2. A
fidelidade
O
passado não é mais, o futuro ainda não é; o esquecimento e a improvisação são
fatos naturais. O que é mais improvisado, a cada vez, do que a primavera? E o
que é esquecido mais depressa? A própria repetição, tão impressionante, não
passa de um logro: é por se esquecerem que as estações se repetem, e justamente
por causa do que torna a natureza sempre nova que ela só inova raramente. Toda
invenção verdadeira, toda criação verdadeira supõe a memória. Foi o que viu
Bergson, que por isso teve de inventar uma memória do mundo (a duração); mas
essa memória seria Deus, e é por isso que ela não existe. A natureza se esquece
de ser Deus, ou Deus se esquece na natureza. Se há uma história do universo – e
é claro que há -, ela é uma seqüência de improvisações caóticas ou incertas,
sem projeto (nem mesmo o de improvisar) nem memória. O contrário de uma obra,
ou que só obra por casualidade. Um prodígio improvável e sem amanhã. Porque o
que dura ou se repete só ocorre mudando, e nada começa que não deva acabar. A
inconstância é a regra. O esquecimento é a regra. O real, de instante em instante,
é sempre novo, e essa novidade cabal, essa novidade perene é o mundo.
A
natureza é a grande esquecidiça, e é nisso também que ela é material. A matéria
é o próprio esquecimento – só há memória do espírito. Portanto, o esquecimento
é que terá a última palavra, como teve a primeira, como não pára de ter. O real
é essa primeira palavra do ser, essa perpétua primeira palavra. Como poderia
querer dizer algo? A criança-rei (o tempo) não é gaga, no entanto; ela não fala
nem se cala, não inventa nem repete. Inconstância, esquecimento, inocência:
realeza de uma criança! O devir é infiel, e mesmo as estações são volúveis.
Mas há
o espírito, mas há a memória. De pouco peso, de pouca duração. Essa fragilidade
é o próprio espírito. Mortal no coração dos mortais – mas vivo, como espírito,
pela lembrança que guarda dele! O espírito é memória, e talvez seja apenas
isso. Pensar é lembrar-se de seus pensamentos; querer é lembrar-se do que se
quer. Não é, por certo, que só se possa pensar o mesmo ou querer o que já se
quis. Mas o que seria uma invenção sem memória? E uma decisão sem memória? Como
o corpo é o presente do presente, o espírito é o presente do passado, no duplo
sentido da palavra presente: o que o passado nos lega e, em nós, o que
permanece. É o que santo Agostinho chamava de “presente do passado”, e é isso a
memória. O espírito começa aí. O espírito preocupado, o espírito fiel.
A
preocupação, que é a memória do futuro, faz-se lembrar suficientemente a nós. É
sua natureza, ou melhor, é a nossa. Quem esqueceria – fora os sábios e os
loucos – que tem futuro? E quem, fora os maus, só se preocuparia com o seu? Os
homens são egoístas com certeza, mas menos absolutamente do que às vezes se
imagina: ei-los, mesmo quando não têm filhos, a se preocupar com as gerações
futuras, e é uma bela preocupação. O mesmo homem que não se angustia com seus
cigarros inquieta-se com um buraco no ozônio. Despreocupado consigo, preocupado
com os outros. Quem iria censurá-lo por isso? O fato é que não esquecemos o
futuro (esqueceríamos antes o presente!), e tanto menos quanto mais o
ignoramos.
O
passado é mais desprovido. O futuro nos inquieta, o futuro nos atormenta. Seu
nada constitui sua força. Do passado, ao contrário, parece que não temos mais
nada a temer, mais nada a esperar, e isso sem dúvida não é totalmente errado.
Epicuro fez disso uma sabedoria: na tempestade do tempo, o porto profundo da
memória... Mas o esquecimento é um porto mais seguro. Se os neuróticos sofrem
de reminiscência, como dizia Freud, a sanidade psíquica bem que deve, em alguma
coisa, alimentar-se de esquecimento. “Deus preserve o homem de esquecer de
esquecer!”, escreve o poeta, e Nietzsche também enxergou muito bem onde estavam
a vida e a felicidade. “É possível viver quase sem lembrança, e viver feliz,
como demonstra o animal, mas é impossível viver sem esquecer.” Portanto,
anotemos. Mas a vida é o objetivo? A felicidade é o objetivo? Pelo menos essa
vida e essa felicidade? Devemos invejar o animal, a planta, a pedra? E mesmo
que os invejássemos, deveríamos nos submeter a essa inveja? Que restaria do
espírito? Que restaria da humanidade? Devemos tender unicamente à sanidade ou à
higiene? Pensamento sanitário, que aí encontra sua força e seus limites.
