Pequeno tratado das grandes virtudes
13 - A tolerância
É um tema de dissertação que foi proposto várias
vezes no exame de baccalauréat (que corresponderia a um exame final do
nosso colegial): “Julgar que há o que seja intolerável é sempre dar prova de
intolerância?” Ou então, numa forma diferente: “Ser tolerante é tolerar tudo?”
A resposta, nos dois casos, é evidentemente não, pelo menos se quisermos que a
tolerância seja uma virtude. Deveríamos considerar virtuoso quem tolerasse o
estupro, a tortura, o assassinato? Quem veria, nessa tolerância do pior, uma
disposição estimável? Mas, embora a resposta só possa ser negativa (o que, para
um tema de dissertação, é antes uma fraqueza), a argumentação não deixa de
colocar um certo número de problemas, que são de definições e de limites, e que
podem ocupar suficientemente nossos secundaristas, imagino, durante as quatro
horas da prova… Uma dissertação não é uma sondagem de opinião. É preciso
responder, sem dúvida, mas a resposta só vale pelos argumentos que a preparam e
que a justificam. Filosofar é pensar sem provas (se houvesse provas não seria
mais filosofia), mas não pensar qualquer coisa (pensar qualquer coisa, de resto,
não é mais pensar), nem de qualquer jeito. A razão comanda, como nas ciências,
mas sem verificação nem refutação possíveis. Por que não se contentar, então,
com as ciências? Porque não podemos: elas não respondem a nenhuma das questões
essenciais que nos colocamos, nem mesmo às que elas nos colocam. A questão: “É
preciso fazer matemática?” Não é suscetível de uma resposta matemática. A
questão: “As ciências são verdadeiras?” Não é suscetível de uma resposta
científica. Como tampouco – isso é óbvio – as questões relativas ao sentido da
vida, à existência de Deus ou ao valor de nossos valores… Ora, como renunciar a
isso? Trata-se de pensar tão longe quanto vivemos, portanto mais longe do que
podemos, portanto mais longe do que sabemos. A metafísica é a verdade da
filosofia, mesmo em epistemologia, mesmo em filosofia moral ou política. Tudo
se sustenta, e nos sustenta. Uma filosofia é um conjunto de opiniões razoáveis:
a coisa é mais difícil, e mais necessária do que se crê.
Dir-se-á que estou me afastando do meu tema. É
que não estou fazendo uma dissertação. A escola não pode durar para sempre,
ainda bem. De resto, não é certo que tenha me afastado tanto assim da
tolerância. Filosofar, dizia eu, é pensar sem provas. É onde também a
tolerância intervém. Quando a verdade é conhecida com certeza, a tolerância não
tem objeto. Não toleraríamos que o contador que se engana em seus cálculos se
recusasse a corrigi-los. Nem o físico, quando a experiência diz que está
errado. O direito ao erro só é válido a parte ante; uma vez demonstrado
o erro, este deixa de ser um direito e não dá direito algum: perseverar no
erro, a parte post, já não é um erro, mas uma falta. É por isso que os
matemáticos não precisam da tolerância. As demonstrações bastam para sua paz.
Quanto aos que gostariam de impedir os cientistas de trabalhar ou de se
exprimir (como a Igreja contra Galileu), não é a tolerância que lhes falta
primeiramente: é a inteligência e o amor à verdade. Primeiro conhecer. O
verdadeiro prima e se impõe a todos, sem nada impor. Os cientistas necessitam
não de tolerância, mas de liberdade.
Que se trata de duas coisas diferentes, a
experiência basta para atestar. Nenhum cientista pedirá, nem mesmo aceitará,
que tolerem seus erros, uma vez conhecidos, nem suas incompetências, na sua
especialidade, uma vez reveladas. Mas nenhum aceitaria, tampouco, que lhe
ditassem o que deve pensar. Não há outra coerção, para ele, além da experiência
e da razão: não há outra coerção além da verdade pelo menos possível, e é isso
que se chama liberdade de espírito. Qual a diferença em relação à tolerância? É
que esta (a tolerância) só intervém na falta de conhecimento; aquela (a
liberdade de espírito) seria antes o próprio conhecimento, enquanto nos liberta
de tudo e de nós mesmos. A verdade não obedece, dizia Alain; é nisso que é
livre, embora necessária (ou porque necessária), e que torna livre. “A
Terra gira em torno do Sol”: aceitar ou não essa proposição não decorre em
absoluto, de um ponto de vista científico, da tolerância. Uma ciência só avança
corrigindo seus erros, portanto não poderíamos pedir-lhe que os tolerasse.
