. Sabem que a impureza estaria de seu lado, quase sempre, e que os amantes estão pouco ligando para a moral deles.

Mas não vamos depressa nem longe demais. Todas as mulheres estupradas, quando ousam contar, revelam o sentimento de terem sido sujadas, maculadas, humilhadas. E quantas esposas, se dissessem a verdade, não confessariam que se submetem a contragosto à impureza importuna ou brutal do homem? A contragosto: está tudo dito. Apenas o coração é puro ou pode ser; apenas ele purifica. Nada é puro ou impuro por si. A mesma saliva faz a cusparada ou o beijo; o mesmo desejo faz o estupro ou o amor. Não é o sexo que é impuro: é a força, a coerção (Simone Weil: “o amor não exerce nem sofre a força; é essa a única pureza”), tudo o que humilha ou avilta, tudo o que profana, tudo o que rebaixa, tudo o que não tem respeito, doçura, consideração. A pureza, ao contrário, não está em não sei que ignorância ou ausência do desejo (seria uma doença, não uma virtude): ela está no desejo sem falta e sem violência, no desejo aceito, no desejo partilhado, no desejo que eleva e celebra! Sei que o desejo também se exalta, e às vezes até mais, na transgressão, na violência, na culpa. Pois bem: a pureza é o contrário dessa exaltação. É a doçura do desejo, a paz do desejo, a inocência do desejo. Veja-se como somos castos depois do amor, veja-se como somos puros, às vezes, no prazer. Ninguém é inocente nem culpado absolutamente: é o que tira a razão dos “depreciadores do corpo” como dizia Nietzsche, tanto quanto de seus adoradores demasiado ciosos ou satisfeitos. A pureza não é uma essência. A pureza não é um atributo, que teríamos ou não. A pureza não é absoluta, a pureza não é pura: a pureza é uma certa maneira de não ver o mal onde, de fato, ele não se encontra. O impuro vê o mal em toda parte, e tem prazer nele. O puro não vê o mal em parte alguma ou, antes, apenas onde ele se encontra, onde o sofre: no egoísmo, na crueza, na maldade… É impuro tudo o que se faz de má vontade, ou com vontade má. É por isso que somos impuros, quase sempre, e é por isso que a pureza é uma virtude: o eu só é puro quando está purificado de si. O ego suja tudo aquilo em que toca: “Exercer poder sobre”, escreve Simone Weil, “possuir, é macular.” Ao contrário, “amar puramente é aceitar a distância”, em outras palavras, a não-posse, a ausência de poder e de controle, a aceitação alegre e desinteressada. “Você será amado”, dizia Pavese a si mesmo em seu Diário, “no dia em que puder mostrar sua fraqueza sem que o outro se sirva dela para afirmar sua força.” Era querer ser amado puramente, em outras palavras, ser amado.

Há o amor que toma, é o impuro. Há o amor que dá ou que contempla, é a pureza.

