Pequeno tratado das grandes virtudes
12 - A simplicidade
À humildade às vezes falta simplicidade, por
causa dessa duplicação de si para si que ela supõe. Julgar-se é levar-se a
sério demais. O simples não se questiona tanto assim sobre si mesmo. Porque se
aceita como é? Já seria dizer demais. Ele não se aceita nem se recusa. Não se
interroga, não se contempla, não se considera. Não se louva nem se despreza.
Ele é o que é, simplesmente, sem desvios, sem afetação, ou antes – pois ser
lhe parece uma palavra grandiosa demais para tão pequena existência -, faz o
que faz, como todos nós, mas não vê nisso matéria para discursos, para
comentários, nem mesmo para reflexão. Ele é como os passarinhos de nossas
florestas, leve e silencioso sempre, mesmo quando canta, mesmo quando pousa. O
real basta ao real, e essa simplicidade é o próprio real. Assim é o simples: um
indivíduo real, reduzido à sua expressão mais simples. O canto? O canto, às
vezes; o silêncio, mais freqüentemente; a vida, sempre. O simples vive como
respira, sem maiores esforços nem glória, sem maiores efeitos nem vergonha. A
simplicidade não é uma virtude que se some à existência. É a própria
existência, enquanto nada a ela se soma. Por isso é a mais leve das virtudes, a
mais transparente e a mais rara. É o contrário da literatura: é a vida sem
frases e sem mentiras, sem exagero, sem grandiloqüência. É a vida
insignificante, a verdadeira vida.
A simplicidade é o contrário da duplicidade, da
complexidade, da pretensão. Por isso é tão difícil. Não é sempre dupla a
consciência, que só é consciência de alguma coisa? Não é sempre complexo o
real, que só é real pelo entrelaçamento em si das causas e das funções? Não é
sempre pretensioso todo homem, assim que se esforça para pensar? Que outra
simplicidade além da tolice? Da inconsciência? Do nada?
O homem simples pode não se fazer essas
indagações. O que não as anula, nem nos basta para resolvê-las. Simplicidade
não é simploriedade. Mas essas questões tampouco poderiam anular a simplicidade
de tudo, nem a virtude ligada a ela. Inteligência não é congestionamento,
complicação, esnobismo. Que o real é complexo, não há dúvida, e de uma
complexidade infinita, por certo. Poderá ser infindável descrever ou explicar
uma árvore, uma flor, uma estrela, uma pedra… Isso não as impede de serem
simplesmente o que são (sim: muito simplesmente e muito exatamente o que são,
sem nenhuma falta, sem nenhuma duplicidade, sem nenhuma pretensão!), nem obriga
ninguém a se perder nesse infinito da descrição ou do conhecimento.
Complexidade de tudo: simplicidade de tudo. “A rosa não tem porquê, floresce
porque floresce, não se preocupa consigo, não deseja ser vista…” O que há de
mais complicado do que uma rosa, para quem a quer compreender? O que há de mais
simples, para quem não quer nada? Complexidade do pensamento: simplicidade do
olhar. “Tudo é mais simples do que podemos imaginar e, ao mesmo tempo, mais
intrincado do que poderíamos conceber”, dizia Goethe. Complexidade das causas:
simplicidade da presença. Complexidade do real: simplicidade do ser. “O
contrário do ser não é o nada”, escreve Clément Rosset, “mas o duplo”. O
contrário do simples não é o complexo, mas o falso.
A simplicidade no homem – a simplicidade como
virtude – tampouco tem porque negar a consciência ou o pensamento. Ao
contrário, ela se reconhece por essa sua capacidade de, sem anular uma e outro,
ir além de ambos, libertar-se de ambos, não se deixar enganar por eles, nem ser
sua prisioneira. Que toda consciência seja dupla, pois é consciência de um
objeto (intencionalidade) e da consciência que toma dele (reflexividade), está
bem. Mas isso nada prova contra a simplicidade do real, nem da vida, nem mesmo
da consciência pura, pré-reflexiva e antepredicativa, sem a qual nenhuma
predicação e nenhuma reflexão seriam possíveis. Simplicidade não é
inconsciência, simplicidade não é tolice; o espírito simples não é um simples
de espírito! A simplicidade constitui, ao contrário, o “antídoto da
reflexividade” e da inteligência, que evita que estas se envaideçam, se percam
em si e com isso percam o real, se dêem demasiada importância, dissimulem,
façam enfim obstáculo àquilo mesmo que pretendem revelar ou desvelar. A
simplicidade aprende a se desprender, ou antes, ela é esse desprendimento de
tudo e de si mesmo: “Largar de mão”, como diz Bobin, “acolher o que vem, sem
nada guardar como coisa sua…” Simplicidade é nudez, despojamento, pobreza. Sem
outra riqueza senão tudo. Sem outro tesouro senão nada. Simplicidade é
liberdade, leveza, transparência. Simples como o ar, livre como o ar: a
simplicidade é o ar do pensamento, como uma janela aberta para o grande sopro
do mundo, para a infinita e silenciosa presença de tudo… Há algo mais simples que
o vento? Há algo de mais aéreo que a simplicidade?