O problema da tolerância só surge nas questões
de opinião. É por isso que ela surge com tanta freqüência, e quase sempre.
Ignoramos mais do que sabemos, e tudo o que sabemos depende, direta ou
indiretamente, de algo que ignoramos. Quem pode provar absolutamente que a
Terra existe? Que o Sol existe? E que sentido há, se nenhum dos dois existe, em
afirmar que aquela gira em torno deste? A mesma proposição que não tem a ver
com ela, de um ponto de vista filosófico, moral ou religioso. É o caso da
teoria evolucionista de Darwin: os que pedem que seja tolerada (ou, a
fortiriori, os que pedem que seja proibida) não compreenderam em que ela é
científica; e os que gostariam de impô-la autoritariamente como verdade
absoluta do homem e de sua gênese, entretanto, dariam prova de intolerância. A
Bíblia não é nem demonstrável nem refutável; portanto, ou se crê nela, ou se
tolera que se creia nela.
É aí que voltamos a encontrar nosso problema. Se
devemos tolerar a Bíblia, por que não Mein Kampf? E, se toleramos Mein
Kampf, por que não o racismo, a tortura, os campos de concentração?
Uma tolerância universal seria, é claro,
moralmente condenável: porque esqueceria as vítimas, porque as abandonaria à
sua sorte, porque deixaria perpetuar-se seu martírio.Tolerar é aceitar o que
poderia ser condenado, é deixar fazer o que se poderia impedir ou combater.
Portanto, é renunciar a uma parte de seu poder, de sua força, de sua cólera…
Assim, toleramos os caprichos de uma criança ou as posições de um adversário.
Mas isso só é virtuoso se assumirmos, como se diz, se superarmos para tanto
nosso próprio interesse, nosso próprio sofrimento, nossa própria impaciência. A
tolerância só vale contra si mesmo, e a favor de outrem. Não há tolerância
quando nada se tem a perder, menos ainda quando se tem tudo a ganhar em
suportar, isto é, em nada fazer. “Temos todos bastante força”, dizia La
Rochefoucauld, “para suportar os males de outrem.” Talvez, mas ninguém veria nisso
tolerância. Sarajevo era, dizem, cidade de tolerância; abandoná-la hoje
(dezembro de 1993) a seu destino de cidade sitiada, de cidade esfomeada, de
cidade massacrada, não passaria, para a Europa, de covardia. Tolerar é se
responsabilizar: a tolerância que responsabiliza o outro já não é tolerância.
Tolerar o sofrimento dos outros, tolerar a injustiça de que não somos vítimas,
tolerar o horror que nos poupa não é mais tolerância: é egoísmo, é indiferença,
ou pior. Tolerar Hitler era ser seu cúmplice, pelo menos por omissão, por
abandono, e essa tolerância já era colaboração. Antes o ódio, antes a fúria,
antes a violência, do que essa passividade diante do horror, do que essa
aceitação vergonhosa do pior! Uma tolerância universal seria tolerância do
atroz: atroz tolerância!
Mas essa tolerância universal também seria
contraditória, pelo menos na prática, e por isso não apenas moralmente
condenável, como acabamos de ver, mas politicamente condenada. Foi o que
mostraram, em problemáticas diferentes, Karl Popper e Vladimir Jankélévitch.
Levada ao extremo, a tolerância “acabaria por negar a si mesma”, pois deixaria
livres as mãos dos que querem suprimi-la. A tolerância só vale, pois, em certos
limites, que são os de sua própria salvaguarda e da preservação de suas
condições de possibilidade. É o que Karl Popper chama de “o paradoxo da
tolerância”: “Se formos de uma tolerância absoluta, mesmo para com os
intolerantes, e se não defendermos a sociedade tolerante contra seus assaltos,
os tolerantes serão aniquilados, e com eles a tolerância.” Isso só vale na
medida em que a humanidade é o que é, conflitual, passional, atormentada, mas é
por isso que vale. Uma sociedade em que uma tolerância universal fosse possível
já não seria humana, e aliás já não necessitaria de tolerância.