Mesmo que o espírito fosse uma doença, mesmo que a humanidade fosse uma
desgraça, essa doença, essa desgraça são nossas – pois são nós, pois só somos
por elas. Do passado, não façamos tábua rasa. Toda a dignidade do homem está no
pensamento; toda a dignidade do pensamento está na memória. Pensamento
esquecidiço talvez seja pensamento, mas sem espírito. Desejo esquecidiço é
desejo, sem dúvida, mas sem vontade, sem coração, sem alma. A ciência e o
animal dão mais ou menos uma idéia disso – embora isso não seja verdade para
todos os animais (alguns são fiéis, dizem) nem, talvez, para todas as ciências.
Pouco importa. O homem só é espírito pela memória, só é humano pela fidelidade.
Guarde-se, homem, de se esquecer de se lembrar!
O
espírito fiel é o próprio espírito.
Pego o
problema de longe, porque ele é imenso. A fidelidade não é um valor entre
outros, uma virtude entre outras: ela é aquilo por que, para que há valores e
virtudes. Que seria a justiça sem a fidelidade dos justos? A paz, sem a
fidelidade dos pacíficos? A liberdade, sem a fidelidade dos espíritos livres? E
que valeria a própria verdade sem a fidelidade dos verídicos? Ela não seria
menos verdadeira, decerto, mas seria uma verdade sem valor, da qual nenhuma
virtude poderia nascer. Não há sanidade sem esquecimento, talvez; mas não há
virtude sem fidelidade. Higiene ou moral. Higiene e moral. Porque não se
trata de esquecer nada, nem de ser fiel a qualquer coisa. Nem a sanidade basta,
nem a santidade de impõe. “Não se trata de ser sublime, basta ser fiel e
sério.” Aí está. A fidelidade é virtude de memória, e a própria memória como
virtude.
Mas que
memória? Ou memória de quê? E em que condições? E dentro de que limites? Não se
trata, repitamos, de ser fiel a qualquer coisa; já não seria fidelidade, e sim
passadismo, obstinação bitolada, teima, rotina, fanatismo... Toda virtude se
opõe a dois excessos, lembraria um aristotélico: a versatilidade é um, a
obstinação é outro, e a fidelidade rejeita ambos igualmente. Meio-termo? Se
quisermos, mas não como entendem os tíbios ou os frívolos (não se trata de ser
um pouco versátil e um pouco obstinado!). O centro do alvo daria a idéia disso,
melhor do que o atoleiro de nossas assembléias. Cumeada, dizia eu, entre dois
abismos. A fidelidade não é nem versátil nem obstinada, e é nisso que é fiel.
Quer
dizer, então, que ela vale em si mesma? Para si mesma? Por si mesma? Não, ou
não somente. É sobretudo seu objeto que constitui seu valor. Não se muda de
amigo como de camisa, notava aproximadamente Aristóteles, e seria tão ridículo
ser fiel a suas roupas quanto condenável não o ser a seus amigos – salvo, como
diz alhures o filósofo, “excesso de perversidade da parte deles”. A fidelidade
não desculpa tudo: ser fiel ao pior é pior do que renegá-lo. Os SS juravam
fidelidade a Hitler; essa fidelidade no crime era criminosa. Fidelidade ao mal é
má fidelidade. E “a fidelidade na tolice”, observa Jankélévitch, “é uma tolice
mais”. Cabe aqui – fidelidade de escolar, ainda que rebelde – citar mais
longamente o Mestre:
A
fidelidade é ou não louvável? “Conforme”, ou seja: depende dos valores a que se
é fiel. Fiel a quê? (...) Ninguém dirá que o ressentimento é uma
virtude, embora ele permaneça fiel a seu ódio ou a suas cóleras; a boa memória
da afronta é uma má fidelidade. Tratando-se de fidelidade, o epíteto não é
tudo? E há ainda uma fidelidade às pequenas coisas, que é mesquinharia e tenaz
memória das bagatelas, repisamento e teima. (...) A virtude que queremos não é,
pois, toda fidelidade, mas apenas boa fidelidade e grande fidelidade.