Amar, amar de verdade, amar puramente não é tomar: amar é olhar, é aceitar, é dar e perder, é regozijar-nos com o que não podemos possuir, é regozijar-nos com o que nos falta (ou que faltaria se quiséssemos possuí-lo), com o que nos faz infinitamente pobres, e é o único bem, e é a única riqueza. Pobreza absoluta da mãe, à beira da cama do filho: ela não possui nada, pois ele é tudo e ela não o possui. “Meu tesouro”, ela murmura… e sente-se mais desprovida do que nunca. Pobreza do amante, pobreza do santo: puseram todo o seu bem no que não se pode possuir, no que não se pode consumir, fizeram-se reino e deserto para um deus ausente. Eles amam em pura perda, como se diz, e é o próprio amor, ou o único amor puro. Quem só amaria na esperança de um ganho, de um lucro, de uma vantagem? O egoísmo ainda é amor, decerto, mas é um amor impuro, e “a fonte de todo mal”, dizia Kant: ninguém faz o mal pelo mal, mas apenas por seu prazer, que é um bem. O que corrompe “a pureza dos móbeis”, como dizia também Kant, não é o corpo, nem sabe-se lá que vontade maligna (que quereria o mal pelo mal), mas “o caro eu”, com o qual não cessamos de nos chocar… Não, claro, que não tenhamos o direito de amar a nós mesmos: como poderíamos então (supondo-se que isso fosse possível) amar o próximo como a si mesmo? O eu não é odiável, ou só o é por egoísmo. O mal não está em amar a si, mas em amar somente a si, está em ser indiferente ao sofrimento do outro, a seu desejo, à sua liberdade, está em mostrar-se disposto a fazer mal ao outro para se fazer bem, em humilhá-lo para agradar a si, em querer desfrutá-lo em vez de amá-lo, em desfrutar em vez de se regozijar, portanto, ou em só se regozijar com seu próprio gozo e, também nesse caso, só amar a si… É a pureza primeira, e a única talvez. Não excesso de amor, mas falta de amor. Não é por acaso, nem apenas por pudicícia, que a sexualidade foi considerada o lugar privilegiado dessa impureza. Nela reina o que os escolásticos chamavam de amor de concupiscência (amar o outro para seu bem), que eles opunham ao amor de benevolência ou de amizade (amar o outro para o bem dele). Amar o outro como um objeto, pois, querer possuí-lo, consumi-lo, desfrutá-lo, como se gosta de uma carne ou de um vinho, em outras palavras, amar apenas para si: é Eros, o amor que toma ou que devora, e Eros é um deus egoísta. Ou amar o outro, verdadeiramente, como um sujeito, como uma pessoa, respeitá-lo, defendê-lo, ainda que contra o desejo que se tem dele: é Philia ou Ágape, o amor que dá e que protege, o amor de amizade, o amor de benevolência, o amor de caridade, se quisermos, o puro amor – aí estamos – e a única pureza, e o único deus.

O que é o puro amor? Fénelon disse-o claramente: é o amor desinteressado, como o que temos por nossos amigos, ou deveríamos ter (Fénelon percebe que muitas amizades “nada mais são que um amor-próprio sutilmente disfarçado”, mas também que nem por isso deixamos de ter “essa idéia da amizade pura” e que só ela pode nos satisfazer: quem aceitaria ser amado, ou amar, apenas por interesse?), o amor “sem nenhuma esperança”, como ele também diz, o amor libertado de nós mesmos (“de sorte que nos esqueçamos de nós e que nos tenhamos por nada, para sermos todo dele”), em suma, o que são Bernardo chamava “um amor sem mácula nem mesclado de procura pessoal”: é o próprio amor e a pureza dos corações puros.

É o momento de lembrar que a pureza não se manifesta apenas no registro sexual. Um artista, um militante, um cientista também podem ser puros, cada um em seu domínio. Ora, nesses três domínios, e quaisquer que sejam suas diferenças, o puro é aquele que dá prova de desinteresse, aquele que se dá por inteiro a uma causa, sem buscar nem o dinheiro nem a glória, aquele “que se esquece de si e que se tem por nada”, como dizia Fénelon, e isso confirma que a pureza, em todos esses casos, é o contrário do interesse, do egoísmo, da cobiça, de toda a sordidez do eu. Note-se de passagem que não se pode amar puramente o dinheiro, e isso já diz muito sobre o dinheiro, e sobre a pureza. Nada do que se pode possuir é puro. A pureza é pobreza, despojamento, abandono. Ela começa onde cessa o eu, aonde ele não vai, aonde ele se perde. Digamos numa fórmula: o amor puro é o contrário do amor-próprio. Se há um “puro prazer” na sexualidade, como pretendia Lucrécio e como sucede-nos experimentar, é porque a sexualidade às vezes se liberta, e nos liberta, dessa prisão do narcisismo, do egoísmo, da possessividade: também o prazer só é puro quando desinteressado, quando escapa do ego, e é por isso que na paixão ele nunca é puro, explica Lucrécio, e é por isso que “a Vênus vagabunda” (a liberdade sexual) ou a “Vênus marital” (o casal) são mais puras, muitas vezes, do que nossas loucas e exclusivas e devoradoras paixões… O ciúme bem mostra o quanto há de ódio ou de egoísmo no estado amoroso. Compreende-se que nenhum sábio nunca tenha se enganado a seu respeito (ainda que tenha sucumbido a ele!): não é o todo do amor, e é com freqüência sua forma mais violenta, como todos podemos experimentar, não é nem a mais pura nem a mais elevada. Veja-se o retrato que dele faz Platão no Fedro, antes de salvá-lo pela religião. Eros é um deus negro, como dizia Pieyre de Mandiargues, Eros é um deus ciumento, um deus possessivo, egoísta, concupiscente: Eros é um deus impuro.

