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quinta-feira, 13 de novembro de 2014


O mito da neutralidade da ciência


É lícito afirmar que a neutralidade científica é um mito? Comentando os textos de Lévy-Leblond e Marcuse.

Todo cientista é um ser humano, antes de ser um cientista, ou seja, é um ser concebido no seio de uma sociedade, que possui por sua vez uma realidade social, econômica de cultura que irão influenciar juntamente com as motivações, vivencias pessoais as diversas escolhas e decisões que terá que fazer seja como cientista ou como simples cidadão. 
Segundo Antônio Joaquim Severino, a existência humana se desenvolve em três dimensões:  
* Prática Social - Ao produzir seu meio de subsistência, os homens estabelecem entre si relações que são funcionais e caracterizada por um coeficiente de poder; 
* Prática Produtiva - Pelo trabalho, os homens interferem na natureza com vistas a prover os meios de sua existência material, garantindo a produção de bens e a reprodução da espécie; 
* Prática Simbolizadora - As relações produtivas e sociais são simbolizadas em nível de representação e de apreciação valorativa. São os conjuntos de valores, crenças, ideologias, forma de interpretar e ver o mundo que visando à significação e legitimação da realidade social e econômica vivida pelo homem.
Essas três dimensões se articulam intimamente entre si, de tal modo que o desenvolvimento de cada uma repercute sobre as outras, num processo dialético permanente. Assim, se o modo de produção, de um lado, repercute no modo de formação social e se ambas repercutem sobre o modo de representação subjetiva dos homens, de outro, as suas representações mentais interferem na sua organização social e na sua atividade produtiva.
O cientista está inserido dentro dessas dimensões; a ciência também se desenvolve dentro dessas dimensões e não separada delas. Cada descoberta, avanço e aplicações das ciências impactam a vida do homem nas suas dimensões sociais, culturais e produtivas, gerando benefícios e malefícios.
O desenvolvimento do conhecimento e sua aplicação prática, especialmente, no sistema produtivo no período da revolução industrial, não causou impacto somente na prática produtiva, mas alterou também a realidade social, a saída do campo para cidade, o trabalho artesanal e feito em casa para o trabalho nas linhas de produção feito na fabrica, bem como alterou a visão do mudo, os valores. 
A concepção da ciência como dominadora da natureza e serviço do desenvolvimento econômico e fortalecimento do sistema produtivo capitalista tem trazido o progresso, porém, tem trazidos sérios problemas que colocam em risco a nossa existência na terra. 
Quando os cientistas em sua torre de marfim pensam que estão livres das questões sociais, políticas e culturais e pensam fazer a ciência pura, no mínimo estão escolhendo do lado daqueles que tomaram a decisão de aplicar esses conhecimentos. A neutralidade não existe, pois o não posicionamento, já é por si só um posicionamento a favor daqueles que iram se beneficiar da renuncia ética daqueles que pensam fazer a ciência pela ciência. 
Segundo os autores Jean Marc Lévy-Leblond e Marcuse, o cientista é responsável socialmente pelo o resultado de suas pesquisas e possui sim motivações pessoais, status, poder, dinheiro, reconhecimento, etc. e não motivações puras de conhecimento. 
Leblond em seu pronunciamento à academia de Lyon em 13 de janeiro de 1970, esboça bem o questão do mito da neutralidade da ciência.
Nesse discurso o autor faz uma critica audaciosa e mordaz aos cientistas que julgam fazer a ciência pura, ou seja a ciência descontextualizada de realidade econômica, social e cultural e sem quaisquer outros interesses a não ser, no dizer de Leblond, provocar a curiosidade de uns vintes especialistas em todo mundo.
Com argumentos claros e fundamentados desmonta o mito da neutralidade científica e põem em xeque a ideia de que a ciência desempenha atualmente um papel fundamental na evolução da sociedade e é o motor essencial de seus progressos.
Para Leblond como para Marcuse a atividade científica, como qualquer outra não está separada do conjuntos do sistema social em que se pratica. Leblond considera que o fato do cientista está ou não consciente das forças a serviços dos quais trabalha, não isenta de ser seu cúmplice. O mesmo entendimento é compartilhado por Marcuse. 
A proposição que desejo apresentar é a seguinte: a ciência (isto é, o cientista) é responsável pelo uso que a sociedade faz da ciência; o cientista é responsável pelas consequências sociais da ciência. 
Em outubro de 1952, tomou parte na Conferência da Ásia e do Pacífico pela Paz, um cientista, Joan Hinton, que tinha participado da fabricação da primeira bomba atômica em Lós Alamos. Vejamos o que ele disse: 
“Trabalhei com minhas próprias mãos na primeira bomba lançada sobre Nagasaqui. Experimento um profundo sentimento de culpa e tenho vergonha de ter desempenhado tal papel na preparação desse crime contra a humanidade. Por que aceitei, tal missão? É que eu acreditava na falsa filosofia da ‘ciência pela ciência’. Esta filosofia envenena a ciência moderna. Foi por causa deste erro que consiste em isolar a ciência da vida social e dos seres humanos, que fui levado a trabalhar para a bomba atômica, durante a guerra. Pensávamos que, como cientistas devíamos nos consagrar a ‘ciência pura’ e deixar o resto à competência dos engenheiros e dos homens de estado. Tenho vergonha de dizer que foi necessário o horror dos bombardeios de Hiroshima e Nagasaqui, para que eu saísse de minha torre de marfim e compreendesse que não há ‘ciência pura’ que a ciência não tem sentido senão quando serve a humanidade.”
Portanto, respondendo a pergunta inicial: é licito afirmar que a neutralidade científica é um mito. 
Aqueles que acreditam que não, talvez estejam conscientes ou não trabalhando em diversas formas de silenciosas bombas atômicas.

Títulos que proporcionaram crescimento.

  • Eclesíastes
  • O Pêndulo de Foucauld
  • Kon Tiki e Eu
  • The Ilustrated Man
  • Dom Quixote de La Mancha
  • O Nome da Rosa

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