(Jankélévitch)
Muito
bem: a fidelidade amante, fidelidade virtuosa, fidelidade voluntária. Não basta
lembrar-se. Pode-se esquecer sem ser infiel, aliás, e ser infiel sem esquecer.
Melhor, a infidelidade supõe a memória: uma pessoa só pode ser fiel ou
infiel àquilo de que se lembra (um amnésico não poderia nem manter nem trair
sua palavra), e é nisso que fidelidade e infidelidade são duas formas opostas
da lembrança, uma virtuosa, a outra não. A fidelidade é “a virtude do Mesmo”,
dizia ainda Jankélévitch; mas num mundo em que tudo muda, e é o mundo, só há mesmo
por obra da memória e da vontade. Ninguém se banha duas vezes no mesmo rio, nem
ama duas vezes a mesma mulher. Pascal: “Ele já não ama a pessoa que amava há
dez anos. Acredito: ela não é mais a mesma, ele também não. Ele era jovem, ela
também; ela está completamente diferente. Ele talvez ainda a amasse, tal como
ela era então.” A fidelidade é a virtude do mesmo, pela qual o mesmo existe ou
resiste.
Por que
eu manteria minha promessa da véspera, já que não sou mais o mesmo hoje? Por
quê? Por fidelidade. É esse, de acordo com Montaigne, o verdadeiro fundamento
da identidade pessoal: “O fundamento de meu ser e de minha identidade é
puramente moral: ele está na fidelidade à fé que jurei a mim mesmo. Não sou
realmente o mesmo de ontem; sou o mesmo unicamente porque eu me confesso
o mesmo, porque assumo um certo passado como sendo meu, e porque
pretendo, no futuro, reconhecer meu compromisso presente como sempre meu.” Não
há sujeito moral sem fidelidade de si para consigo, e é nisso que a fidelidade
é devida: pois de outro modo não haveria deveres! É nisso também que a
infidelidade é possível: como a fidelidade é virtude da memória, assim a
infidelidade é sua falta (muito mais que seu defeito ou sua ausência). A
anamnésia não é tudo: a boa memória nem sempre é boa, a lembrança precisa nem
sempre é amante ou respeitosa. Virtude de memória é mais que memória;
fidelidade é mais que exatidão. A fidelidade é o contrário, não do
esquecimento, mas da versatilidade frívola ou interessada, do renegamento, da
perfídia, da inconstância. É verdade, porém, que ela se opõe ao esquecimento –
como toda virtude se opõe à ladeira que ela sobe -, que a infidelidade, ao
contrário, acaba por acarretar: traímos primeiro aquilo de que nos lembramos,
depois esquecemos o que traímos... A infidelidade se abole, assim, em seu
triunfo, ao passo que a fidelidade só triunfa, sempre provisoriamente,
recusando abolir-se (não conhece outro triunfo, quero dizer, além da
perpetuação sem fim do combate contra o esquecimento ou o renegamento).
Fidelidade desesperada, escreve Jankélévitch, e não serei eu a
censurá-lo por isso. É que “não é igual a luta entre a maré irresistível do
esquecimento, que, com o tempo, submerge todas as coisas, e os protestos
desesperados, mas intermitentes, da memória; recomendando-nos o esquecimento,
os professores de perdão aconselham-nos, pois, o que não precisa ser
aconselhado: os próprios esquecidiços se encarregarão de fazê-lo, é tudo o que
querem. É o passado que reclama nossa piedade e nossa gratidão, pois o passado
não se defende sozinho, como se defendem o presente e o futuro...” É este o
dever da memória: piedade e gratidão pelo passado. O duro dever, o exigente
dever, o imprescritível dever de ser fiel!