É mais fácil amar puramente nossos amigos ou nossos filhos: porque esperamos menos deles, porque os amamos o bastante para nada esperar deles, ou em todo caso para não submetermos nosso amor ao que esperamos deles. É o que Simone Weil chama de amor casto: “Todo desejo de gozo situa-se no futuro, no ilusório. Ao passo que, se apenas desejamos que um ser exista, ele existe: então que mais desejar? O ser amado é então nu e real, não velado pelo futuro imaginário… Assim, no amor, há castidade ou falta de castidade, conforme o desejo seja voltado ou não para o futuro.” Simone Weil, que não procura agradar, acrescenta o seguinte, que talvez choque alguns ingênuos, mas que dá o que pensar: “Nesse sentido e contanto que não seja voltado para uma pseudo-imortalidade concebida com base no futuro, o amor que temos pelos mortos é perfeitamente puro. Porque é o desejo de uma vida finita que não pode dar mais nada de novo. Desejamos que o morto tenha existido, e ele existiu.” É o luto perfeitamente bem-sucedido, quando nada mais há do que a doçura e a alegria da lembrança, do que a eterna verdade do que aconteceu, quando nada mais há do que amor e gratidão. Mas o presente é igualmente eterno; nesse sentido, poderíamos acrescentar, e contanto que não seja voltado para um pseudoconsumo concebido com base no futuro, o amor que temos pelos corpos, pelos corpos vivos, também pode, às vezes, ser perfeitamente puro: é o desejo de uma vida presente e perfeita. Desejamos que esse corpo exista, e ele existe. Que mais pedir? Sei que na maioria das vezes não é simples: a carência interfere, e a violência, e a avidez (quantos acreditam desejar uma mulher quando desejam apenas o orgasmo?), todo o obscuro do desejo, todo esse jogo confuso e perturbador em torno da transgressão, da profanação (o sagrado, dizia eu, é o que pode ser profanado: o corpo humano é sagrado), esse fascínio – exclusivamente humano! – pelo animal que há em si e no outro, esse jogo entre vida e morte, entre prazer e dor, entre sublime e indigno, em suma, tudo o que há de prontamente erótico, mas do que de amante (mais do que de agápico!), em dois corpos que se enfrentam ou se buscam… Mas isso não é impuro, ou não parece sê-lo, a não ser em referência a outra coisa: a animalidade só faz sonhar os humanos, a perversão só atrai pela lei que ela transgride, a indignidade só pelo sublime que ela insulta… Eros seria impossível, ou em todo caso nada teria de erótico, sem Philia ou Ágape (não haveria nada mais que a pulsão totalmente boba: que fastio!), e creio, com Freud, que o inverso também é verdadeiro. Que saberíamos do amor sem o desejo? E que valeria o desejo sem o amor? Sem Eros, não há Philia, não há Ágape. Mas, sem Philia ou Ágape, Eros não tem nenhum valor. Portanto, temos de nos habituar a habitá-los juntos, ou a habitar o abismo que os separa. É habitar o homem, que não é nem anjo nem animal, mas o encontro impossível e necessário entre os dois: “O baixo-ventre”, dizia Nietzsche, “é a causa de o homem ter certa dificuldade de se tomar por um deus.” Ainda bem: é somente graças a isso que ele é humano, e que assim permanece. A sexualidade é também uma lição de humildade, que não cansamos de aprofundar. Como a filosofia, a seu lado, parece loquaz e presunçosa! Como a religião parece tola! O corpo nos ensina mais a seu respeito que os livros, e os livros só valem desde que não se minta sobre o corpo. Pureza não é pudicícia. “A extrema pureza”, escreve Simone Weil, “pode contemplar o puro e o impuro; a impureza não pode nem um nem outro: o primeiro lhe dá medo, o segundo a absolve.” O puro, por sua vez, não tem medo de nada: ele sabe que “nada é impuro em si” ou (mas isso dá no mesmo) que “tudo é puro para os puros”. É nisso, como dizia ainda Simone Weil, que “a pureza é o poder de contemplar a sujeira”. É dissolvê-la (pois nada é impuro em si) na pureza do olhar: os amantes fazem amor à luz do dia, e a própria obscenidade é um sol.

