Pequeno tratado das grandes virtudes
14 - A
pureza
De
todas as virtudes a pureza, se é que é uma virtude, pode ser a mais difícil de
apreender, de captar. No entanto, temos de experimentá-la, senão o que
saberíamos do impuro? Mas é uma experiência a princípio estranha, e duvidosa. A
pureza das meninas, ou de algumas delas, sempre me tocou profundamente. Como
saber se era verdadeira ou fingida, ou antes, se não era uma impureza diferente
da minha, que só a perturbava a tal ponto por sua diferença, como duas cores se
realçam à proporção de seu contraste, decerto, mas nem por isso deixam de ser
cores, tanto uma como a outra? Eu, que nada amei tanto quanto a pureza, que
nada desejei tanto quanto o impuro, será que ignoro o que é a pureza ou o que
são a pureza e o impuro? Por que não? Talvez valha para a pureza o mesmo que
vale para o tempo, segundo santo Agostinho: se ninguém me pergunta o que ela é,
eu sei; mas se me perguntam e eu quero explicar, não sei mais. A pureza é uma
evidência e um mistério.
Eu
falava das meninas. O fato é que a pureza, pelo menos nos dias de hoje, se
produz antes de tudo no registro sexual. Por diferença? Precisamos ver. As
meninas em que penso, várias das quais iluminaram minha adolescência, não eram
menos sexuadas do que as outras, é claro, nem menos desejáveis (às vezes eram
até mais), nem mesmo, quem sabe, menos desejosas. Mas elas tinham a virtude –
aí estamos -, ou pareciam tê-la, de habitar na clareza esse corpo sexuado e
mortal, como luz na luz, como se nem o amor nem o sangue pudessem maculá-las.
Aliás, como poderiam? É a pureza do vivo, e a própria vida. Aquilo batia nas
veias como uma gargalhada.
Outras
meninas, com certeza, e outros o experimentaram, todos talvez, seduziam-me ao
contrário por não sei que impureza sugerida. Elas pareciam habitar muito mais a
noite do que o dia: detinham a luz, como fazem certos homens, ou antes a
refletiam (o que os homens não sabem fazer), e no entanto enxergavam bem tanto
nelas como em você. Pareciam viver em pé de igualdade com o desejo dos homens,
essa violência, essa crueza, esse fascínio pelo obsceno ou belo obscuro,
exatamente com o necessário de perversão alegre e com aquele nada de
vulgaridade que atrai os homens ou os tranqüiliza…
Mais
tarde todas elas envelhecerão e se distinguirão menos. Ou então apenas pela
quantidade de amor de que serão capazes: o amor nada tem a ver com a pureza, ou
antes é a única pureza que vale. As mulheres sabem mais a esse respeito do que
as mocinhas, é por isso que nos atemorizam mais.
Voltemos,
porém, à pureza. A palavra, em latim como em francês, tem antes de tudo um
sentido material: puro é o que é limpo, sem mancha, sem mácula. A água pura é a
água sem misturas, a água que é apenas água. Note-se que é, então, uma água
morta, e isso já diz muito sobre a vida e sobre uma certa nostalgia da pureza.
Tudo o que vive suja, tudo o que limpa mata. Assim, ponhamos cloro em nossas
piscinas. A pureza é impossível: só temos escolha entre diferentes tipos de
purezas, é o que se chama higiene. Como faríamos disso uma moral? Fala-se de
purificação étnica na Sérvia: esse horror basta para condenar os que a
reivindicam. Não há povos puros ou impuros. Todo povo é uma mistura, e todo
organismo, e toda vida. A pureza – pelo menos essa pureza – está do lado da
morte ou do nada. A água é pura quando é sem germes, sem cloro, sem calcário,
sem sais minerais, sem nada além da água. É pois uma água que não existe nunca,
ou apenas em nossos laboratórios. Água morta e mortificante (sem cheiro nem
gosto!), e mortífera, se só bebêssemos dela. No entanto, só pura em seu nível.