Evidentemente
esse dever tem sua gradação. Jankélévitch, no texto que acabo de citar, pensa
nos campos de concentração nazista e no martírio do povo judeu. Martírio
absoluto: dever absoluto. Não temos de ser fiéis ao mesmo título, nem no mesmo
grau, a nossos primeiros amores ou aos campeões de ciclismo que entusiasmaram
nossa infância... A fidelidade só deve dirigir-se ao que vale, e
proporcionalmente – se ouso dizer, já que se trata de grandezas por natureza
não-quantificáveis – ao valor do que vale. Fidelidade primeiro ao sofrimento, à
coragem desinteressada, ao amor... Assalta-me uma dúvida: o sofrimento é,
então, um valor? Não, é claro, tomado em si mesmo, ou então apenas negativo: o
sofrimento é um mal, e seria um engano ver nele uma redenção. Mas, embora o
sofrimento não seja um valor, toda vida sofrida, sim, o é, pelo amor que exige
ou merece: amar quem sofre (a caridade dos cristãos, a compaixão dos budistas,
a commiseratio dos spinozistas...) é mais importante do que amar o que é
belo ou grande, e o valor nada mais é do que o que merece ser amado. É nisso
que toda fidelidade – seja ela fidelidade a um valor ou a alguém – é fidelidade
ao amor e pelo amor. Fidelidade é amor fiel, o uso comum não se engana a esse
respeito, ou só se engana enganando-se sobre o amor (se o limitar,
erroneamente, apenas às relações do casal). Não que todo amor seja fiel (é por
isso que a fidelidade não se reduz ao amor); mas toda fidelidade é amante,
sempre (fidelidade no ódio não é fidelidade, mas rancor ou perseguição), e boa
por isso, amável por isso. Fidelidade, pois, à fidelidade – e aos diferentes
graus de fidelidade!
Quanto
aos domínios particulares, não terminaríamos de enumerá-los. Permitam-me
evocar, e bem rapidamente, apenas três: o pensamento, a moral, o casal.
Que
existe uma fidelidade do pensamento, é mais do que claro. Não se pensa qualquer
coisa, pois pensar qualquer coisa não seria mais pensar. A própria dialética,
tão cômoda aos sofistas, só é um pensamento pela fidelidade às suas leis, às
suas exigências, à própria contradição que ela assume e supera. “Não se deve
confundir”, dizia Sartre, “dialética com o borboletear das idéias.” A
fidelidade é mais ou menos o que as distingue, como podemos ver na grande Lógica
de Hegel, toda ela fiel a seu começo e a seu improvável rigor. Mais geralmente,
podemos dizer que um pensamento só escapa do nada ou do bate-papo pelo esforço,
que o constitui, em resistir ao esquecimento, à inconstância das modas ou dos
interesses, às seduções do momento ou do poder. Todo pensamento, observa Marcel
Conche, “correrá continuamente o risco de perder-se, se não fizermos o esforço
de guardá-lo. Não há pensamento sem memória, sem luta contra o esquecimento e o
risco de esquecimento.” Isso significa que não há pensamento sem fidelidade:
para pensar, é preciso não apenas lembrar (o que ainda não permitiria mais que a
consciência, e nem toda consciência é pensamento), mas querer lembrar. A
fidelidade é essa vontade, ou antes, é seu ato e sua virtude.
Acaso
ela não supõe também a vontade de sempre pensar o que lembramos ter pensado?
Vontade, pois, não apenas de lembrar, mas de não mudar? Sim e não. Sim, pois
querer lembrar-se de um pensamento seria inútil se este só devesse valer como
lembrança, como um bibelô mental ou conceitual: ser fiel a suas idéias é não
apenas lembrar-se de que as teve, mas querer conservá-las vivas (querer
lembrar-se não apenas de que as teve, mas de que as tem). E não, porém,
porque querer conservá-las à força seria recusar submetê-las, se necessário, à
prova da discussão, da experiência ou da reflexão: ser fiel mais a seus
pensamentos do que à verdade seria ser infiel ao pensamento como tal e
condenar-se, ainda que por uma boa causa, à sofística. Fidelidade à verdade,
antes de tudo! É nisso que a fidelidade se distingue da fé e, a fortiriori,
do fanatismo. Ser fiel, para o pensamento, não é recusar-se a mudar de idéia
(dogmatismo), nem submeter suas idéias a outra coisa que não a elas mesmas
(fé), nem considerá-las como absolutos (fanatismo); é recusar-se a mudar de
idéia sem boas e fortes razões e – já que não se pode examinar sempre – é dar
por verdadeiro, até novo exame, o que uma vez foi clara e solidamente julgado.