Ao contrário do amor ou da generosidade, que não
têm limites intrínsecos nem outra finitude além da nossa, a tolerância é, pois,
essencialmente limitada: uma tolerância infinita seria o fim da tolerância! Não
dar liberdade aos inimigos da liberdade? Não é tão simples assim. Uma virtude
não poderia se isolar na intersubjetividade virtuosa: aquele que só é justo com
os justos, generoso com os generosos, misericordioso com os misericordiosos,
etc., não é nem justo nem generoso nem misericordioso. Tampouco é tolerante
aquele que só o é com os tolerantes. Se a tolerância é uma virtude, como
acredito e como geralmente se aceita, ela vale por si mesma, inclusive para com
os que não a praticam. A moral não é nem um mercado nem um espelho. É verdade,
claro, que os intolerantes não teriam nenhum motivo para queixar-se de que se é
intolerante para com eles. Mas onde já se viu uma virtude depender do ponto de
vista dos que não a têm? O justo deve ser guiado “pelos princípios da justiça,
e não pelo fato de que o injusto não pode se queixar”. Do mesmo modo, o
tolerante, pelos princípios da tolerância. Se não se deve tolerar tudo, pois
seria destinar a tolerância à sua perda, também não se poderia renunciar a toda
e qualquer tolerância para com aqueles que não a respeitam. Uma democracia que
proibisse todos os partidos não democráticos seria muito pouco democrática,
assim como uma democracia que os deixasse fazer tudo e qualquer coisa seria
democrática demais, ou antes, mal democrática demais e, por isso, condenada –
pois ela renunciaria a defender o direito pela força, quando necessário, e a
liberdade pela coerção. O critério não é moral, aqui, mas político. O que deve
determinar a tolerabilidade de determinado indivíduo, grupo ou comportamento
não é a tolerância de que eles dão mostra (porque então todos os grupos
extremistas de nossa juventude deveriam ter sido proibidos, o que só lhes daria
razão), mas sua periculosidade efetiva: uma ação intolerante, um grupo
intolerante, etc., devem ser proibidos se, e somente se, ameaçarem efetivamente
a liberdade ou, em geral, as condições de possibilidade da tolerância. Numa
República forte e estável, uma manifestação contra a democracia, contra a
tolerância ou contra a liberdade não basta para colocá-las em perigo; portanto,
não há motivo para proibi-las, e seria uma falta de tolerância querê-lo. Mas,
se as instituições estão fragilizadas, se a guerra civil está iminente ou já
começou, se grupos facciosos ameaçam tomar o poder, a mesma manifestação pode
se tornar um perigo verdadeiro; então pode ser necessário proibi-la, impedi-la,
até pela força, e seria falta de firmeza ou de prudência renunciar a essa
possibilidade. Em suma, depende dos casos, e essa “casuística da tolerância”,
como diz Jankélévitch, é um dos problemas principais de nossas democracias.
Depois de ter evocado o paradoxo da tolerância, que faz com que a enfraqueçamos
à força de querer estendê-la infinitamente, Karl Popper acrescenta o seguinte:
Não quero dizer com isso que seja sempre
necessário impedir a expressão de teorias intolerantes. Enquanto for possível
enfrentá-las com argumentos lógicos e conte-las com ajuda da opinião pública,
seria um erro proibi-las. Mas é necessário reivindicar o direito de
fazê-lo, mesmo pela força, se necessário, porque pode muito bem acontecer que
os partidários dessas teorias se recusem a qualquer discussão lógica e só
respondam aos argumentos com a violência. Seria necessário então considerar
que, assim fazendo, eles se colocam fora da lei e que a incitação à tolerância
é tão criminosa quanto a incitação ao assassinato, por exemplo.
Democracia não é fraqueza. Tolerância não é
passividade.
Moralmente condenável e politicamente condenada,
uma tolerância universal não seria, pois, nem virtuosa nem viável. Ou, para
dizer de outro modo: há muita coisa intolerável, mesmo e sobretudo para o
tolerante! Moralmente: o sofrimento de outrem, a injustiça, a opressão, quando
poderiam ser impedidos ou combatidos por um mal menor. Politicamente: tudo o
que ameaça efetivamente a liberdade, a paz ou a sobrevivência de uma sociedade
(o que supõe uma avaliação, sempre incerta, dos riscos), logo também tudo o que
ameaça a tolerância, quando essa ameaça não é simplesmente a expressão de uma
posição ideológica (a qual poderia ser tolerada), mas sim um perigo real (o
qual deve ser combatido, pela força, se necessário). Isso deixa espaço para a
casuística, no melhor dos casos, e para a má-fé, na pior – isso deixa espaço
para a democracia, para suas incertezas e para seus riscos, que são
preferíveis, no entanto, ao conforto e às certezas de um totalitarismo.
