Pequeno tratado das grandes virtudes
09 - A misericórdia
A misericórdia, no sentido em que tomo a palavra, é a
virtude do perdão – ou antes, e melhor, sua verdade.
O que é, de fato, perdoar? Se entendermos, como certa
tradição nos convida a fazer, que é apagar a falta, considerá-la nula e não
acontecida, é um poder que não temos, ou uma tolice que é melhor evitar. O
passado é irrevogável e toda verdade é eterna: mesmo Deus, notava Descartes,
não pode fazer com que o que foi feito não o tenha sido. Nós também não
podemos, e para com o impossível ninguém tem obrigação. Quanto a esquecer a
falta, além de que, muitas vezes, isso seria faltar com a fidelidade às vitimas
(devemos esquecer os crimes do nazismo? Devemos esquecer Auschwitz e Oradour?),
seria também uma tolice, quase sempre, e por conseguinte seria faltar com a
prudência. Certo amigo seu o traiu: seria inteligente você manter a confiança
nele? Certo comerciante o roubou: é imoral trocá-lo? Seria zombar das palavras
pretender que sim e ostentar uma virtude bem cega ou bem tola. Caute,
dizia Spinoza, cuidado, e não era pecar contra a misericórdia. Seus
biógrafos contam também que, tendo sido apunhalado por um fanático, ele
conservou a vida inteira seu gibão furado, para não esquecer aquele
acontecimento nem, sem dúvida, aquela lição. Isso não quer dizer que ele não
tivesse perdoado (veremos que o perdão, em certo sentido, faz parte das
exigências da doutrina), mas simplesmente que perdoar não é apagar, que perdoar
não é esquecer. Então, é o quê? É cessar de odiar, e é essa de fato a definição
da misericórdia: ela é a virtude que triunfa sobre o ressentimento, sobre o
ódio justificado (pelo que ela vai além da justiça), o rancor, o desejo de
vingança ou de punição. A virtude que perdoa, pois, não suprimindo a falta ou a
ofensa, o que não é possível, mas cessando de, como se diz, ter raiva de quem
nos ofendeu ou prejudicou. Não é a clemência, que só renuncia a punir (podemos
odiar sem punir, assim como punir sem odiar), nem a compaixão, que só simpatiza
no sofrimento (podemos ser culpados sem sofrer, assim como sofrer sem sermos
culpados), nem enfim a absolvição, entendida como o poder – que só poderia ser
sobrenatural – de anular os pecados ou as faltas. Virtude singular e limitada,
pois, todavia bastante difícil e bastante louvável para ser uma virtude.
Cometemos faltas demais, uns e outros, somos miseráveis demais, fracos demais,
vis demais, para que ela não seja necessária.
Voltemos um instante à sua diferença em relação à
compaixão. Esta refere-se a um sofrimento, como vimos, e a maioria destes são
inocentes. A misericórdia refere-se às faltas, e muitas destas são indolores.
Portanto, a misericórdia e a compaixão são duas virtudes diferentes, que,
quanto a seus objetos, não se sobrepõem. É verdade, porém, que perdoaremos mais
facilmente quem sofre, mesmo que seu sofrimento não tenha relação com sua falta
(e, especialmente, não seja arrependimento). A misericórdia é o contrário do
rancor, e o rancor é um ódio. Ora, como vimos a propósito da compaixão, é quase
impossível odiar quem vemos sofrer atrozmente: a piedade desvia-se do ódio,
dizia eu, e é nisso que a compaixão, sem se confundir com ela, pode de fato
levar à misericórdia. O inverso também pode ser verdadeiro, às vezes
(condoemo-nos mais facilmente quando paramos de odiar); mas a compaixão, que é
mais afetiva, mais natural, mais espontânea, é o primeiro movimento, quase
sempre. A misericórdia é mais difícil e mais rara.
Porque ela requer reflexão, que a piedade dispensa sem
problema. Sobre que reflete o misericordioso? Sobre si mesmo, que muito pecou?