Nem dogmatismo, pois, nem inconstância. Tem-se o direito de mudar de idéia, mas
apenas quando é um dever. Fidelidade à verdade, antes de tudo, depois à
lembrança da verdade (à verdade conservada): este é o pensamento fiel,
isto é, o pensamento.
Quando
digo que a ciência não se ocupa disso, compreendam-me corretamente: não se
trata, é óbvio, dos cientistas nem, portanto, da ciência em via de se fazer.
Mas, considerando-a em seus resultados, a ciência vive no presente e está
sempre esquecendo seus primeiros passos. A filosofia, ao contrário, está sempre
continuando os seus, desde o início. Que físico relê Newton? Que filósofo não
relê Aristóteles? A ciência progride e esquece; a filosofia medita e se lembra.
Aliás, o que é a filosofia, senão uma fidelidade extrema ao pensamento?
Mas
vamos à moral. Faz parte da sua essência que ela tem algo a ver com a
fidelidade. Kant, porém, não estaria de acordo com isso: a fidelidade é um
dever, ele teria dito (por exemplo, entre amigos ou esposos), mas o dever não
poderia ser reduzido à fidelidade. A lei moral, por ser atemporal, está sempre
diante de nós; trata-se não de ser fiel, mas de obedecer. Fidelidade a quê, de
resto? Se é ao que o dever prescreve, ela é supérflua (pois o dever, fidelidade
ou não, se impõe por si mesmo); se é a outra coisa, é acessória (pois só o
dever importa absolutamente). Quanto à fidelidade que o dever impõe (fidelidade
à palavra empenhada, fidelidade conjugal...), ela é, para Kant, apenas um caso
particular do dever e a ele se reduz. A fidelidade está subordinada à lei
moral; não a lei moral à fidelidade.
Sim, se
é que há uma lei moral, no sentido em que Kant a entende: universal, absoluta,
atemporal, incondicional... Se é que há, pois, uma razão prática, que comanda
absolutamente, sem nenhuma preocupação com o tempo ou o espaço. Mas que sabemos
de uma razão assim? Que experiência temos dela? E quem pode acreditar nela,
hoje em dia? Kant teria razão se houvesse uma lei moral universal e absoluta,
logo um fundamento objetivo da moral. Mas não os conheço, e é esse o destino
que nossa época nos impõe, parece-me: termos de ser morais sem já crermos na
verdade (absoluta) da moral. Em nome de que, pois, sermos virtuosos? Em nome da
fidelidade: por fidelidade à fidelidade! É o espírito judaico contra a razão
alemã, se quisermos, e só ele é capaz de salvá-la da barbárie. Que ingenuidade,
objetaria Bergson a Kant, pretender fundar a moral sobre o culto da razão, em
outras palavras, na prática, sobre o respeito ao princípio de não-contradição!
Cavaillès, como grande lógico que era, dirá a mesma coisa. Que uma moral deva
ser razoável, é óbvio, pois deve ser universal (em todo caso, universalizável);
mas nenhuma razão basta para tanto: “Diante de uma tendência um pouco forte, o
princípio de não-contradição nada pode, e as mais fulgurantes evidências se
atenuam. A geometria nunca salvou ninguém.” Não há virtude more geometrico.