O que é o totalitarismo? É o poder total (de um
partido ou do Estado) sobre o todo (de uma sociedade). Mas, se o totalitarismo
se distingue da simples ditadura ou do absolutismo, isso se dá sobretudo por sua
dimensão ideológica. O totalitarismo nunca é o poder absoluto de um homem ou
grupo: é também, talvez antes de tudo, o poder de uma doutrina, de uma
ideologia (freqüentemente com pretensões científicas), de uma “verdade”, ou
pretensa verdade. A cada tipo de governo seu princípio, dizia Montesquieu: como
uma monarquia funciona com base na honra, uma república na virtude e um
despotismo no temor, o totalitarismo, acrescenta Hannah Arendt, funciona com
base na ideologia ou (visto de dentro) na “verdade”. É nisso que o
totalitarismo é intolerante: porque a verdade não se discute, não se vota e
independe das preferências ou das opiniões de cada um. É como uma tirania do
verdadeiro. É nisso também que toda intolerância tende ao totalitarismo ou, em
matéria religiosa, ao integrismo: não se pode pretender impor seu ponto de
vista a não ser em nome de sua suposta verdade, ou antes, é apenas nessa
condição que tal imposição pode se pretender legítima. Uma ditadura que se
impõe pela força é um despotismo; se ela se impõe pela ideologia, um
totalitarismo. Compreende-se que a maioria dos totalitarismos também sejam
despotismos (afinal, a força, se necessário, tem de vir socorrer a idéia…) e
que, em nossas sociedades modernas, que são sociedades de comunicação, a maioria
dos despotismos tendam ao totalitarismo (afinal, a idéia tem de dar razão à
força). Doutrinamento e sistema policial caminham juntos. O caso é que a
questão da tolerância, que durante muito tempo foi apenas uma questão
religiosa, tende a invadir o todo da vida social; ou antes, pois é obviamente o
inverso que se tem de dizer, o sectarismo, de religioso que era no início,
tornou-se no século XX onipresente e multiforme, agora muito mais sob dominação
da política do que da religião: daí o terrorismo, quando o sectarismo está na
oposição, ou o totalitarismo, quando ele está no poder. Dessa história, que foi
a nossa, talvez saiamos um dia. Por outro lado, não sairemos da intolerância,
do fanatismo, do dogmatismo. O que é a tolerância? Alain respondia: “Uma espécie
de sabedoria que supera o fanatismo, esse temível amor à verdade.”
Devemos então deixar de amar o verdadeiro? Seria
dar um bonito presente ao totalitarismo e quase proibir-se combatê-lo! “O
sujeito ideal do reinado totalitário”, observava Hannah Arendt, “não é nem o
nazista convicto, nem o comunista convicto, mas o homem para quem a distinção
entre fato e ficção (i.e., a realidade da experiência) e a distinção
entre verdadeiro e falso (i.e., as normas do pensamento) não existem
mais.” A sofística faz o jogo do totalitarismo: se nada é verdade, o que opor a
suas mentiras? Se não há fatos, como acusá-lo de mascará-los, de deformá-los e
o que opor à sua propaganda? Pois o totalitarismo, se pretende a verdade, não
se pode impedir, cada vez que a verdade frustra sua expectativa, de inventar
outra, mais dócil. Não me deterei nisso: esses fatos são bem conhecidos. O
totalitarismo começa como dogmatismo (pretende que a verdade lhe dá razão e
justifica seu poder) e acaba como sofística (chama de “verdade” o que justifica
seu poder lhe dando razão)… Primeiro a “ciência”, depois a lavagem cerebral.
Que se trata de falsas verdades ou de falsas ciências (como o biologismo
nazista ou o historicismo stalinista), está muito claro; entretanto o
essencial, no fundo, não está nisso. Um regime que se apoiasse numa ciência
verdadeira – imaginemos por exemplo uma tirania dos médicos – nem por isso
seria menos totalitário a partir do momento em que pretendesse governar em nome
de suas verdades, porque a verdade nunca governa, nem diz o que deve ser feito,
nem proibido. A verdade não obedece, lembrei citando Alain, e é por isso que
ela é livre. Mas tampouco comanda, e é por isso que nós o somos. É verdade que
morreremos: isso não condena a vida, nem justifica o assassinato. É verdade que
mentimos, que somos egoístas, infiéis, ingratos… Isso não nos desculpa, nem
inculpa os que, às vezes, são fiéis, generosos ou reconhecidos. Disjunção das
ordens: o verdadeiro não é o bem; o bem não é o verdadeiro. Portanto, o
conhecimento não poderia fazer as vezes de vontade, nem para os povos (nenhuma
ciência, mesmo que verdadeira, poderia substituir a democracia), nem para os
indivíduos (nenhuma ciência, mesmo se verdadeira, poderia fazer as vezes da
moral). É aí que o totalitarismo fracassa, pelo menos teoricamente, porque a
verdade, ao contrário do que pretende, não poderia lhe dar razão nem justificar
seu poder. É certo, entretanto, que uma verdade não se vota, mas ela tampouco
governa; portanto, qualquer governo pode ser submetido a um voto, e deve sê-lo.
