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Livre Pensador, interessado em estimular o pensamento e o questionamento. Nunca se cansando de perguntar - por que?

terça-feira, 7 de janeiro de 2020

O MITO DA ESPADA
 DE DÂMOCLES E SEU SIGNIFICADO


          Dâmocles é o protagonista de uma anedota moral que figurou originalmente na história perdida da Sicília por Timeu de Tauromênio (c. 356 - 260 a.C.). Cícero pode tê-la lido em Diodoro Sículo. Ele fez uso dela em suas Tusculan Disputationes V.61 - 62. Dâmocles era um cortesão bastante bajulador na corte do tirano Dionísio, de Siracusa, do qual se tornou amigo. Ele dizia que, como um grande homem de poder e autoridade, Dionísio era verdadeiramente um homem afortunado. Dionísio ofereceu-se para trocar de lugar com ele por um dia, para que ele também pudesse sentir o gosto de toda esta suposta sorte, sendo servido em ouro e prata, atendido por mulheres de extraordinária beleza, e servido com as melhores comidas. No meio de todo o luxo, Dionísio ordenou que uma espada fosse pendurada sobre o pescoço de Dâmocles, presa apenas por um fio de rabo de cavalo. Ao ver a espada afiada suspensa diretamente sobre sua cabeça, Dâmocles perdeu o interesse pela excelente comida e pelas belas mulheres, e abdicou de seu posto, dizendo que não queria mais ser tão afortunado. A espada de Dâmocles é uma alusão frequentemente usada, representando a insegurança daqueles que são chamados a exercerem o poder e a autoridade sobre os demais (devido à possibilidade das responsabilidades deste poder lhes ser precipitado de forma iminente). 
O Mito:
Havia um rei chamado Dionysius que governava Siracusa, a cidade mais rica da Sicília. Vivia em um belo palácio onde havia muitas coisas belas e caras, e um numeroso grupo de empregados que estavam sempre prontos para lhe servir. Naturalmente, por causa da riqueza e do poder de Dionysius, muitos em Siracusa invejavam sua posição e fortuna. Dâmocles era um destes, e como era um dos melhores amigos do rei Dionysius, estava sempre a lhe dizer:
- Como eis afortunado Dionysius! Você tem tudo que qualquer um poderia desejar. Você deve ser o homem o mais feliz do mundo!
Um dia o rei Dionysius amanheceu cansado de sempre ouvir tal conversa de Damocles, e disse-lhe:
- Venha aqui. Você realmente acredita que eu sou o homem mais feliz de todos?
Respondeu Damocles:
- Mas é claro que você é! Veja a posição que ocupa e os tesouros que você possui, além do poder que você detém. Você não tem uma única preocupação. Como a sua vida poderia ainda melhorar?
Disse o rei Dionysius:
- Imagino que você ficaria satisfeito ao trocar de lugar comigo?
Responde imediatamente Damocles:
- Oh, isso seria um sonho! Se eu pudesse ter suas riquezas, poder e prazeres por somente um dia, seria a maior felicidade de minha vida!
Disse-lhe o rei Dionysius:
- Muito bem. Troquemos os lugares por apenas um dia.
E assim, no dia seguinte, Dâmocles foi conduzido ao palácio, e todos os empregados foram instruídos para tratá-lo doravante como seu rei. Vestiram-no com vestes reais, e colocaram-lhe uma coroa do ouro. Sentou-se à mesa no salão de banquetes, e fartos alimentos foram-lhe ofertados. Havia vinhos caros, flores bonitas, perfumes raros, e uma música deliciosa. Descansou-se entre macias almofadas, e sentindo-se o homem mais feliz em todo o mundo, disse ao antigo rei Dionysius, que estava sentado no extremo oposto da grande mesa:
- Ah! isso sim é que é vida! Eu nunca me imaginei mais feliz assim!!!
E quando Dâmocles levou um copo aos lábios, levantou seus olhos para o teto, e imediatamente Dâmocles endureceu-se. O sorriso desvaneceu-se de seus lábios, sua face empalideceu, suas mãos tremeram. Não quis mais comida, nem vinho e nem música. Queria somente sair do palácio, pois viu que diretamente acima de sua cabeça havia uma espada pendurada, presa ao teto somente por um único fio de cabelo. Sua lâmina afiada resplandecia apontada para entre seus olhos. Congelou-se petrificado sobre a cadeira ocupada pelo rei. Perguntou-lhe então, o rei Dionysius:
- Qual o problema, meu amigo? Você parece ter perdido o apetite?
Dâmocles sussurrou:
- Essa espada! Essa espada!  Você não a vê?
Respondeu Dionysius:
- Naturalmente eu a vejo !!! Eu a vejo todos os dias, sempre pendurada sobre minha cabeça, e há sempre a possibilidade de alguém ou algum tremor cortar a fina linha. Talvez um de meus próprios conselheiros passe a ter inveja de meu poder e tentará matar-me. Ou alguém pode espalhar mentiras sobre mim, para virar todo o povo contra mim. Pode ser que um reino vizinho envie um exército para conquistar este trono. Ou eu posso tomar uma decisão estúpida que trouxesse a minha queda. Se você quiser ser um líder, você deve estar disposto a aceitar estes riscos. Vêm naturalmente com o poder. Você entende?
Respondeu Damocles, já não mais tão entusiasmado:
- Sim, eu entendo meu rei Dionysius...Eu vejo agora que eu estava errado, e que você tem muito a pensar além de sua riqueza e fama. Tome de volta o seu lugar e deixe-me ir de volta para a minha própria casa, não nasci para isto!
E por todo tempo, enquanto viveu, Dâmocles nunca quis outra vez mudar de lugar com o rei, ou com qualquer um de seus conterrâneos que exercia liderança, passando a ser feliz com sua função, e dando agora o melhor de si.
Moral do mito:
“Não existe bônus, sem um ônus que pese sobre ele”