Os átomos de hidrogênio poderiam protestar contra essa mistura que lhes é
imposta, essa impureza do oxigênio… E por que não o núcleo, em cada um deles,
contra a impureza do elétron? Só o nada é puro; ora, o nada não é nada: o ser é
uma mancha no infinito do vazio, e toda existência é impura.
Sim.
O fato é que todas as religiões, ou quase, deram-se essa distinção entre o que
a lei impõe ou autoriza, que é puro, e o que ela proíbe ou sanciona, que é
impuro. O sagrado é antes de tudo o que pode ser profanado, e talvez seja
apenas isso. Inversamente, a pureza é o estado que permite aproximar-se das
coisas sagradas sem as macular e sem se perder nelas. Daí todas as proibições,
todos os tabus, todos os ritos de purificação… É a superfície, e é um começo.
Seria ter uma visão bem curta reduzir tudo isso à higiene, à prudência, à
profilaxia. Que as proibições alimentares, por exemplo no judaísmo, também
possam ter esse papel, tudo bem. Mas se houvesse apenas isso, nossa dívida para
com o povo judeu não seria o que ela é – enorme, decisiva, indelével para
sempre -, e a dialética substituiria vantajosamente, como Nietzsche queria, a
moral. Quem pode acreditar nisso? Será que isso foi tudo o que guardamos do
monoteísmo? Será nossa única preocupação, nossa única exigência? A manutenção
de nossa saúde? De nossa limpeza? De nossa integridade? Que bela coisa! Que
belo ideal! Os verdadeiros mestres, evidentemente, sempre disseram o contrário.
O essencial não está nos ritos, mas no que os ritos sugerem ou engendram.
Trata-se de comer kasher ou não! O são não é o santo. O limpo não é o
puro. Longe de devermos reduzir o ritual ao higiênico, conviria antes, um e
outro, discernir o que os supera e, no fundo, os justifica. Na verdade, é o que
acontece em toda religião viva. Aprende-se depressa a dar a essas prescrições
externas um sentido sobretudo – se não exclusivamente – simbólico ou moral. O
rito tem uma função muito mais pedagógica do que sanitária: a pureza cultual,
como se diz, é um primeiro passo no sentido da pureza moral, ou mesmo de uma
outra pureza, totalmente interna, perto da qual a própria moral pareceria
redundante ou sórdida. A moral só vale para os culpados; a pureza, nos puros, é
o que a substitui ou a dispensa.
Dir-se-á
que a moral é, portanto, mais necessária, e estarei de acordo; ou mesmo que
essa pureza não passa de um mito, e não posso, certamente, provar o contrário.
Não vamos dar, no entanto, toda essa colher de chá a Pascal e seus congêneres,
a todos aqueles que querem nos encerrar na queda ou no pecado. A pureza não é o
angelismo. Há uma pureza do corpo, uma inocência do corpo, e no próprio gozo: pura
voluptas, dizia Lucrécio, o puro prazer, perto do qual a moral é que é
obscena. Não sei como se arranjam os confessores. Sem dúvida eles renunciaram a
interrogar, a julgar, a condenar. Sabem que a impureza estaria de seu lado,
quase sempre, e que os amantes estão pouco ligando para a moral deles.