Longe de se dever, para ser tolerante, renunciar
a amar a verdade, é, ao contrário, esse próprio amor – mas sem quimeras – que
nos fornece nossas principais razões de o ser. A primeira delas é que amar a
verdade, sobretudo nesses domínios, também é reconhecer que nunca a conhecemos
absolutamente, nem com toda certeza. O problema da tolerância, como vimos, só
se coloca nas questões de opinião. Ora, o que é uma opinião, senão uma crença
incerta ou, em todo caso, sem outra certeza que não subjetiva? O católico pode
muito bem, subjetivamente, estar certo da verdade do catolicismo. Mas, se ele é
intelectualmente honesto (se ama a verdade mais que a certeza), deve reconhecer
que é incapaz de convencer um protestante, um ateu ou um muçulmano, ainda que cultos,
inteligentes e de boa-fé. Cada um, por mais convencido que possa estar de ter
razão, deve pois admitir que não tem condições de prová-lo… A tolerância, como
força prática (como virtude), funda-se assim em nossa fraqueza teórica, isto é,
na incapacidade em que estamos de alcançar o absoluto. Foi o que viram
Montaigne, Bayle, Voltaire: “É dar um preço muito alto a suas conjecturas”,
dizia o primeiro, “assar um homem vivo por causa delas”; “a evidência é uma
qualidade relativa” dizia o segundo; e o terceiro, como que insistindo: “O que
é a tolerância? É o apanágio da humanidade. Somos todos feitos de fraquezas e
de erros; perdoemo-nos reciprocamente nossas tolices, é esta a primeira lei da
natureza.” É aí que a tolerância tem a ver com a humildade, ou antes, dela
decorre, como esta da boa-fé: amar a verdade até o fim é também aceitar a
dúvida em que ela resulta, para o homem. De novo Voltaire: “Devemos tolerar-nos
mutuamente, porque somos todos fracos, inconseqüentes, sujeitos à mutabilidade,
ao erro. Um caniço vergado pelo vento sobre a lama porventura dirá ao caniço
vizinho, vergado em sentido contrário: ‘Rasteja a meu modo, miserável, ou farei
um requerimento para que te arranquem e te queimem’?” Humildade e misericórdia
andam juntas, e esse conjunto, no que se refere ao pensamento, conduz à
tolerância.
A segunda razão prende-se mais à política do que
à moral, e mais aos limites do Estado do que do conhecimento. Ainda que tivesse
acesso ao absoluto, o soberano não teria condições de impô-lo a ninguém, porque
não se poderia forçar um indivíduo a pensar de maneira diferente da que pensa,
nem a crer verdadeiro o que lhe parece falso. Foi o que viram Spinoza e Locke,
e que, no século XX, a história dos diferentes totalitarismos confirma. Pode-se
impedir um indivíduo de exprimir o que crê, mas não de pensá-lo. Ou então
tem-se de suprimir o próprio pensamento, e enfraquecer assim o Estado… Não há
inteligência sem liberdade de julgamento, nem sociedade próspera sem
inteligência. Portanto, um Estado totalitário tem de se resignar à tolice ou à
dissidência, à pobreza ou à crítica… A história recente dos países do Leste
europeu mostra que esses escolhos, entre os quais o totalitarismo pode sem
dúvida navegar por muito tempo, no entanto o condenam a um naufrágio tão imprevisível,
em suas formas, quanto difícil, a mais ou menos longo prazo, a se evitar… A
intolerância torna tolo, assim como a tolice torna intolerante. É uma sorte
para nossas democracias, e talvez explique uma parte da sua força, que
surpreendeu muitos, ou afinal a fraqueza dos Estados totalitários. Nem uma nem
outra teriam deixado surpreso Spinoza, que fazia do totalitarismo esta
descrição antecipada: “Suponhamos”, escreve, “que essa liberdade [de
julgamento] possa ser comprimida e que seja possível manter os homens em tal
dependência que não ousem proferir uma palavra, a não ser por prescrição do
soberano; ainda assim este não conseguirá nunca que só tenham os pensamentos
que ele quiser; e desse modo, por uma conseqüência necessária, os homens não
deixariam de ter opiniões em desacordo com sua linguagem, e a boa-fé, esta
primeira necessidade do Estado, se corromperia; o incentivo dado à detestável
adulação e à perfídia traria o reinado da esperteza e da corrupção de todas as
relações sociais…” Em suma, com o tempo, a intolerância do Estado (portanto,
também o que chamamos de totalitarismo) não pode deixar de debilitá-lo, pela
debilitação do vínculo social e da consciência de cada um. Num regime
tolerante, ao contrário, a força do Estado constitui a liberdade de seus
membros, assim como sua liberdade constitui sua força: “O que exige antes de
tudo a segurança do Estado”, conclui Spinoza, é evidentemente que cada um
submeta sua ação às leis do soberano (do povo, portanto, numa democracia), mas
também “que, quanto ao mais, seja permitido a cada um pensar o que quer e dizer
o que pensa”. O que é isso senão a laicidade? E o que é a laicidade, senão a
tolerância instituída?