O QUARTO REI MAGO
Uma história de Henry Van Dyke

A Bíblia narra a história dos três reis magos que viajaram do Oriente a Belém para adorar a Jesus e lhe ofertar as dádivas de ouro, incenso e mirra.  Mas será que eles foram os únicos a seguir a estrela de Belém? Bem, vamos imaginar que havia um quarto mago, que também viu a estrela e resolveu segui-la para adorar o Rei. Vamos lhe dar o nome de Artaban.
Médico, alto, moreno de olhos escuros: Artaban tinha a fisionomia de um sonhador e a mente de um sábio. Era um homem de muitas posses. Tinha vestes da mais fina seda e mantos da mais pura lã, e sua moradia era uma das mais exuberantes das montanhas da Pérsia.
Em uma noite, Artaban encontra-se com outros sábios persas. Eles investigam uma nova estrela que apareceu nos céus. Estão todos muito curiosos.
Artaban dirigiu-se aos presentes e disse, solenemente:
- Os sábios do passado nos disseram que os homens veriam nos céus, em tempo apontado pelo Eterno, a luz de uma nova estrela. Nesse dia um grande profeta nasceria, e Ele daria aos homens a vida eterna, incorruptível e imortal, e os mortos viveriam outra vez! Uma nova estrela brilha em nosso céu! Acredito que esse dia chegou!
Os meus três amigos e eu vimos essa grande luz brilhante há vários dias e vamos sair juntos para Jerusalém para ver e adorar o Prometido, o Rei de Israel. Vendi a minha casa e tudo o que possuo e comprei estas jóias, vejam! Uma safira, um rubi e uma pérola, todas para oferecer como tributo ao grande Rei. Venham comigo! Vamos todos juntos adorar o grande rei!
         "- Artaban! Isso é um sonho em vão. Nenhum rei vai nascer de Israel! Quem acredita nisso é um sonhador!"
E um a um, todos o deixaram.
"- Adeus amigo!"
Artaban pesquisando os céus viu de novo a estrela.
"- É o sinal!" Disse ele. "- O Rei vai chegar e eu vou encontrá-lo."
Artaban preparou o seu melhor cavalo, chamado Vasda, e de madrugada saiu ás pressas, pois, para encontrar no dia marcado com Gaspar, Melchior e Baltazar, que já estavam a caminho, ele precisava cavalgar noite e dia. Já estava escurecendo e ainda faltavam mais ou menos três horas de viagem para chegar ao sítio de encontro e ele precisava estar lá antes de meia noite ou os três magos não poderiam demorar mais à sua espera!
"- Mas, o que é isto?"
Na estrada, perto de umas palmeiras, o seu cavalo Vasda, pressentindo alguma coisa desconhecida, parou resfolegando, junto a um objeto escuro perto da última palmeira.
Artaban desmontou. A luz das estrelas revelou a forma de um homem caído na estrada. Um pobre hebreu entre os muitos que moravam por perto. A sua pele estava seca e amarela e o frio da morte já o envolvia. Artaban depois de examiná-lo, deu-o por morto e voltou-se com um coração triste pois nada podia fazer pelo pobre homem.
"- Mas o que foi isto?"
"- Que devo fazer? Se me demorar, os meus amigos procederão sem mim. Preciso seguir a estrela! Não posso perder a oportunidade de ver o Príncipe da Paz só para parar e dar um pouco de água a um pobre hebreu nas garras da morte!"
"- Deus da Verdade e da Pureza, dirige-me no teu caminho santo, o caminho da sabedoria que só tu conheces!"
E Artaban carregou o hebreu para a sombra de uma palmeira e tratou-o por muitos dias até que êle se recuperou.
"- Quem és tu?" perguntou ele ao mago.
"- Sou Artaban e vou a Jerusalém à procura daquele que vai nascer: O Príncipe da Paz e Salvador de todos os homens. Não posso me demorar mais, mas aqui está o restante do que tenho: pão, vinho, e ervas curativas."
O hebreu erguendo as mãos aos céus lhe disse:
"- Que o Deus de Abraão, Isaac e Jacó o abençoe; nada tenho para lhe pagar, mas ouça-me: Os nossos profetas dizem que o Messias deve nascer, não em Jerusalém mas em Belém de Judá."