Mas
não vamos depressa nem longe demais. Todas as mulheres estupradas, quando ousam
contar, revelam o sentimento de terem sido sujadas, maculadas, humilhadas. E
quantas esposas, se dissessem a verdade, não confessariam que se submetem a
contragosto à impureza importuna ou brutal do homem? A contragosto: está tudo
dito. Apenas o coração é puro ou pode ser; apenas ele purifica. Nada é puro ou
impuro por si. A mesma saliva faz a cusparada ou o beijo; o mesmo desejo faz o
estupro ou o amor. Não é o sexo que é impuro: é a força, a coerção (Simone
Weil: “o amor não exerce nem sofre a força; é essa a única pureza”), tudo o que
humilha ou avilta, tudo o que profana, tudo o que rebaixa, tudo o que não tem
respeito, doçura, consideração. A pureza, ao contrário, não está em não sei que
ignorância ou ausência do desejo (seria uma doença, não uma virtude): ela está
no desejo sem falta e sem violência, no desejo aceito, no desejo partilhado, no
desejo que eleva e celebra! Sei que o desejo também se exalta, e às vezes até
mais, na transgressão, na violência, na culpa. Pois bem: a pureza é o contrário
dessa exaltação. É a doçura do desejo, a paz do desejo, a inocência do desejo.
Veja-se como somos castos depois do amor, veja-se como somos puros, às vezes,
no prazer. Ninguém é inocente nem culpado absolutamente: é o que tira a razão
dos “depreciadores do corpo” como dizia Nietzsche, tanto quanto de seus
adoradores demasiado ciosos ou satisfeitos. A pureza não é uma essência. A
pureza não é um atributo, que teríamos ou não. A pureza não é absoluta, a
pureza não é pura: a pureza é uma certa maneira de não ver o mal onde, de fato,
ele não se encontra. O impuro vê o mal em toda parte, e tem prazer nele. O puro
não vê o mal em parte alguma ou, antes, apenas onde ele se encontra, onde o
sofre: no egoísmo, na crueza, na maldade… É impuro tudo o que se faz de má vontade,
ou com vontade má. É por isso que somos impuros, quase sempre, e é por isso que
a pureza é uma virtude: o eu só é puro quando está purificado de si. O ego suja
tudo aquilo em que toca: “Exercer poder sobre”, escreve Simone Weil, “possuir,
é macular.” Ao contrário, “amar puramente é aceitar a distância”, em outras
palavras, a não-posse, a ausência de poder e de controle, a aceitação alegre e
desinteressada. “Você será amado”, dizia Pavese a si mesmo em seu Diário,
“no dia em que puder mostrar sua fraqueza sem que o outro se sirva dela para
afirmar sua força.” Era querer ser amado puramente, em outras palavras, ser
amado.
Há o
amor que toma, é o impuro. Há o amor que dá ou que contempla, é a pureza.
Amar,
amar de verdade, amar puramente não é tomar: amar é olhar, é aceitar, é dar e
perder, é regozijar-nos com o que não podemos possuir, é regozijar-nos com o
que nos falta (ou que faltaria se quiséssemos possuí-lo), com o que nos faz
infinitamente pobres, e é o único bem, e é a única riqueza. Pobreza absoluta da
mãe, à beira da cama do filho: ela não possui nada, pois ele é tudo e ela não o
possui. “Meu tesouro”, ela murmura… e sente-se mais desprovida do que nunca.