Em que a barbárie é menos coerente do que a civilização? A avareza menos lógica
que a generosidade? E, ainda que fossem, em que isso é um argumento contra a
barbárie ou a avareza? Evidentemente, não se trata de renunciar à razão, pois o
espírito não sobreviveria a isso. Trata-se simplesmente de não confundir a
razão, que é fidelidade ao verdadeiro, com a moral, que é fidelidade à lei e ao
amor. Ambas podem ir de par, é claro, e é isso que chamo de espírito. Mas razão
e moral nem por isso deixam de ser duas, e irredutíveis uma à outra. Em outras
palavras, a moral não é verdadeira, mas é válida: ela é objeto não de
conhecimento (pelo menos o conhecimento que podemos ter dela é incapaz de
exibir seu valor), mas de vontade. Não atemporal, mas histórica. Não à nossa
frente, mas atrás de nós. Se não há fundamento para a moral, se não pode haver,
a fidelidade é o que faz as vezes dele. Por ela, submetemo-nos não à
atemporalidade de uma lei moral universal, mas à historicidade de um valor, à
presença em nós, sempre particular, do passado, quer se trate do passado da
humanidade em geral (a cultura, a civilização: o que nos separa da barbárie),
quer se trate, em particular, de nosso passado pessoal ou daquele de nossos
pais (o superego de Freud, a educação de cada um: o que separa nossa
moral da moral dos outros). Fidelidade à lei, não como divina mas como humana,
não como lei universal mas como particular (mesmo que essa lei seja
universalizável, e deve sê-lo), não como lei atemporal mas como histórica:
fidelidade à história, fidelidade à civilização e às Luzes, fidelidade à humanidade
do homem! Não se trata de trair o que a humanidade fez de si, que nos fez.
A moral
começa pela polidez, dizia eu; ela continua – mudando de natureza – pela
fidelidade. Fazemos primeiro o que se faz; depois, impomo-nos o que se deve
fazer. Primeiro respeitamos as boas maneiras, depois as boas ações. Os bons
costumes, depois a própria bondade. Fidelidade ao amor recebido, ao exemplo
admirado, à confiança manifestada, à exigência, à paciência, à impaciência, à
lei… O amor da mãe, a lei do pai. Não estou inventando nada, mas esquematizando
muito. Cada um, porém, sabe o bastante a esse respeito. O dever, a proibição, o
remorso, a satisfação de ter agido corretamente, a vontade de fazer direito, o
respeito ao outro… Tudo isso “depende, no mais alto grau, da educação”, como
dizia Spinoza, o que não é motivo para dispensá-lo! É apenas moral, sem dúvida,
e a moral não é tudo, e a moral não é o essencial (o amor e a verdade importam
mais). Contudo, quem, fora o sábio ou o santo, poderia prescindir dela? E como
ela poderia prescindir da fidelidade? A fidelidade está no princípio de toda
moral; ela é o contrário da “derrubada de todos os valores”, a qual deveria
derrubar também a fidelidade, e não o pode, e se julga por isso. “Queremos ser herdeiros
de toda a moralidade anterior”, dizia Nietzsche, “não pretendemos
começar com novos gastos. Toda nossa ação nada mais é que uma moralidade em
revolta contra sua forma anterior.” Essa revolta e essa herança são, mais uma
vez, fidelidade. E temos mesmo de nos revoltar? Contra quem? Contra Sócrates?
Contra Epicteto? Contra o Cristo dos Evangelhos? Contra Montaigne? Contra
Spinoza? Quem poderia? Quem quereria? Como não ver que são, no essencial,
fiéis, uns e outros, aos mesmos valores, aos quais só se poderia renunciar
renunciando à humanidade? “Não vim abolir, mas realizar…” Palavra de fiel – e
mais bela ainda sem a fé, e mais urgente ainda sem a fé. Fidelidade não a Deus,
mas ao homem, e ao espírito do homem (à humanidade não como fato biológico, mas
como valor cultural). Todas as barbáries deste século foram desencadeadas em
nome do futuro (o Reich de mil anos, o “amanhã cantante”, ou que deveria
cantar, do stalinismo…). Ninguém me tira a idéia de que se resistiu a elas,
moralmente, apenas por fidelidade a um certo passado. O bárbaro é o infiel.
Mesmo o amanhã cantante só é moralmente desejável em nome de valores muito
antigos; foi o que Marx viu e que os marxistas começam a compreender. Não há
moral do futuro. Toda moral, como toda cultura, vem do passado. Não há moral
que não seja fiel.
Para o
casal é outra história. Que há casais fiéis e outros não, é uma verdade de
fato, que não parece, ou já não parece, atingir o essencial. Pelo menos se
entendemos por fidelidade, nesse sentido restrito, o uso exclusivo, e
mutuamente exclusivo, do corpo do outro. Por que só amaríamos uma pessoa? Por
que só desejaríamos uma pessoa? Ser fiel a suas idéias não é (felizmente!) ter
uma só idéia; nem ser fiel em amizade supõe que tenhamos um só amigo.