Assim, já era muito mais de meia noite e vários dias mais tarde quando Artaban montou de novo o seu cavalo Vasda e num galope rápido prosseguiu ao encontro de seus amigos.
Aos primeiros raios do sol, checou ao lugar do encontro. Mas... onde estavam os três magos?
Artaban desmontou e ansioso, estudou todo o horizonte. Nem sinal da caravana de camelos dos seus amigos! Então entre uma pilha de pedras achou um pergaminho e a mensagem:
"- Não pudemos esperar mais, vamos ao encontro do Rei de Israel. Siga-nos através do deserto."
Artaban sentou-se e cobriu a cabeça em desespero!
"- Como posso atravessar o deserto sem ter o que comer e com um cavalo cansado? Tenho mesmo que regressar à Babilónia, vender a minha safira e comprar camelos e provisões para a viagem. Só Deus, o misericordioso, sabe se vou encontrar o Rei de Israel ou não, porque me demorei tanto ao mostrar caridade,"
Artaban continuou a via pelo deserto e finalmente chegou em Belém, levando o seu rubi e a sua pérola para oferecer ao Rei. Mas as ruas da pequena vila pareciam desertas. Pela porta aberta de uma casinha pobre, Artaban ouviu a voz de uma mulher cantando suavemente.
Entrou e encontrou uma jovem mãe acalentando o seu bebé.
Três dias passados Ela lhe falou sobre os três magos que estiveram na vila a que disseram terem sido guiados por uma estrela ao lugar onde José de Nazaré, sua esposa Maria, e o seu bebé Jesus estavam hospedados. Eles trouxeram prendas de ouro, incenso e mirra para o menino. Depois, desapareceram tão rapidamente quanto apareceram.
E a família de Nazaré também saiu à noite, em segredo, talvez para o Egito.
O bebê nos seus braços olhou para o rosto de Artaban e sorriu estendendo os braçinhos para ele.
"Não poderia essa criança, ser o Príncipe Prometido? Mas não! Aquele que procuro já não está aqui e eu preciso encontrá-lo no Egito!"
A Jovem mãe colocou o bebê no leito e preparou um almoço para o estranho hospede que veio à sua casa. Subitamente, ouviu-se uma grande comoção nas ruas: gritos de dor, o chorar de mulheres, tocar de trombetas e o clamor:
"- Soldados! os soldados de Herodes estão matando as nossas crianças!"
A jovem mãe, branca de terror escondeu-se no canto mais escuro da casa, cobrindo o filho com o seu manto para que ele não acordasse e chorasse.
Mas Artaban colocou-se em frente à porta da casa impedindo a entrada dos soldados. Um capitão aproximou-se para afastá-lo. A face de Artaban estava calma como se estivesse observando as estrelas. Fitou o soldado um instante e lhe disse:
"- Estou sozinho aqui, esperando para dar esta jóia ao prudente capitão que vai me deixar em paz."
E mostrou o rubi brilhando na palma da sua mão como uma grande gota de sangue.
Os olhos do capitão brilharam com o desejo de possuir tal jóia!
"- Marchem, Avante!" Gritou aos seus soldados. "- Não há criança aqui!"
E Artaban olhando os céus orou:
"- Deus da Verdade, perdoa o meu pecado! Eu disse uma coisa que não era, para salvar uma criança. E duas das minhas dádivas já se foram. Dei aos homens o que havia reservado para Deus. Poderei ainda ser digno de ver a face do Rei?"
E Artaban prosseguiu na sua procura entre as pirâmides do Egito, em Heliopólis, na nova Babilónia às margens do Nilo... Numa humilde casa em Alexandria, Artaban procurou o conselho de um velho rabi que lhe falou das profecias e do sofrimento do Messias prometido e receitado pelos homens.
"- E lembre-se, meu filho: o Rei que procuras não o vais encontrar num palácio ou entre os ricos e poderosos. Isto eu sei: os que O procuram devem fazê-lo entre os pobres e os humildes, os que sofrem e são oprimidos."
E Artaban passou por lugares onde a fome era grande. Fez a sua morada em cidades onde os doentes morriam na miséria. Visitou os oprimidos nas prisões subterrâneas, os escravos nos mercados de escravos...