Resumamos: Ser puro é ser sem misturas, e é por isso que a pureza não existe ou não é humana. Mas a impureza em nós também não é absoluta, nem igual, nem definitiva: saber-se impuro supõe pelo menos uma certa idéia, ou um certo ideal, da pureza, de que a arte às vezes nos fala (veja-se Dinu Lipatti, em Mozart ou Bach, veja-se Vermeer, veja-se Éluard…) e de que a vida às vezes nos aproxima (veja-se o amor que você tem pelos seus filhos, por seus amigos, por seus mortos…). Essa pureza não é uma essência eterna; é o resultado de um trabalho de purificação – de sublimação, diria Freud -, pelo qual o amor advém libertando-se de si: o corpo é o cadinho, o desejo é a chama (que “consome tudo o que não é ouro puro”, dizia Fénelon), e o que resta – se resta alguma coisa – é, às vezes, e livre de toda esperança, “um ato de amor puro e plenamente desinteressado”. A pureza não é uma coisa, nem mesmo uma propriedade do real, mas uma certa modalidade do amor, ou não é nada.

Uma virtude? Sem dúvida, ou o que permite que o amor seja uma virtude e faça as vezes de todas. Não se confunda, pois, a pureza com a continência, a pudicícia ou a castidade. Há pureza cada vez que o amor deixa de ser “mistura de interesse”, ou antes (pois a pureza nunca é absoluta), apenas na medida em que o amor dá prova de desinteresse: podemos amar puramente o verdadeiro, a justiça ou a beleza, e também, por que não, o homem ou a mulher que está presente, que se dá e cuja existência (muito mais que a posse!) basta para me satisfazer. A pureza é o amor sem cobiça. Assim, amamos a beleza de uma paisagem, a fragilidade de uma criança, a solidão de um amigo e, às vezes, até mesmo aquele ou aquela que todo nosso corpo continua, no entanto, a cobiçar. Não há pureza absoluta, mas também não há impureza total ou definitiva. Pode acontecer que o amor, o prazer ou a alegria nos libertem um pouco de nós mesmos, de nossa avidez, de nosso egoísmo, pode até ser (parece-nos ter às vezes experimentado ou pressentido isso) que o amor purifique o amor, até o ponto, talvez, de o sujeito se perder e se salvar, quando não há nada além da alegria, quando não há nada além do amor (o amor “livre de todo pertencimento”, diz Christian Bobin), quando não há nada além de tudo, e da pureza de tudo. “A beatitude”, dizia Spinoza, “não é o preço da virtude, mas a própria virtude; e essa plenitude não é obtida pela redução de nossos apetites sensuais, mas, ao contrário, é essa plenitude que torna possível a redução de nossos apetites sensuais.” É a última proposição da Ética, e isso mostra bem o caminho que disso nos separa.

Mas esse caminho, ainda que fosse feito de torpezas, já é puro ao olhar puro.

 

Títulos que proporcionaram crescimento.

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  • O Pêndulo de Foucauld
  • Kon Tiki e Eu
  • The Ilustrated Man
  • Dom Quixote de La Mancha
  • O Nome da Rosa

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