Pobreza do amante, pobreza do santo: puseram todo o seu bem no que não se pode
possuir, no que não se pode consumir, fizeram-se reino e deserto para um deus
ausente. Eles amam em pura perda, como se diz, e é o próprio amor, ou o único
amor puro. Quem só amaria na esperança de um ganho, de um lucro, de uma
vantagem? O egoísmo ainda é amor, decerto, mas é um amor impuro, e “a fonte de
todo mal”, dizia Kant: ninguém faz o mal pelo mal, mas apenas por seu prazer,
que é um bem. O que corrompe “a pureza dos móbeis”, como dizia também Kant, não
é o corpo, nem sabe-se lá que vontade maligna (que quereria o mal pelo mal),
mas “o caro eu”, com o qual não cessamos de nos chocar… Não, claro, que não
tenhamos o direito de amar a nós mesmos: como poderíamos então (supondo-se que
isso fosse possível) amar o próximo como a si mesmo? O eu não é odiável,
ou só o é por egoísmo. O mal não está em amar a si, mas em amar somente
a si, está em ser indiferente ao sofrimento do outro, a seu desejo, à sua
liberdade, está em mostrar-se disposto a fazer mal ao outro para se fazer bem,
em humilhá-lo para agradar a si, em querer desfrutá-lo em vez de amá-lo, em
desfrutar em vez de se regozijar, portanto, ou em só se regozijar com seu
próprio gozo e, também nesse caso, só amar a si… É a pureza primeira, e a única
talvez. Não excesso de amor, mas falta de amor. Não é por acaso, nem apenas por
pudicícia, que a sexualidade foi considerada o lugar privilegiado dessa
impureza. Nela reina o que os escolásticos chamavam de amor de concupiscência
(amar o outro para seu bem), que eles opunham ao amor de benevolência ou de
amizade (amar o outro para o bem dele). Amar o outro como um objeto, pois,
querer possuí-lo, consumi-lo, desfrutá-lo, como se gosta de uma carne ou de um
vinho, em outras palavras, amar apenas para si: é Eros, o amor que toma ou que
devora, e Eros é um deus egoísta. Ou amar o outro, verdadeiramente, como um
sujeito, como uma pessoa, respeitá-lo, defendê-lo, ainda que contra o desejo
que se tem dele: é Philia ou Ágape, o amor que dá e que protege, o amor de
amizade, o amor de benevolência, o amor de caridade, se quisermos, o puro amor
– aí estamos – e a única pureza, e o único deus.
O
que é o puro amor? Fénelon disse-o claramente: é o amor desinteressado, como o
que temos por nossos amigos, ou deveríamos ter (Fénelon percebe que muitas
amizades “nada mais são que um amor-próprio sutilmente disfarçado”, mas também
que nem por isso deixamos de ter “essa idéia da amizade pura” e que só ela pode
nos satisfazer: quem aceitaria ser amado, ou amar, apenas por interesse?), o
amor “sem nenhuma esperança”, como ele também diz, o amor libertado de nós
mesmos (“de sorte que nos esqueçamos de nós e que nos tenhamos por nada, para
sermos todo dele”), em suma, o que são Bernardo chamava “um amor sem mácula nem
mesclado de procura pessoal”: é o próprio amor e a pureza dos corações puros.
É o momento
de lembrar que a pureza não se manifesta apenas no registro sexual. Um artista,
um militante, um cientista também podem ser puros, cada um em seu domínio. Ora,
nesses três domínios, e quaisquer que sejam suas diferenças, o puro é aquele
que dá prova de desinteresse, aquele que se dá por inteiro a uma causa, sem
buscar nem o dinheiro nem a glória, aquele “que se esquece de si e que se tem
por nada”, como dizia Fénelon, e isso confirma que a pureza, em todos esses
casos, é o contrário do interesse, do egoísmo, da cobiça, de toda a sordidez do
eu. Note-se de passagem que não se pode amar puramente o dinheiro, e isso já
diz muito sobre o dinheiro, e sobre a pureza. Nada do que se pode possuir é
puro. A pureza é pobreza, despojamento, abandono. Ela começa onde cessa o eu,
aonde ele não vai, aonde ele se perde. Digamos numa fórmula: o amor puro é o
contrário do amor-próprio. Se há um “puro prazer” na sexualidade, como
pretendia Lucrécio e como sucede-nos experimentar, é porque a sexualidade às
vezes se liberta, e nos liberta, dessa prisão do narcisismo, do egoísmo, da
possessividade: também o prazer só é puro quando desinteressado, quando escapa
do ego, e é por isso que na paixão ele nunca é puro, explica Lucrécio, e é por
isso que “a Vênus vagabunda” (a liberdade sexual) ou a “Vênus marital” (o
casal) são mais puras, muitas vezes, do que nossas loucas e exclusivas e
devoradoras paixões… O ciúme bem mostra o quanto há de ódio ou de egoísmo no
estado amoroso. Compreende-se que nenhum sábio nunca tenha se enganado a seu
respeito (ainda que tenha sucumbido a ele!): não é o todo do amor, e é com
freqüência sua forma mais violenta, como todos podemos experimentar, não é nem
a mais pura nem a mais elevada. Veja-se o retrato que dele faz Platão no Fedro,
antes de salvá-lo pela religião. Eros é um deus negro, como dizia Pieyre de
Mandiargues, Eros é um deus ciumento, um deus possessivo, egoísta,
concupiscente: Eros é um deus impuro.
