O PARADOXO DA TOLERÂNCIA
É difícil definir "tolerância" de modo preciso, se é que isso é possível. Para começar, essa palavra é ambígua. Ela pode ser usada para qualificar qualquer atitude permissiva em relação às ações alheias. Nesse sentido, podemos dizer que a cúpula da igreja católica foi ou é tolerante com relação aos abusos sexuais cometidos por alguns de seus religiosos.
Todavia, essa mesma palavra pode ser
usada para designar uma virtude moral de um indivíduo ou de uma sociedade.
Nesse sentido, aquela mesma atitude da cúpula da igreja católica não pode ser
considerada um exercício dessa virtude moral e, portanto, não é tolerância
nesse sentido. Podemos caracterizar de forma aproximada a tolerância nesse
sentido como sendo a atitude de não combater aqueles que pensam a agem de forma
diferente das formas mais comuns de se pensar e agir, desde que essas formas de
pensar e, principalmente, agir não causem prejuízo injustificado a outras
pessoas. Por exemplo: um tolerante não combateria o comportamento homossexual,
mesmo ele sendo, aparentemente, o comportamento de uma minoria e mesmo ele
sendo contrário a certas crenças religiosas que o tolerante por ventura tenha.
Um intolerante se engajaria em um combate contra o comportamento homossexual.
Ateus tolerantes não combateriam as religiões, desde que is religiões não
causem prejuízo injustificado a outros. Religiosos tolerantes não combateriam o
ateísmo. E assim por diante. É claro que tais exemplos podem gerar polêmica.
Mas para a presente discussão, eles importam pouco.
A pergunta que gera o assim chamado
paradoxo da tolerância é a seguinte: como o tolerante deveria agir com relação
aos intolerantes? Se ele seguir a sua índole e for tolerante com os
intolerantes, então ele estará ajudando a promover a intolerância que, no
limite, pode destruir os tolerantes e, portanto, a tolerância. Se o tolerante
for intolerante com a intolerância, então ele deveria ser intolerante consigo
mesmo quando está sendo intolerante com a intolerância. Ou seja, a intolerância
com a intolerância parece ser uma espécie de contradição performativa: o ato de
ser intolerante com a intolerância parece ser um ato X contra a realização de
X, como um cartaz colado numa parede que diz que é proibido colar cartazes na
parede. Portanto, o paradoxo da intolerância parece ser um dilema: somente há
duas atitudes possíveis com relação a intolerância, a tolerância e a
intolerância, e ambas parecem ser, a seu modo, contraditórias.
Creio que esse é um falso dilema.
Creio também que, na formulação do paradoxo apresentada acima, a palavra
"tolerância" está sendo usada de forma ambígua. Acima caracterizei a
tolerância, enquanto uma virtude moral, como a atitude de não combater aqueles
que pensam a agem de forma diferente das formas mais comuns de se pensar e
agir, desde que essas formas de pensar e, principalmente, agir não
causem prejuízo injustificado a outras pessoas. Mesmo um liberal como John
Stuart Mill estaria de acordo com essa cláusula em itálico. Em seu ensaio sobre a liberdade ele diz:
"...o único propósito para o
qual o poder pode ser justificadamente exercido sobre qualquer membro de uma
comunidade civilizada, contra a sua vontade, é para prevenir dano a
outros."
A tolerância, enquanto uma virtude
moral, não consiste em permitir que se faça qualquer coisa
diferente do que se está disposto a fazer. Permitir que adultos abusem
sexualmente de crianças, por exemplo, não é ser tolerante, é ser imoral.
Tolerância, enquanto uma virtude moral, consiste em permitir que as pessoas
façam tudo o que pessoas livres podem (que lhes é permitido) fazer, no sentido
de "livre" que é relevante para a moralidade. Mas tudo que pessoas
livres, nesse sentido, podem (que lhes é permitido) fazer não consiste em tudo
que é possível (no sentido metafísico) ser feito. A liberdade não é a
capacidade de se fazer tudo que é possível ser feito. É da natureza da
liberdade moral ser limitada.
Uma das coisas que causam dano ou
prejuízo injustificado a outros é justamente a intolerância. Um homofóbico, por
exemplo, é um intolerante com relação ao comportamento homossexual. Portanto,
permitir a intolerância não é ser tolerante, não é o exercício da virtude da
tolerância, pois é permitir que o intolerante cause dano ou prejuízo
injustificado a outros. Permitir a intolerância pode ser descrito como ser
tolerante com a intolerância, mas apenas no sentido não-moral de
"tolerância", tal como se pode dizer que a cúpula da igreja católica
foi tolerante com o abuso sexual de crianças cometidos por alguns de seus
religiosos.
A solução do paradoxo da tolerância,
portanto, consiste em mostrar que a contradição implicada pela intolerância com
a intolerância é apenas aparente. Não permitir a intolerância não é o exercício
do vício moral da intolerância. Por estranho que pareça, ser intolerante com
(não permitir) a (o vício da) intolerância é exercer a virtude da tolerância.
Combater o discurso de ódio não é o exercício do vício da intolerância, mas o
exercício da virtude a tolerância.