PLATÃO - O MITO DO ANEL DE GIGES
(Pronuncia-se Gijes, ou
Gijio,o segundo “g” com som de “J”)
Através do famoso “mito do anel
de Giges”, Platão (427-347 a.C.) nos esclarece que, disfarçavelmente violento e
ganancioso, o homem é levado pelo desejo de ter sempre mais (poder, glória,
conforto, prazeres e vantagens, por exemplo) e que é a “Lei” que o reconduzirá
ao respeito pela igualdade, pois não agiremos assim de bom grado por natureza,
mas somente forçosamente.
A tese acima não é exclusivamente
de Platão, trata-se de uma “opinião comumente admitida” que, embora seja
“amoral em seus fundamentos, perigosa em suas consequências”, há séculos,
animou (e ainda anima!) o debate sobre as relações da natureza da lei e, tanto
de quais são nossas características inatas quanto quais são as nossas
características adquiridas.
De Maquiavel a Thomas Hobbes, de
Rousseau a Sigmund Freud passando por tantos outros, essa problemática questão
tem sido foco de análise nas ciências humanas: desvendar nossa “natureza” é
imperativo, até para que possamos compreender melhor como lidar com ela.
No Livro II da República, Platão
expõe a teoria de que ninguém é justo, honesto e íntegro voluntariamente, mas
que quem pratica a justiça só o faz meio que “obrigado”, por ser tímido,
covarde, ainda por se sentir velho e impotente para deixar aflorar sua ambição
ou por se ver coagido a temer represálias daqueles com os quais convive e dos
guardiões da justiça, como a polícia, por exemplo.
É justamente por não sermos
autossuficiente e termos essa perversa “formatação” que demos origem às leis,
aos contratos e as convenções, pois se deixar por nossa conta, seguramente,
privilegiaremos os nossos interesses, fazendo o que nos aprouver. E isso, todos (exceto,
eu e você, leitor), pois se permitíssemos igualmente ao justo e ao injusto agir
como desejam, agirão do mesmo modo. É o que vai nos revelar esse mito.
Giges era um pastor que morava na
região da Lídia. Após uma tempestade, seguida de um tremor de terra, o chão se
abriu e formou uma larga cratera onde ele apascentava seu rebanho.
Surpreso e curioso, o pastor
desceu até a cratera e descobriu, entre outras coisas, um cavalo de bronze,
cheio de buracos através dos quais enfiou a cabeça e viu um grande homem nu que
parecia estar morto.
Ao avistar um belo anel de ouro
na mão do morto, Giges o tirou e tratou de fugir logo dali. Mais tarde,
reunindo-se com os outros pastores para fazer o relatório mensal dos rebanhos
ao rei, Giges usou o anel.
Após tomar seu lugar entre os
pastores na Assembleia, ele girou por acaso o engaste do anel para o interior
da mão e imediatamente tornou-se invisível para os demais presentes.
E foi assim, totalmente
invisível, que Giges ouviu os colegas o mencionarem como se ele não estivesse
ali. Mexeu novamente o engaste do anel para fora da mão e tornou a ficar
visível. Admirado com a descoberta desse poder, Giges repetiu a experiência
para confirmar a magia. Seguro de si, sem titubear, ele dirigiu-se ao palácio,
seduziu a rainha, matou o rei a apoderou-se do trono.
Platão afirma que, tanto faz se
colocarmos um anel desses no dedo de um homem justo e outro no dedo de um homem
injusto, o fato é que não encontraremos ninguém com temperamento
suficientemente forte para permanecer fiel à justiça e resistir à tentação de
se apoderar dos bens e dos benefícios de outrem.
Detendo poder e certo da
impunidade, o homem se sente um deus entre os homens: “Nisso, nada o
distinguiria do injusto, e tenderiam os dois para o mesmo fim, e poder-se-ia
ver nisso uma grande prova de que não se é justo por escolha, mas por
constrangimento, visto que não se encara a justiça como um bem individual, pois
sempre que se acredita poder ser injusto [sem sofrer represálias] não se deixa
de o ser”.
Quem seria suficientemente
insensato para permanecer fiel à justiça, no momento em que tivesse na mão
todos os poderes? Ninguém escolhe a justiça: se nos abstemos da injustiça, é
porque não podendo fazer de outro jeito, resta seguir a lei. Resumindo: só se
faz o bem por não se poder fazer impunemente o mal.
Segundo Platão, todos os homens,
com efeito, creem que a injustiça lhes é muito mais vantajosa individualmente
que a justiça e que eles tem todas as razões para acreditar nisso: “Com efeito,
se um homem, tornado senhor de um tal poder, não consentisse nunca em cometer
uma injustiça e em tocar nos bens de outrem, seria olhado pelos que tivessem a
par do segredo como o mais infeliz e insensato dos homens.”.
Decerto, tememos nos outros o que
sabemos trazer conosco, por isso enaltecemos tanto a honestidade. Ao
testemunhar uma ação honesta os homens “Não deixariam de fazer em público o
elogio da sua virtude, mas com o objetivo de se enganarem mutuamente, com medo
de serem vítimas de alguma injustiça.”.
Será assim que a investigação
sobre a justiça terá início e ocupará nove livros do mais longo e indispensável
diálogo de Platão. Caberá à Sócrates mostrar, de forma magistral, que a justiça
é mais vantajosa que a injustiça, e em si mesma o maior dos bens.
Uma das maiores mazelas sociais –
a corrupção –, impera porque quando o Direito cede lugar às manobras escusas,
assegurarmos aos detentores de poder a certeza da impunidade.
Omissos, ouvimos estalar
imediatamente o verniz da educação moral, da “civilização”. Impune, regredindo
à sua “verdadeira natureza”, a ardilosa besta está aí, pronta para reaparecer.
E reaparecerá. Pedindo votos.
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