Intelectualmente, talvez não seja diferente do
bom senso, que é o julgamento reto, quando não é estorvado por aquilo que sabe
ou crê, mas aberto primeiro ao real, à simplicidade do real e, como sempre, novo
em cada uma de suas operações. É a razão, quando ela não se engana a seu
próprio respeito: razão lúcida, razão encarnada, razão mínima, se quisermos,
mas que é a condição de todas. Entre duas demonstrações, entre duas hipóteses,
entre duas teorias, os cientistas costumam privilegiar a mais simples: é
apostar na simplicidade do real, mais do que na força de nosso espírito. Essa
escolha, que não tem como ser provada, é entretanto de bom senso. Aconteceu-me
muitas vezes lamentar que os filósofos, sobretudo os filósofos contemporâneos,
façam ordinariamente a escolha inversa, preferindo o mais complicado, o mais
obscuro, o mais contorto… Isso os protege contra qualquer refutação e torna
suas teorias tão inverossímeis quanto enfadonhas. Complicação não do real, mas
do pensamento: má complicação. Mais vale “uma verdade simples e ingênua”, como
dizia Montaigne, decerto proporcional à complexidade do real, quando
necessário, mas sem lhe acrescentar os enredamentos de nosso espírito nem
confundi-la com estas. A inteligência é a arte de reduzir o mais complexo ao
mais simples, não o inverso. Inteligência de Epicuro, inteligência de
Montaigne, inteligência de Descartes… E inteligência, hoje, de nossos
cientistas. Há coisa mais simples do que E=mc2? Simplicidade
do real, mesmo que mais complexo; clareza do pensamento, mesmo que difícil.
“Aristófanes, o gramático, não sabia como reaver em Epicuro a simplicidade de
suas palavras e a fineza de sua arte oratória, que era apenas a clareza de
linguagem”, escreve Montaigne. Por que complicar, quando se pode simplificar,
demorar quando se pode abreviar, obscurecer quando se pode esclarecer? E que
vale um pensamento que não o pode? Prestamos a nossos sofistas uma obscuridade
afetada. Não acredito nisso. É profundidade que eles afetam, e a obscuridade é
necessária a ela. Uma água pouco profunda só pode iludir se for turva… Seus
argumentos seriam mais convincentes se fossem mais claros. Mas, se fossem
convincentes, precisariam ser obscuros?
Isso não data de hoje. A escolástica é eterna,
ou antes, cada época tem a sua. Toda geração tem seus sofistas, seus intrujões,
seus preciosos ridículos, seus pretensiosos. Descartes, contra os de seu tempo,
soube dizer o essencial, que também vale contra os do nosso: “Sua maneira de
filosofar é muito cômoda, para aqueles que só têm espíritos muito medíocres;
pois a obscuridade das distinções e dos princípios de que se servem
permite-lhes que falem de todas as coisas tão ousadamente como se delas
soubessem e que sustentem tudo o que dizem contra os mais sutis e mais hábeis,
sem que se tenha meios de convencê-los.” A obscuridade protege. A complexidade
protege. A isso Descartes opõe os princípios “muito simples e muito evidentes”
que utiliza, os quais tornam sua filosofia compreensível para todos e discutível
por todos. Não pensamos para nos proteger. A simplicidade também é uma virtude
intelectual.
Mas é antes de tudo uma virtude moral, ou mesmo
espiritual. Transparência do olhar, pureza do coração, sinceridade do discurso,
retidão da alma ou do comportamento… Parece que só podemos nos aproximar dela
indiretamente, por outra coisa que não ela mesma. Porque a simplicidade não é a
pureza, não é a sinceridade, não é a retidão… Por exemplo, nota Fénelon,
“vêem-se muitas pessoas que são sinceras sem serem simples: nada dizem que não
creiam ser verdadeiro, querem passar apenas pelo que são; estão sempre se
estudando, sempre compassando [medindo-se como com um compasso] todas as suas
palavras e todos os seus pensamentos e rememorando tudo o que fizeram por temerem
ter feito ou dito demais”. Em suma, ocupam-se demais consigo mesmas, ainda que
tenham bons motivos, e isso é o contrário da simplicidade. Não, é claro, que
seja necessário impedir-se de pensar em si. “Querendo ser simples”, escreve
Fénelon, “nos afastaríamos da simplicidade.” Trata-se de não afetar nada, nem
mesmo simplicidade. Mais vale ser simplesmente egoísta do que afetar
generosidade. Mais vale ser simplesmente volúvel do que afetar fidelidade. Não,
mais uma vez, que a simplicidade se reduza à sinceridade, à ausência de
hipocrisia ou de mentira. Ela é antes a ausência de cálculo, de artifícios, de
composição. Mais vale uma simples mentira do que uma sinceridade calculada.