Pode ser, e isso o dissuadirá, como dizem os Evangelhos, de atirar a primeira
pedra… Mas essa misericórdia por identificação só vale quando a identificação é
possível: apenas nas faltas comuns, ou que poderiam vir a sê-lo. Assim, posso
perdoar o ladrão, pois já me ocorreu roubar (livros, na minha juventude). O
mentiroso, pois às vezes minto. O egoísta, pois o sou. O covarde, pois eu
poderia sê-lo. Mas e o estuprador de crianças? E o torturador? Quando a falta
excede a medida comum, a identificação perde sua força, ou mesmo sua
plausibilidade. Ora, são sobretudo esses crimes, e os mais horríveis dentre
eles, que reclamam nossa misericórdia. Para que o perdão, se ele só se refere a
bagatelas? Para que a misericórdia, se ela só perdoa o que, mesmo sem ela,
seria perdoável?
Portanto é necessária outra coisa que não a identificação,
mas o quê? O amor? Quando ele existe, e quando subsiste depois da descoberta da
falta, acarreta evidentemente a misericórdia, mas também a deixa sem objeto.
Perdoar é cessar de odiar, é renunciar à vingança, e é por isso que o amor nem
precisa perdoar, pois sempre já o fez, sempre o fará, ele só existe com essa
condição. Como cessar de odiar, quando não se odeia? Como perdoar, quando não
se tem em si nenhum rancor a vencer? O amor é misericordioso, mas tal como
respira e sem que isso seja nele uma virtude específica. “Perdoamos enquanto
amamos”, dizia La Rochefoucauld. Mas enquanto amamos não é misericórdia, é
amor. Os pais sabem disso, e os filhos às vezes também. Amor infinito? Não,
pois não é possível. Mas incondicional, e superior parece, a qualquer falta
possível, a qualquer ofensa possível. “O que você não me perdoaria?”, pergunta
o garotinho a seu pai. E o pai não encontra nada. Não, nem mesmo o pior. Os
pais não têm o que perdoar aos filhos: o amor toma neles o lugar da
misericórdia. Cabe aos filhos perdoar aos pais, se puderem, ou quando puderem.
Perdoar o quê? Amor e egoísmo demais, amor e tolice demais, angústia e
infelicidade demais… Ou então pouco amor demais, e o perdão não será menos
necessário. Que outra coisa é tornar-se adulto? Aprecio muito a fórmula de
Oscar Wilde, em O retrato de Dorian Gray: “Os filhos começam por amar os
pais; quando crescem, julgam-nos; às vezes, perdoam-nos.” Felizes os filhos que
podem perdoar seus pais, felizes os misericordiosos!
Quanto ao resto, quero dizer fora da família, somos tão
pouco capazes de amor, sobretudo para com os maus, que é improvável que a
misericórdia possa nascer dele. Como poderíamos amar nossos inimigos, ou mesmo
suportá-los, sem perdoá-los primeiro? Como o amor poderia resolver um problema
que só se coloca por causa da sua ausência? Porque amar nós não sabemos, e amar
os maus ainda menos. É por isso mesmo que precisamos tanto de misericórdia! Não
porque o amor está presente, mas porque não está, porque só há ódio, porque só
há cólera! Como amaríamos os canalhas? Quanto aos bons, eles não precisam de
nossa misericórdia, nem nós precisamos ter misericórdia por eles. A admiração
basta, e é melhor.
De novo, é preciso outra coisa, portanto. Não um sentimento
primeiramente, o que faz a misericórdia ser mais difícil que a compaixão. O
corpo se projeta no sofrimento do outro e quer poupar aquele que sofre:
piedade. Mas o corpo quer punir, mas o corpo quer vingar: cólera, rancor, ódio.
