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quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

PLATÃO - O MITO DO ANEL DE GIGES

(Pronuncia-se Gijes, ou Gijio,o segundo “g” com som de “J”)

Através do famoso “mito do anel de Giges”, Platão (427-347 a.C.) nos esclarece que, disfarçavelmente violento e ganancioso, o homem é levado pelo desejo de ter sempre mais (poder, glória, conforto, prazeres e vantagens, por exemplo) e que é a “Lei” que o reconduzirá ao respeito pela igualdade, pois não agiremos assim de bom grado por natureza, mas somente forçosamente.
A tese acima não é exclusivamente de Platão, trata-se de uma “opinião comumente admitida” que, embora seja “amoral em seus fundamentos, perigosa em suas consequências”, há séculos, animou (e ainda anima!) o debate sobre as relações da natureza da lei e, tanto de quais são nossas características inatas quanto quais são as nossas características adquiridas.
De Maquiavel a Thomas Hobbes, de Rousseau a Sigmund Freud passando por tantos outros, essa problemática questão tem sido foco de análise nas ciências humanas: desvendar nossa “natureza” é imperativo, até para que possamos compreender melhor como lidar com ela.
No Livro II da República, Platão expõe a teoria de que ninguém é justo, honesto e íntegro voluntariamente, mas que quem pratica a justiça só o faz meio que “obrigado”, por ser tímido, covarde, ainda por se sentir velho e impotente para deixar aflorar sua ambição ou por se ver coagido a temer represálias daqueles com os quais convive e dos guardiões da justiça, como a polícia, por exemplo.
É justamente por não sermos autossuficiente e termos essa perversa “formatação” que demos origem às leis, aos contratos e as convenções, pois se deixar por nossa conta, seguramente, privilegiaremos os nossos interesses, fazendo o que nos aprouver. E isso, todos (exceto, eu e você, leitor), pois se permitíssemos igualmente ao justo e ao injusto agir como desejam, agirão do mesmo modo. É o que vai nos revelar esse mito.

Giges era um pastor que morava na região da Lídia. Após uma tempestade, seguida de um tremor de terra, o chão se abriu e formou uma larga cratera onde ele apascentava seu rebanho.
Surpreso e curioso, o pastor desceu até a cratera e descobriu, entre outras coisas, um cavalo de bronze, cheio de buracos através dos quais enfiou a cabeça e viu um grande homem nu que parecia estar morto.
Ao avistar um belo anel de ouro na mão do morto, Giges o tirou e tratou de fugir logo dali. Mais tarde, reunindo-se com os outros pastores para fazer o relatório mensal dos rebanhos ao rei, Giges usou o anel.
Após tomar seu lugar entre os pastores na Assembleia, ele girou por acaso o engaste do anel para o interior da mão e imediatamente tornou-se invisível para os demais presentes.
E foi assim, totalmente invisível, que Giges ouviu os colegas o mencionarem como se ele não estivesse ali. Mexeu novamente o engaste do anel para fora da mão e tornou a ficar visível. Admirado com a descoberta desse poder, Giges repetiu a experiência para confirmar a magia. Seguro de si, sem titubear, ele dirigiu-se ao palácio, seduziu a rainha, matou o rei a apoderou-se do trono.

