Platão – Comentários sobre A Republica
Platão é ao mesmo tempo um dos grandes filósofos
da Grécia antiga, e o mais brilhante discípulo de Sócrates. E é
justamente entre os seus trabalhos que encontramos uma categoria que é
classificada como diálogos socráticos. Diálogos socráticos são trabalhos
constantes das obras de Platão, principalmente, mas também nas de Xenofonte, e
que buscam reproduzir as conversas que Sócrates tinha com outros cidadãos
gregos, e por meio das quais exprimia suas ideias filosóficas. Como Sócrates
não deixou nenhum trabalho escrito, até onde se sabe, esses diálogos são
praticamente os únicos elementos que temos para analisar o famoso método
socrático de inquirição e saber um pouco mais sobre seu raciocínio.
Nesta categoria, certamente, a obra de maior destaque de
Platão é A República (Πολιτεία, ou Politeia, no original grego). Foi
escrita por volta de 380 a.C., e é particularmente rica em termos filosóficos,
políticos e sociais. Em questão, está a busca de uma fórmula que garanta uma
harmoniosa administração à uma cidade, mantendo-a livre da anarquia, dos
interesses e disputas particulares e do caos completo. O local do diálogo é a
casa de Polemarco, irmão de Lísias e Eutidemos, filho do velho Céfalo. Os
principais personagens do diálogo são Sócrates; os dois irmãos de Platão,
Glauco e Adimanto; Nicerato, Polemarco, Lísias, Céfalo e Trasímaco.
É assim que temos o início de um diálogo entre sofista (Conforme
nos reporta Platão, a profissão de sofista foi criada por Protágoras,
discípulo de Demócrito. Sofistas foram um tipo especifico de
professor na Grécia antiga e no império romano, que deveriam
ensinar a arete, termo grego que traduz o conceito de
"excelência" ou "virtude", aplicado a áreas como música, política,
matemática e atleticismo. Entre os principais sofistas conhecidos estão
Protágoras, Górgias, Pródico, Hípias, Trasímaco, Antifonte e Crátilo.)Trasímaco,
que entende que a força é um direito, e que a justiça é garantida somente
àquele que é o mais forte, determinam assim o injusto como aquele que
transgredir suas regras. Nos livros I e II o texto se concentra numa tentativa
de definição do que seria realmente a aplicação da justiça perante a
comunidade. Sócrates começa a dialogar com Gláucon e Adimanto, definindo o ato
de governar como estar a serviço dos governados, que a justiça é superior à
injustiça e é preferível sofrer a injustiça do que praticá-la. Onde houver
justiça, aí está a felicidade.
Nos livros II a V os diálogos evoluem para a definição dos
princípios da justiça, ou seja, o que constitui a verdadeira justiça
administrada à população. O primeiro princípio da justiça seria a solidariedade
social, forma pela qual a pessoa contribui para o bem estar coletivo. O segundo
é o desprendimento, dever consciente de pessoas realmente dispostas a prover o
bem comum. Deste princípio surgiria a necessidade de uma classe social distinta
das atividades econômicas, a dos guardiões, reis-filósofos que sustentariam a
felicidade do Estado. A sociedade então, ficaria dividida em três
classes: os chefes dos guardiões, os próprios guardiões, ou militares, e os
produtores e artesãos. A classe dos guardiões seria constituída por homens e
mulheres, em iguais condições, mantidos pelo estado, sem direito à riqueza, não
poderiam constituir família.
Os livros VI e VII tratam da necessidade da justiça em si.
Aqui é apresentado a famosa Alegoria da Caverna, procurando mostrar que a
verdade pode ser atingida por meio do conhecimento.
A seguir, nos livros VIII e IX, o tema é a decadência da
cidade, decorrente da concentração do poder nas oligarquias e o surgimento
da tirania.
Finalmente, o livro X faz uma crítica à poesia como meio
educativo. Sócrates dá a entender que a poesia deva ser substituída pela
filosofia, como meio educativo, pois somente esta pode diferenciar a realidade
de fato. O restante do livro traz uma exortação à prática da justiça e demais
virtudes.
Esse texto é um excerto dos "Comentarios sobre A República" escritos pelo Prof. Antônio Celso Mendes.