Fidelidade, nesses domínios, não é exclusividade. Por que deveria ser diferente
no amor? Em nome do que poderíamos pretender o desfrute exclusivo do outro? É
possível que isso seja mais cômodo ou mais seguro, mais fácil de viver, talvez,
no fim das contas, mais feliz, e, enquanto houver amor, até acredito que seja.
Mas nem a moral nem o amor parecem-me estar presos a isso por princípio. Cabe a
cada um escolher, de acordo com sua força ou com suas fraquezas. A cada um, ou
antes a cada casal: a verdade é valor mais elevado do que a exclusividade, e o
amor me parece menos traído pelo amor (pelo outro amor) do que pela
mentira. Outros pensarão o contrário, talvez eu também, em outro momento. Não é
isso o essencial, parece-me. Há casais livres que são fiéis, à sua maneira
(fiéis ao seu amor, fiéis à sua palavra, fiéis à sua liberdade comum…). E
tantos outros, estritamente fiéis, tristemente fiéis, em que cada um dos dois
preferiria não o ser… O problema, aqui, é menos a fidelidade do que o ciúme,
menos o amor do que o sofrimento. Não é mais meu tema. Fidelidade não é
compaixão. Serão duas virtudes? Sem dúvida, mas, justamente: são duas. Não
fazer sofrer é uma coisa; não trair é outra, e é o que se chama fidelidade.
O
essencial é saber o que faz com que um casal seja um casal. O simples encontro
sexual, por mais repetido que seja, não bastaria evidentemente para tanto. Mas
também não a simples coabitação, por mais duradoura que seja. O casal, no
sentido em que uso a palavra, supõe tanto o amor como a duração. Supõe,
portanto, a fidelidade, pois o amor só dura sob a condição de prolongar a
paixão (breve demais para fazer um casal, suficiente para desfazê-lo!) por
memória e vontade. É o que significa o casamento, sem dúvida, e que o divórcio
vem interromper. Se bem que… Uma amiga minha, divorciada, depois recasada, dizia-me
que permanecia fiel, em alguma coisa, a seu primeiro marido. “Quero dizer”,
explicou-me, “ao que vivemos juntos, a nossa história, a nosso amor… Não quero
renegar tudo isso.” Nenhum casal, com maior razão, poderia durar sem essa
fidelidade, em cada um, à sua história comum, sem esse misto de confiança e de
gratidão pelo qual os casais felizes (há alguns) se tornam tão comoventes, ao
envelhecer, mais até que os namorados que começam, que, na maioria dos casos,
ainda não fazem mais que sonhar seu amor. Essa fidelidade me parece preciosa,
mais que a outra, e mais essencial ao casal. Que o amor se aplaque ou decline,
é sempre o mais provável, e é bobagem afligir-se com isso. Mas quer se separe,
quer continue a viver junto, o casal só continuará sendo casal por essa
fidelidade ao amor recebido e dado, ao amor partilhado e à lembrança voluntária
e reconhecida desse amor. Fidelidade é amor fiel, dizia eu, e assim é também o
casal, mesmo o casal “moderno”, mesmo o casal “livre”. A fidelidade é o amor
conservado ao que aconteceu, o amor ao amor, no caso, amor presente (e
voluntário, e voluntariamente conservado) ao amor passado. Fidelidade é amor
fiel, e fiel antes de tudo ao amor.
Como eu
poderia jurar que sempre te amarei ou que não amarei outra pessoa? Quem pode
jurar seus sentimentos? E para que, quando não há mais amor, manter a ficção,
os encargos ou as exigências do amor? Mas isso não é motivo para renegar ou não
reconhecer o que houve. Por que precisaríamos, para amar o presente, trair o
passado? Eu juro não que sempre te amarei, mas que sempre permanecerei fiel a
esse amor que vivemos.
O amor
infiel não é o amor livre: é o amor esquecidiço, o amor renegado, o amor
que esquece ou detesta o que amou e que, portanto, se esquece ou se detesta.
Mas será isso ainda amor?
Ama-me
enquanto desejares, meu amor; mas não nos esqueça.