Platão afirma que, tanto faz se colocarmos um anel desses no dedo de um homem justo e outro no dedo de um homem injusto, o fato é que não encontraremos ninguém com temperamento suficientemente forte para permanecer fiel à justiça e resistir à tentação de se apoderar dos bens e dos benefícios de outrem.
Detendo poder e certo da impunidade, o homem se sente um deus entre os homens: “Nisso, nada o distinguiria do injusto, e tenderiam os dois para o mesmo fim, e poder-se-ia ver nisso uma grande prova de que não se é justo por escolha, mas por constrangimento, visto que não se encara a justiça como um bem individual, pois sempre que se acredita poder ser injusto [sem sofrer represálias] não se deixa de o ser”.
Quem seria suficientemente insensato para permanecer fiel à justiça, no momento em que tivesse na mão todos os poderes? Ninguém escolhe a justiça: se nos abstemos da injustiça, é porque não podendo fazer de outro jeito, resta seguir a lei. Resumindo: só se faz o bem por não se poder fazer impunemente o mal. 
Segundo Platão, todos os homens, com efeito, creem que a injustiça lhes é muito mais vantajosa individualmente que a justiça e que eles tem todas as razões para acreditar nisso: “Com efeito, se um homem, tornado senhor de um tal poder, não consentisse nunca em cometer uma injustiça e em tocar nos bens de outrem, seria olhado pelos que tivessem a par do segredo como o mais infeliz e insensato dos homens.”. 
Decerto, tememos nos outros o que sabemos trazer conosco, por isso enaltecemos tanto a honestidade. Ao testemunhar uma ação honesta os homens “Não deixariam de fazer em público o elogio da sua virtude, mas com o objetivo de se enganarem mutuamente, com medo de serem vítimas de alguma injustiça.”.
Será assim que a investigação sobre a justiça terá início e ocupará nove livros do mais longo e indispensável diálogo de Platão. Caberá à Sócrates mostrar, de forma magistral, que a justiça é mais vantajosa que a injustiça, e em si mesma o maior dos bens. 
Uma das maiores mazelas sociais – a corrupção –, impera porque quando o Direito cede lugar às manobras escusas, assegurarmos aos detentores de poder a certeza da impunidade. 

Omissos, ouvimos estalar imediatamente o verniz da educação moral, da “civilização”. Impune, regredindo à sua “verdadeira natureza”, a ardilosa besta está aí, pronta para reaparecer. E reaparecerá. Pedindo votos.

quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

TOLERÂNCIA

“É necessário que possamos desenvolver a nossa capacidade de TOLERÂNCIA para que possamos ter uma convivência mais harmônica em sociedade”.
Os assuntos relacionados com processos comportamentais de convivência social ou de reações individuais frente a conduta do ser humano tem tratamento e análises levadas a efeito por especialistas das áreas científicas.
 No entanto, embora didaticamente tais temas pertençam a um grupo de estudiosos bem preparados para estudos, análises e conclusões, o comportamento humano pertence aos homens e mulheres comuns, a cada individuo que a todos  instantes se vê envolvido nas situações de convivência e, independentemente das teses acadêmicas e dos ensinamento dos especialistas, precisam enfrentar as mais diversas situações surgidas nas rotinas e surpresas que só a convivência em grupo pode oferecer.
Assim, longe de qualquer pretensão acadêmica ou científica, cada pessoa procura encontrar a melhor solução para cada problema que surge nos momentos de entraves ao bom relacionamento com as pessoas que nos cercam.
Há muitos e muitos anos a tradição e os bons costumes nos alertam que a TOLERÂNCIA é um dos ingredientes imprescindíveis para a convivência pacífica entre as pessoas, entre os povos, entre as nações.
A TOLERÂNCIA é a faculdade de não reagir temperamentalmente contra os pensamentos palavras e obras que, quando manifestadas por uma parte, deixam de ser aprovadas pela outra parte de uma relação social.
Com efeito, a TOLERÂNCIA não pode ser confundida com a PERMISSIVIDADE ABUSIVA, com a negligência, com a omissão irresponsável. 
A TOLERÂNCIA tem correlação com a complacência, com a paciência, com a caridade que faz com que a vida em grupo seja respeitosa.  Daí porque não há razão para se impor a TOLERÂNCIA contra ações que causam prejuízos materiais ou morais aos outros e à sociedade. 
Cada indivíduo tem suas peculiaridades próprias, seus ideais, suas ambições, a necessidade de ser reconhecido como ser único e o direito de agir de acordo com a sua própria consciência, desde que suas ações não venham quebrar o regramento social que assegura os mecanismos da convivência humana.
Ora se devemos ser intolerantes contra os crimes, contra as injustiças, contra a violência, contra a opressão, contra a desonestidade, deveremos ser intolerantes contra os criminosos, contra aqueles que abusam do direito alheio, contra os opressores e contra as pessoas que manifestamente prejudicam a sociedade.
A TOLERÂNCIA não pode se equiparar ao consentimento omissivo em favor do crime e do criminoso – quem tolera a prática de um crime sem reagir em defesa da vítima, quem tolera a prática de um crime omitindo-se na denúncia para a Autoridade Policial ou se nega de prestar o seu testemunho para a formação do juízo de punição do culpado também incorre em crime e pode até ser considerado como cúmplice do criminoso.
A TOLERÂNCIA que se impõe, está acima das questões que ferem a lei e agridem a sociedade. A TOLERÂNCIA não é servil ou imposta por interesses pessoais para conquistas de vantagens materiais que exigem submissão e obediência dos despóticos.
A TOLERÂNCIA se impõe sobre as questões que dizem respeito ao legítimo exercício da cidadania, da liberdade individual que é assegurada a todos no cumprimento da lei. 
Assim, a TOLERÂNCIA se impõe quanto questões ideológicas, quanto às questões religiosas e quanto às teorias de vida que são manifestadas visando princípios sinceros na busca do caminho da evolução.
A zona fronteiriça entre a necessária TOLERÂNCIA e a imposição da inevitável resistência muitas vezes se transforma em um paredão intransponível, fazendo com que a desarmonia e o conflito se estabeleçam de forma implacável.
A TOLERÂNCIA não é um atributo para o medroso, para o inseguro, para o ignorante e jamais fará parte da conduta do desonesto, do corrupto, do ganancioso.
A TOLERÂNCIA é mansa e não covarde.  A TOLERÂNCIA é solidária, alegre, cordial, elegante.  A TOLERÂNCIA exige dignidade, segurança e despojamentos para poder fazer parte das características de um indivíduo. A TOLERÂNCIA é irmã gêmea da CARIDADE, somente pode ser constatada junto com a lealdade de consciência. A tolerância é sadia, jovial, arrojada.
Sobretudo a TOLERÂNCIA é imprescindível para que haja a reflexão, a justa avaliação de cada afirmativa ou atitude de julgamento de valores.

A TOLERÂNCIA é um privilégio do SÁBIO, que TOLERA a ignorância do mísero, que TOLERA a ira do arrogante, que TOLERA a prepotência do incauto, que TOLERA as suas próprias imperfeições mas, com harmonia interna e com paciência e disposição busca a iluminação pessoal e lucidez para todos que estão ao seu redor.



terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

O PARADOXO DA TOLERÂNCIA


É difícil definir "tolerância" de modo preciso, se é que isso é possível. Para começar, essa palavra é ambígua. Ela pode ser usada para qualificar qualquer atitude permissiva em relação às ações alheias. Nesse sentido, podemos dizer que a cúpula da igreja católica foi ou é tolerante com relação aos abusos sexuais cometidos por alguns de seus religiosos.
Todavia, essa mesma palavra pode ser usada para designar uma virtude moral de um indivíduo ou de uma sociedade. Nesse sentido, aquela mesma atitude da cúpula da igreja católica não pode ser considerada um exercício dessa virtude moral e, portanto, não é tolerância nesse sentido. Podemos caracterizar de forma aproximada a tolerância nesse sentido como sendo a atitude de não combater aqueles que pensam a agem de forma diferente das formas mais comuns de se pensar e agir, desde que essas formas de pensar e, principalmente, agir não causem prejuízo injustificado a outras pessoas. Por exemplo: um tolerante não combateria o comportamento homossexual, mesmo ele sendo, aparentemente, o comportamento de uma minoria e mesmo ele sendo contrário a certas crenças religiosas que o tolerante por ventura tenha. Um intolerante se engajaria em um combate contra o comportamento homossexual. Ateus tolerantes não combateriam as religiões, desde que is religiões não causem prejuízo injustificado a outros. Religiosos tolerantes não combateriam o ateísmo. E assim por diante. É claro que tais exemplos podem gerar polêmica. Mas para a presente discussão, eles importam pouco.
A pergunta que gera o assim chamado paradoxo da tolerância é a seguinte: como o tolerante deveria agir com relação aos intolerantes? Se ele seguir a sua índole e for tolerante com os intolerantes, então ele estará ajudando a promover a intolerância que, no limite, pode destruir os tolerantes e, portanto, a tolerância. Se o tolerante for intolerante com a intolerância, então ele deveria ser intolerante consigo mesmo quando está sendo intolerante com a intolerância. Ou seja, a intolerância com a intolerância parece ser uma espécie de contradição performativa: o ato de ser intolerante com a intolerância parece ser um ato X contra a realização de X, como um cartaz colado numa parede que diz que é proibido colar cartazes na parede. Portanto, o paradoxo da intolerância parece ser um dilema: somente há duas atitudes possíveis com relação a intolerância, a tolerância e a intolerância, e ambas parecem ser, a seu modo, contraditórias.
Creio que esse é um falso dilema. Creio também que, na formulação do paradoxo apresentada acima, a palavra "tolerância" está sendo usada de forma ambígua. Acima caracterizei a tolerância, enquanto uma virtude moral, como a atitude de não combater aqueles que pensam a agem de forma diferente das formas mais comuns de se pensar e agir, desde que essas formas de pensar e, principalmente, agir não causem prejuízo injustificado a outras pessoas. Mesmo um liberal como John Stuart Mill estaria de acordo com essa cláusula em itálico. Em seu ensaio sobre a liberdade ele diz:
"...o único propósito para o qual o poder pode ser justificadamente exercido sobre qualquer membro de uma comunidade civilizada, contra a sua vontade, é para prevenir dano a outros."
A tolerância, enquanto uma virtude moral, não consiste em permitir que se faça qualquer coisa diferente do que se está disposto a fazer. Permitir que adultos abusem sexualmente de crianças, por exemplo, não é ser tolerante, é ser imoral. Tolerância, enquanto uma virtude moral, consiste em permitir que as pessoas façam tudo o que pessoas livres podem (que lhes é permitido) fazer, no sentido de "livre" que é relevante para a moralidade. Mas tudo que pessoas livres, nesse sentido, podem (que lhes é permitido) fazer não consiste em tudo que é possível (no sentido metafísico) ser feito. A liberdade não é a capacidade de se fazer tudo que é possível ser feito. É da natureza da liberdade moral ser limitada.
Uma das coisas que causam dano ou prejuízo injustificado a outros é justamente a intolerância. Um homofóbico, por exemplo, é um intolerante com relação ao comportamento homossexual. Portanto, permitir a intolerância não é ser tolerante, não é o exercício da virtude da tolerância, pois é permitir que o intolerante cause dano ou prejuízo injustificado a outros. Permitir a intolerância pode ser descrito como ser tolerante com a intolerância, mas apenas no sentido não-moral de "tolerância", tal como se pode dizer que a cúpula da igreja católica foi tolerante com o abuso sexual de crianças cometidos por alguns de seus religiosos.
A solução do paradoxo da tolerância, portanto, consiste em mostrar que a contradição implicada pela intolerância com a intolerância é apenas aparente. Não permitir a intolerância não é o exercício do vício moral da intolerância. Por estranho que pareça, ser intolerante com (não permitir) a (o vício da) intolerância é exercer a virtude da tolerância. Combater o discurso de ódio não é o exercício do vício da intolerância, mas o exercício da virtude a tolerância.
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