É
mais fácil amar puramente nossos amigos ou nossos filhos: porque esperamos
menos deles, porque os amamos o bastante para nada esperar deles, ou em todo
caso para não submetermos nosso amor ao que esperamos deles. É o que Simone
Weil chama de amor casto: “Todo desejo de gozo situa-se no futuro, no ilusório.
Ao passo que, se apenas desejamos que um ser exista, ele existe: então que mais
desejar? O ser amado é então nu e real, não velado pelo futuro imaginário…
Assim, no amor, há castidade ou falta de castidade, conforme o desejo seja
voltado ou não para o futuro.” Simone Weil, que não procura agradar, acrescenta
o seguinte, que talvez choque alguns ingênuos, mas que dá o que pensar: “Nesse
sentido e contanto que não seja voltado para uma pseudo-imortalidade concebida
com base no futuro, o amor que temos pelos mortos é perfeitamente puro. Porque
é o desejo de uma vida finita que não pode dar mais nada de novo. Desejamos que
o morto tenha existido, e ele existiu.” É o luto perfeitamente bem-sucedido,
quando nada mais há do que a doçura e a alegria da lembrança, do que a eterna
verdade do que aconteceu, quando nada mais há do que amor e gratidão. Mas o
presente é igualmente eterno; nesse sentido, poderíamos acrescentar, e contanto
que não seja voltado para um pseudoconsumo concebido com base no futuro, o amor
que temos pelos corpos, pelos corpos vivos, também pode, às vezes, ser
perfeitamente puro: é o desejo de uma vida presente e perfeita. Desejamos que
esse corpo exista, e ele existe. Que mais pedir? Sei que na maioria das vezes
não é simples: a carência interfere, e a violência, e a avidez (quantos
acreditam desejar uma mulher quando desejam apenas o orgasmo?), todo o obscuro
do desejo, todo esse jogo confuso e perturbador em torno da transgressão, da
profanação (o sagrado, dizia eu, é o que pode ser profanado: o corpo humano é
sagrado), esse fascínio – exclusivamente humano! – pelo animal que há em si e
no outro, esse jogo entre vida e morte, entre prazer e dor, entre sublime e
indigno, em suma, tudo o que há de prontamente erótico, mas do que de amante
(mais do que de agápico!), em dois corpos que se enfrentam ou se buscam… Mas
isso não é impuro, ou não parece sê-lo, a não ser em referência a outra coisa:
a animalidade só faz sonhar os humanos, a perversão só atrai pela lei que ela
transgride, a indignidade só pelo sublime que ela insulta… Eros seria
impossível, ou em todo caso nada teria de erótico, sem Philia ou Ágape (não
haveria nada mais que a pulsão totalmente boba: que fastio!), e creio, com
Freud, que o inverso também é verdadeiro. Que saberíamos do amor sem o desejo?