A terceira razão é a que evoquei a princípio;
mas ela talvez seja, em nosso universo espiritual, a mais recente e a menos
comumente aceita: trata-se do divórcio (ou, digamos, da independência
recíproca) entre a verdade e o valor, entre o verdadeiro e o bem. Se é a
verdade que comanda, como acreditam Platão, Stálin ou João Paulo II, a única
virtude é submeter-se a ela. E, uma vez que a verdade é a mesma para todos,
todos devem submeter-se igualmente aos mesmos valores, às mesmas regras, aos
mesmos imperativos: uma mesma verdade para todos, logo uma mesma moral, uma
mesma política, uma mesma religião para todos! Fora da verdade não há salvação,
e fora da Igreja ou do Partido, não há verdade… O dogmatismo prático, que pensa
o valor como uma verdade, conduz assim à consciência tranqüila, à
auto-suficiência, à rejeição ou ao desprezo do outro – à intolerância. Todos os
que não se submetem à “verdade sobre o bem e sobre o mal moral”, escreve por
exemplo João Paulo II, “verdade estabelecida pela ‘Lei divina’, norma
universal e objetiva da moralidade”, todos estes, pois, vivem no pecado, e
embora, é claro, devam ser lastimados e amados, não se poderia reconhecer seu
direito de julgar de modo diferente: seria cair no subjetivismo, no relativismo
ou no ceticismo, e esquecer com isso “que não há liberdade nem fora da verdade,
nem contra ela”. Como a verdade, assim também a moral não depende de nós: “a
verdade moral”, como diz João Paulo II, impõe-se a todos e não poderia depender
nem das culturas, nem da história, nem de uma autonomia qualquer do homem ou da
razão. Que verdade? Claro que a “verdade revelada”, tal como a Igreja, e só
ela, a transmite! Façam o que fizerem todos os casais católicos que utilizam
pílulas ou preservativos, todos os homossexuais, todos os teólogos modernos,
isso em nada alterará o problema: “O fato de que certos crentes ajam sem seguir
os ensinamentos do Magistério ou considerem, erroneamente, ser justa do ponto
de vista moral uma conduta que seus pastores declararam contrária à Lei de
Deus, não pode ser um argumento válido para refutar a verdade das normas morais
ensinadas pela Igreja.” E tampouco o seria a consciência individual ou
coletiva: “É a voz de Jesus Cristo, a voz da verdade sobre o bem e o mal que
ouvimos na resposta da Igreja.” A verdade se impõe a todos, portanto também
à religião (pois ela é a verdadeira religião), portanto também à moral
(pois a moral “é fundada na verdade”). É uma filosofia de boneca russa: é
preciso obedecer à verdade, logo a Deus, logo à Igreja, logo ao Papa… O ateísmo
ou a apostasia, por exemplo, são pecados mortais, isto é, pecados que, salvo
arrependimento, acarretam “a condenação eterna”. Eis, pois, seu servidor, sem
falar de seus outros erros, que são inúmeros, já danado duas vezes… É o que
João Paulo II chama de “a certeza reconfortante da lei cristã”. Veritatis
terror!