“Essas pessoas são sinceras”, prossegue Fénelon, “mas não são simples; não se sentem
à vontade com os outros, e os outros não se sentem à vontade com elas; não
encontramos nelas nada de desembaraçado, nada de livre, nada de ingênuo, nada
de natural; preferiríamos pessoas menos regulares e mais imperfeitas, que
fossem menos compostas. Eis o gosto dos homens, e o de Deus é o mesmo: ele quer
almas que não se ocupem de si mesmas, como que sempre ao espelho para se
comporem.” A simplicidade é espontaneidade, coincidência imediata consigo mesmo
(inclusive naquilo em nós que ignoramos), improvisação alegre, desinteresse,
desprendimento, desprezo de provar, de prevalecer, de parecer… Daí essa
impressão de liberdade, de leveza, de ingenuidade feliz. “A simplicidade”,
escreve Fénelon, “é uma retidão da alma que corta qualquer volta inútil sobre
si mesma e sobre suas ações. […] Ela é livre em seu trajeto, porque não pára
para se compor com arte.” Ela é despreocupada, mas não descuidada: ela se ocupa
do real, não de si. É o contrário do amor-próprio. Fénelon, mais uma vez: “Como
somos interiormente desprendidos de nós mesmos pelo corte de todos os retornos
voluntários, agimos mais naturalmente. […] Essa verdadeira simplicidade parece
às vezes um pouco negligente e menos regular, mas tem um sabor de candura e
verdade que se faz sentir, um quê de ingênuo, de doce, de inocente, de alegre,
de tranqüilo, que encanta quando olhamos de perto e imediatamente com olhos
puros.” A simplicidade é esquecimento de si, é nisso que ela é uma virtude: não
o contrário do egoísmo, como a generosidade, mas o contrário do narcisismo, da
pretensão, da auto-suficiência. Dir-se-á que mais vale a generosidade. Sim,
enquanto o ego permanecer e dominar. Mas nem toda generosidade é simples (que
auto-suficiência em Descartes!), ao passo que a absoluta simplicidade é sempre
generosa (que generosidade em são Francisco!). É que o eu nada mais é do que o
conjunto das ilusões que tem acerca de si mesmo: o narcisismo não é o efeito do
ego, mas seu princípio. A generosidade o supera; a simplicidade o dissolve. A
generosidade é um esforço; a simplicidade, um repouso. A generosidade é uma
vitória; a simplicidade, uma paz. A generosidade é uma força; a simplicidade,
uma graça.
Jankélévitch bem viu que toda virtude, sem ela,
careceria do essencial. Que valeria uma gratidão afetada, uma humildade
pernóstica, uma coragem que só serviria para exibição? Não seria nem
generosidade, nem humildade, nem coragem. Modéstia sem simplicidade é falsa
modéstia. Sinceridade sem simplicidade é exibicionismo ou cálculo. A
simplicidade é a verdade das virtudes: cada virtude só é ela mesma se livre da
preocupação de parecer, e mesmo da preocupação de ser (sim: livre de si!), se,
pois, for sem rebuscamento, sem artifício, sem pretensão. Aquele que só é
corajoso em público, generoso em público, virtuoso em público não é
verdadeiramente corajoso, nem verdadeiramente generoso, nem verdadeiramente
virtuoso. E aquele que só é simples em público (isso acontece: alguns tratam de
“você” o primeiro que aparece, mas tratam a si mesmos de “senhor” diante do
espelho) é simplesmente amaneirado. “A simplicidade afetada”, dizia La
Rochefoucauld, “é uma impostura delicada.” Qualquer virtude, sem a
simplicidade, é pois pervertida, como que esvaziada de si mesma, como que cheia
de si mesma. Inversamente, uma simplicidade verdadeira, sem suprimir os
defeitos, torna-os mais suportáveis: ser simplesmente egoísta, simplesmente
covarde, simplesmente infiel nunca impediu ninguém de ser sedutor ou simpático.