E que valeria o desejo sem o amor? Sem Eros, não há Philia, não há Ágape. Mas,
sem Philia ou Ágape, Eros não tem nenhum valor. Portanto, temos de nos habituar
a habitá-los juntos, ou a habitar o abismo que os separa. É habitar o homem,
que não é nem anjo nem animal, mas o encontro impossível e necessário entre os
dois: “O baixo-ventre”, dizia Nietzsche, “é a causa de o homem ter certa
dificuldade de se tomar por um deus.” Ainda bem: é somente graças a isso que
ele é humano, e que assim permanece. A sexualidade é também uma lição de
humildade, que não cansamos de aprofundar. Como a filosofia, a seu lado, parece
loquaz e presunçosa! Como a religião parece tola! O corpo nos ensina mais a seu
respeito que os livros, e os livros só valem desde que não se minta sobre o
corpo. Pureza não é pudicícia. “A extrema pureza”, escreve Simone Weil, “pode
contemplar o puro e o impuro; a impureza não pode nem um nem outro: o primeiro
lhe dá medo, o segundo a absolve.” O puro, por sua vez, não tem medo de nada:
ele sabe que “nada é impuro em si” ou (mas isso dá no mesmo) que “tudo é puro
para os puros”. É nisso, como dizia ainda Simone Weil, que “a pureza é o poder
de contemplar a sujeira”. É dissolvê-la (pois nada é impuro em si) na pureza do
olhar: os amantes fazem amor à luz do dia, e a própria obscenidade é um sol.
Resumamos:
Ser puro é ser sem misturas, e é por isso que a pureza não existe ou não é
humana. Mas a impureza em nós também não é absoluta, nem igual, nem definitiva:
saber-se impuro supõe pelo menos uma certa idéia, ou um certo ideal, da pureza,
de que a arte às vezes nos fala (veja-se Dinu Lipatti, em Mozart ou Bach,
veja-se Vermeer, veja-se Éluard…) e de que a vida às vezes nos aproxima
(veja-se o amor que você tem pelos seus filhos, por seus amigos, por seus
mortos…). Essa pureza não é uma essência eterna; é o resultado de um trabalho
de purificação – de sublimação, diria Freud -, pelo qual o amor advém
libertando-se de si: o corpo é o cadinho, o desejo é a chama (que “consome tudo
o que não é ouro puro”, dizia Fénelon), e o que resta – se resta alguma coisa –
é, às vezes, e livre de toda esperança, “um ato de amor puro e plenamente
desinteressado”. A pureza não é uma coisa, nem mesmo uma propriedade do real,
mas uma certa modalidade do amor, ou não é nada.
Uma
virtude? Sem dúvida, ou o que permite que o amor seja uma virtude e faça as
vezes de todas. Não se confunda, pois, a pureza com a continência, a pudicícia
ou a castidade. Há pureza cada vez que o amor deixa de ser “mistura de
interesse”, ou antes (pois a pureza nunca é absoluta), apenas na medida em que
o amor dá prova de desinteresse: podemos amar puramente o verdadeiro, a justiça
ou a beleza, e também, por que não, o homem ou a mulher que está presente, que
se dá e cuja existência (muito mais que a posse!) basta para me satisfazer. A
pureza é o amor sem cobiça. Assim, amamos a beleza de uma paisagem, a
fragilidade de uma criança, a solidão de um amigo e, às vezes, até mesmo aquele
ou aquela que todo nosso corpo continua, no entanto, a cobiçar. Não há pureza
absoluta, mas também não há impureza total ou definitiva. Pode acontecer que o
amor, o prazer ou a alegria nos libertem um pouco de nós mesmos, de nossa
avidez, de nosso egoísmo, pode até ser (parece-nos ter às vezes experimentado
ou pressentido isso) que o amor purifique o amor, até o ponto, talvez, de o
sujeito se perder e se salvar, quando não há nada além da alegria, quando não
há nada além do amor (o amor “livre de todo pertencimento”, diz Christian
Bobin), quando não há nada além de tudo, e da pureza de tudo. “A beatitude”,
dizia Spinoza, “não é o preço da virtude, mas a própria virtude; e essa
plenitude não é obtida pela redução de nossos apetites sensuais, mas, ao
contrário, é essa plenitude que torna possível a redução de nossos apetites
sensuais.” É a última proposição da Ética, e isso mostra bem o caminho
que disso nos separa.
Mas
esse caminho, ainda que fosse feito de torpezas, já é puro ao olhar puro.
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