Não quero deter-me nessa encíclica, que não tem
maior importância. Como as circunstâncias históricas tiram toda e qualquer
plausibilidade (pelo menos no Ocidente e a curto ou médio prazo) de não sei que
volta à inquisição ou à ordem moral, as posições da Igreja, ainda que intolerantes,
devem é claro ser toleradas. Vimos que apenas a periculosidade de uma atitude
(e não a tolerância ou a intolerância de que ela dá prova) devia determinar que
tal atitude seja ou não tolerada: feliz época a nossa, e feliz país em que
mesmo as Igrejas deixaram de ser perigosas! Já se foi o tempo em que podiam
queimar Giordano Bruno, supliciar Calas ou guilhotinar (aos dezenove anos!) o
cavaleiro de La Barre… De resto, só tomei essa encíclica como exemplo para
mostrar que o dogmatismo prático sempre leva, ainda que de forma atenuada, à
intolerância. Se os valores são verdadeiros, se são conhecidos, não se poderia
nem discuti-los nem escolhê-los, e os que não compartilham os nossos estão, por
conseguinte, errados – por isso não merecem outra tolerância além daquela que
podemos ter, às vezes, para com os ignorantes ou os imbecis. Mas isso será
ainda tolerância?
Para quem reconhece que valor e verdade são duas
ordens diferentes (esta ligada ao conhecimento, aquela ao desejo), há nesta
disjunção, ao contrário, uma razão suplementar para ser tolerante: ainda que
tivéssemos acesso a uma verdade absoluta, com efeito, isso não poderia obrigar
todo o mundo a respeitar os mesmos valores, nem portanto a viver da mesma
maneira. O conhecimento, que se refere ao ser, nada diz sobre o dever-ser: o
conhecimento não julga, o conhecimento não comanda! A verdade se impõe a todos,
decerto, mas não impõe nada. Ainda que Deus existisse, por que deveríamos
aprová-lo sempre? E que direito teria eu, quer ele exista quer não, de impor meu
desejo, minha vontade ou meus valores aos que não os compartilham? São
necessárias leis comuns? Sem dúvida, mas apenas nos domínios que nos são
comuns! Que me importam as esquisitices eróticas de fulano ou de beltrano, se
são praticadas entre adultos que concordam com elas? Quanto às leis comuns,
embora sejam obviamente necessárias (para impedir o pior, para proteger os
fracos…), cabe à política e à cultura cuidar delas – e estas sempre são
relativas, conflituais, evolutivas -, e não a uma verdade absoluta qualquer que
se impusesse a nós e que, portanto, poderíamos legitimamente impor a outrem. A
verdade é a mesma para todos, mas o desejo não, mas a vontade não. Não
significa que nossos desejos e nossas vontades nunca possam nos aproximar, o
que seria surpreendente, já que temos o mesmo corpo, no essencial, a mesma
razão (a razão, se não é o todo da moral, nela representa, sem dúvida, um papel
importante) e, cada vez mais, a mesma cultura… Esse encontro dos desejos, essa
comunhão das vontades, essa aproximação das civilizações, quando ocorrem, não
são o resultado de um conhecimento: são um fato da história, um fato do desejo,
um fato de civilização. Que o cristianismo desempenhou nisso um papel de
destaque, todos sabem; ele não desculpa a Inquisição, claro, mas a Inquisição
também não poderia apagá-lo. “Ama e faz o que queres…” Podemos conservar
essa moral do amor sem o dogmatismo da Revelação? Por que não? Temos
necessidade de conhecer absolutamente a verdade para amá-la? Precisamos de um
Deus para amar nosso próximo? Veritatis amor, humanitatis amor… Contra o
esplendor da verdade (por que ela teria de ser esplêndida?), contra o peso dos
dogmas e das Igrejas, a doçura da tolerância…
Podemos nos indagar, para concluir, se esta
palavra – tolerância – é de fato a que nos convém: há nela algo de
condescendente, se não de desdenhoso, que incomoda. Lembrem-se da boutade
de Claudel: “Tolerância? Há casas para isso!” Isso diz muito sobre Claudel e
sobre a tolerância. Tolerar as opiniões do outro acaso já não é considerá-las
inferiores ou incorretas? A rigor, só podemos tolerar aquilo que teríamos o
direito de impedir: se as opiniões são livres, como devem ser, não dependem
pois da tolerância! Daí um novo paradoxo da tolerância, que parece invalidar
sua noção. Se as liberdades de crença, de opinião, de expressão e de culto são
de direito, não podem ser toleradas, mas simplesmente respeitadas, protegidas,
celebradas. Apenas “a insolência de um culto dominador”, já observava
Condorcet, pôde “denominar tolerância, isto é, uma permissão dada por homens a