Ao passo que o imbecil pretensioso, o egoísta hipócrita ou o covarde exibido
são insuportáveis, assim como o bonitão vazio que banca o romântico ou alardeia
suas conquistas. A simplicidade é a verdade das virtudes e a desculpa dos
defeitos. É a graça dos santos e o encanto dos pecadores.
Que ela não desculpa tudo, no entanto, está
claro, e na verdade é menos uma desculpa do que uma sedução. Mas quem quisesse
utilizá-la como tal estaria faltando com a simplicidade.
O simples é aquele que não simula, que não
presta atenção (em si, na sua imagem, na sua reputação), que não calcula, que
não tem artimanhas nem segredos, que não tem segundas intenções, programa,
projeto… Virtude de infância? Não creio muito. É antes a infância como virtude,
mas uma infância reencontrada, reconquistada, como que libertada de si mesma,
da imitação dos adultos, da impaciência de crescer, da grande seriedade de
viver, do grande segredo de ser si mesmo… A simplicidade só se aprende pouco a
pouco. Vejam Clara Haskil, em Mozart ou em Schumann. Nenhuma criança nunca
tocará como essa velha senhora as Variações em dó maior (“Ah, vous
dirai-je maman”) ou as Cenas infantis, com essa graça, essa poesia, essa
leveza, essa inocência… É a infância do espírito, a que as crianças quase nunca
têm acesso.
O fato de a mesma palavra poder designar também
uma forma de tolice ilustra bastante bem o que pensamos da inteligência e o uso
que geralmente fazemos dela. Mas isso não esconderia o essencial, que é a
própria simplicidade, como virtude e como graça. Sopra aí o espírito dos
Evangelhos. “Observai as aves do céu: não semeiam, não colhem, nem recolhem em
celeiros, e vosso Pai celeste as sustenta!… Considerai como crescem os lírios
do campo: eles não trabalham nem fiam…” A prudência nos lembra de que não
podemos viver sempre assim. Virtude intelectual contra virtude espiritual. Quem
não vê que a prudência é mais necessária e a simplicidade, mais elevada? O Pai
celeste sustenta bem mal seus filhos, e é prudente não viver como uma ave. Mas
também sábio por não esquecer totalmente a sabedoria, que é feita de
simplicidade. Sabedoria de poeta: “Vamos aqui e ali, à procura de uma alegria
por toda a parte em migalhas, e o saltitar do pardal é nossa única
possibilidade de saborear Deus espalhado no chão.” Tudo é simples para Deus;
tudo é divino para os simples. Mesmo o trabalho, mesmo o esforço. “Não vos
inquieteis com o dia seguinte, pois o amanhã se inquietará consigo mesmo. Basta
a cada dia seu próprio penar…” Não é proibido semear, nem colher. Mas por que
se preocupar com a colheita, quando se semeia? Por que ter saudade da
semeadura, quando se colhe? A simplicidade é virtude presente, virtude atual, é
por isso que nenhuma virtude é real se não é simples. Não é proibido fazer
projetos, programas, cálculos… Mas a simplicidade, portanto também a virtude, é
o que lhes escapa. Nada é grave, nada é complicado, a não ser o futuro. Nada é
simples, a não ser o presente.
A simplicidade é esquecimento de si, de seu
orgulho e de seu medo: é quietude contra inquietude, alegria contra
preocupação, ligeireza contra seriedade, espontaneidade contra reflexão, amor
contra amor-próprio, verdade contra pretensão… O eu subsiste nela, é claro, mas
como que mais leve, purificado, libertado (“desligado de si”, como diz
Bobin, “desprendido de todo reino”). Faz muito tempo, até, que ele
renunciou a buscar sua salvação, que já não se preocupa com sua perda. A
religião é complicada demais para ele. A própria moral é complicada demais para
ele. Para que essas perpétuas voltas sobre si mesmo? Nunca acabaríamos de nos
avaliar, de nos julgar, de nos condenar… Nossas melhores ações são suspeitas;
nossos melhores sentimentos, equívocos. O simples sabe disso e nem se importa.
Ele não se interessa suficientemente para se julgar. Para ele, a misericórdia
faz as vezes de inocência, ou a inocência, talvez, de misericórdia. Ele não se
leva nem a sério nem a trágico. Segue seu pequeno caminho, de coração leve,
alma em paz, sem objetivo, sem nostalgia, sem impaciência. O mundo é seu reino,
e lhe basta. O presente é sua eternidade, e o satisfaz. Nada tem a provar, pois
não quer parecer nada. Nada tem a buscar, pois tudo está ali. Há coisa mais
simples que a simplicidade? Há coisa mais leve? É a virtude dos sábios, e a
sabedoria dos santos.