Em toda a população de um mundo cheio de angústia ele não achou ninguém para adorar, mas muitos para ajudar! Ele alimentou os que tinham fome, cuidou dos doentes, e confortou os prisioneiros... E os anos passaram... 33 anos.
E os cabelos de Artaban já não eram pretos, eram brancos como a neve nas montanhas.
Velho, cansado e pronto para morrer era ainda um peregrino à procura do Rei de Israel e agora em Jerusalém onde havia estado muitas vezes na esperança de achar a família de Belém.
Os filhos de Israel estavam agora na cidade santa para a festa da Páscoa do Senhor e havia uma agitação e excitamento singular. Vendo um grupo de pessoas da sua terra, Artaban lhes perguntou o que se passava e para onde o povo se dirigia.
"- Para o Gólgota!" lhe responderam, "- ...pois não ouviste? Dois ladrões vão ser crucificados e com eles, um homem chamado Jesus de Nazaré, que dizem, fez coisas maravilhosas entre o povo. Mas os sacerdotes exigiram a Sua morte, porque disse ser o Filho de Deus. Pilatos O condenou a ser crucificado porque disseram ser Ele o Rei dos Judeus."
"Os caminhos de Deus são mais estranhos do que o pensamento dos homens," pensou Artaban. "Agora é o tempo de oferecer a minha pérola para livrar da morte o meu Rei!"
Ao seguir a multidão em direção ao portal de Damasco, um grupo de soldados apareceu arrastando uma jovem rapariga com vestes rasgadas e o rosto cheio de terror.
Ao ver o mago, a jovem reconheceu-o como da sua própria terra e libertando se dos guardas atirou-se aos pés de Artaban:
"- Tenha piedade!...", ela implorou,..."e pelo Deus da pureza, salva-me! Meu pai era mercador na Pérsia mas faleceu e agora vão me vender como escrava para pagar seus débitos! Salva-me!"
Artaban tremeu. Era o velho conflito da sua alma entre a fé, a esperança e o impulso do amor.
Duas vezes as dádivas consagradas foram dadas para a humanidade. E agora? Uma coisa ele sabia:
"- Salvar essa jovem indefesa era um gesto de amor. E não é o amor a luz da alma?"
Ele tirou a pérola de junto ao seu coração. Nunca ela pareceu tão luminosa! Colocou-a na mão da moça:
"- Este é o teu pagamento, o último dos tesouros que guardei para o Rei!"
Enquanto ele falava uma escuridão profunda envolveu a terra que tremeu consultivamente!
Casas caíram, os soldados fugiram mas Artaban e a moça protegeram-se de baixo do telhado sobre as muralhas do Pretório.
"- O que tenho a temer," pensou ele," ...e para quê viver? Não há mais esperança de encontrar o Rei, a procura terminou, eu falhei."
Mas mesmo esse pensamento lhe trouxe paz pois sabia que viveu de dia a dia da melhor maneira que soube. Se tivesse que viver de novo a sua vida não poderia ser de outra maneira.
Mais um tremor de terra e uma telha desprendeu-se do telhado e feriu o velho mago na cabeça. Repousou no chão e deitou a cabeça nos ombros da jovem com o sangue a escorrer do ferimento.
Ao debruçar-se sobre ele, ela ouviu uma voz suave, como música vindo da distancia. Os lábios de Artaban moveram-se como em resposta e ela escutou o que o velho mago disse na sua própria língua:
"- Não meu Senhor! Quando te vi com fome e te dei de comer? ou com sede e te dei de beber? ou quando te vi enfermo ou na prisão e fui te ver? Por 33 anos eu te procurei, mas nunca vi a tua face, nem te servi, meu Rei!"
E uma voz suave veio, mas desta vez dos céus. A jovem também compreendeu as palavras.
"- Em verdade, em verdade vos digo que quando o fizeste a um destes meus irmãos a mim o fizeste!"
Uma alegria radiante iluminou a face calma de Artaban.
Um suspiro longo e aliviado saiu de seus lábios.
A viagem para ele havia terminado.
O quarto mago, Artaban, compreendeu que havia encontrado o seu Rei durante toda a sua vida!

Henry van Dyke


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