outros homens”, o que deveria ser considerado ao contrário como o respeito por
uma liberdade comum. Cem anos mais tarde, o Vocabulário de Lalande ainda
atesta, no início deste século, numerosíssimas reticências. O respeito à
liberdade religiosa “é muito mal chamado de tolerância”, escrevia por exemplo
Renouvier, “pois é estrita justiça e obrigação inteira”. Reticência também em
Louis Prat: “Não se deveria dizer tolerância, mas respeito; senão a
dignidade moral é atingida… A palavra tolerância implica, com muita freqüência,
em nossa língua, a idéia de polidez, às vezes de piedade, às vezes de
indiferença; talvez por causa dela a idéia do respeito devido à liberdade leal
de pensar seja falseada na maioria dos espíritos.” Reticência também em Émile
Boutroux: “Não gosto dessa palavra, tolerância; falemos de respeito, de
simpatia, de amor…” Todas essas observações são justificadas, mas nada puderam
contra o uso. Noto de resto que o adjetivo respectueux [respeitoso], em
francês, não evoca em absoluto o respeito à liberdade alheia, nem mesmo sua
dignidade, mas antes uma espécie de deferência ou de consideração que podemos
julgar suspeita, muitas vezes, e que não encontraria seu lugar num tratado das
virtudes… Tolerante, ao contrário, impôs-se, na linguagem corrente como
na filosófica, para designar a virtude que se opõe ao fanatismo, ao sectarismo,
ao autoritarismo, em suma… à intolerância. Esse uso não me parece desprovido de
razão: ele reflete, na própria virtude que a supera, a intolerância de cada um.
A rigor, dizia eu, só se pode tolerar o que se teria o direito de impedir, de
condenar, de proibir. Mas esse direito que nós não temos, quase sempre
temos a sensação de tê-lo. Não temos razão de pensar o que pensamos? E, se
temos razão, como os outros não estariam errados? E como a verdade poderia
aceitar – a não ser por tolerância – a existência ou a continuidade do
erro? O dogmatismo sempre renasce, ele nada mais é que um amor ilusório e
egoísta da verdade. Por isso chamamos de tolerância o que, se fôssemos
mais lúcidos, mais generosos, mais justos, deveria chamar-se respeito, de fato,
ou simpatia, ou amor… Portanto, é a palavra que convém, pois o amor falta, pois
a simpatia falta, pois o respeito falta. A palavra tolerância só nos
incomoda porque – por uma vez! – não antecipa, ou não antecipa muito, o que
somos. “Virtude menor”, dizia Jankélévitch. Porque ela se assemelha a nós.
“Tolerar não é, evidentemente, um ideal”, já notava Abauzit, “não é um máximo,
é um mínimo.” Claro, mas é melhor que nada ou que seu contrário! É evidente que
mais valem o respeito ou o amor. Se a palavra tolerância se impôs,
entretanto, é sem dúvida porque de amor ou de respeito todos se sentem muito
pouco capazes, em se tratando de seus adversários – ora, é em relação a eles,
primeiramente, que a tolerância age… “Esperando o belo dia em que a tolerância
se incline ao amor”, conclui Jankélévitch, “diremos que a tolerância, a
prosaica tolerância é aquilo que melhor podemos fazer! A tolerância – por menos
exaltante que seja esta palavra – é, pois, uma solução passável; à espera de
melhor, isto é, à espera de que os homens possam se amar, ou simplesmente se
conhecer e se compreender, demo-nos por felizes com que eles comecem a se
suportar. A tolerância é, pois, um momento provisório.” Que esse provisório é
feito para durar, que claro. Se ele cessasse, seria de se temer que a barbárie,
em vez do amor, lhe sucedesse! Pequena virtude, também ela, a tolerância talvez
desempenhe, na vida coletiva, o mesmo papel da polidez na vida interpessoal: é
apenas um começo, mas o é.
Sem contar que às vezes é necessário tolerar o
que não se quer nem respeitar nem amar. O irrespeito nem sempre é uma falta,
longe disso, e certos ódios estão bem próximos de ser virtudes. Há, o
intolerável como vimos, que cumpre combater. Mas há também o tolerável, que é
contudo desprezível e detestável. A tolerância diz tudo isso, ou pelo menos o
autoriza. Essa pequena virtude nos convém: ela está a nosso alcance, o que não
é tão freqüente, e alguns de nossos adversários, parece-nos, não merecem muito
mais…
Como a simplicidade é a virtude dos sábios e a
sabedoria, dos santos, assim a tolerância é sabedoria e virtude para aqueles
que – todos nós – não são nem uma coisa nem outra.
Pequena virtude, mas necessária. Pequena
sabedoria, mas acessível.
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