Talvez pudesse renunciar a isso, se o adversário sofresse, se a piedade viesse
socorrer a misericórdia. Mas e em outro caso? É preciso mais ou menos que uma
sensação, mais ou menos que um sentimento: uma idéia. Como a prudência, a
misericórdia é virtude intelectual, em todo caso intelectual a princípio e por
muito tempo. Trata-se de compreender alguma coisa. O quê? Que o outro é mau, se
for, ou que está enganado, se estiver, ou que é fanático ou dominado por suas
paixões, se paixões ou idéias o dominarem, enfim que lhe seria difícil, em todo
caso, agir ao contrário do que ele é (por que milagre?) ou de se tornar subitamente
bom, doce, razoável e tolerante… Perdoar: aceitar. Não para cessar de combater,
é claro, mas para cessar de odiar. “Morro sem ódio em mim ao povo alemão…” E
sem ódio a seus próprios carrascos? É mais difícil, e a história não o diz. No
entanto, quem não vê que ele é mais livre do que eles? Sim, mesmo agrilhoado,
mas livre do que seus assassinos, que são escravos! É o que o perdão registra
ou exprime, pelo que coincide com a generosidade (em perdoar há doar):
é como uma superabundância de liberdade, que vê bem demais a que falta aos
culpados para lhes querer mal absolutamente, e que lhes concede a graça de
compreendê-los, de desculpá-los, de perdoá-los por existirem e serem o que são…
Que canalha escolheu livremente sê-lo? Inocente? Digamos antes que não é culpa
dele ser culpado, que ele é prisioneiro de seu ódio, de sua tolice, de sua
cegueira, que ele não escolheu ser o que é, nem seu corpo, nem sua história,
que ninguém escolheria livremente estar em seu lugar, ser tão ruim assim, tão
mau, que tudo isso tem suas causas, que seria valorizar demais esse canalha
imaginá-lo livre ou incompreensível (por que não sobrenatural, logo de uma
vez?), que seria prejudicar a nós mesmos odiá-lo, que nos basta combatê-lo ou
resistir-lhe tranqüilamente, serenamente, alegremente se pudermos, e perdoá-lo,
se não pudermos, sim, que se trata de vencer pelo menos o ódio em nós, na
impossibilidade de poder vencê-lo nele, de pelo menos sermos capazes de nos
dominar, na impossibilidade de dominá-lo, de pelo menos alcançarmos essa
vitória sobre o mal, sobre o ódio, de não somarmos ódio ao ódio, de não sermos
cúmplices ao mesmo tempo em que vítimas, de nos atermos ao bem, que é amor, ao
amor, que é misericórdia, à misericórdia, que é compaixão. Pois bem, e como
dizia Epicteto: “Homem, se for absolutamente necessário que o mal em outrem te
faça experimentar um sentimento contrário à natureza, que seja antes a piedade
que o ódio.” Ou então, como dizia Marco Aurélio: “Intrui-os ou suporta-os.” Ou
ainda, como dizia Cristo: “Pai, perdoa-lhes: eles não sabem o que fazem.”
Jankélévitch, que cita esta última frase, acha-a
“socrática” demais para seu gosto. Se não sabem o que fazem, sua falta é um
erro, não um crime: haverá motivo para perdoar? Todo erro é involuntário,
merece antes correção do que castigo, antes desculpa do que perdão. Mas para
que, então, a misericórdia? Ninguém é mau voluntariamente, dizia Sócrates: é o
que se chama intelectualismo socrático, para o qual o mal não passa de um erro.
Mas não passa de um erro, sem dúvida, sobre o mal. O mal está na vontade, não
na ignorância. No coração, não na inteligência ou no espírito. No ódio, não na
tolice. O mal não é um erro, que não é nada; o mal é egoísmo, maldade,
crueldade… É por isso, aliás, que ele reclama o perdão, com o qual o erro nada
tem a ver. “Desculpa-se o ignorante, mas perdoa-se o mau.” Apenas
a vontade é culpada, apenas ela pode sê-lo: ela é o único objeto legítimo do
rancor, e portanto da misericórdia. Não queremos mal à chuva que cai, nem ao
raio que fulmina, e por conseguinte nada temos que lhes perdoar. Ninguém é mau
involuntariamente, e apenas os maus podem depender do perdão. O perdão só se
dirige à liberdade, como só pode nascer de uma liberdade: livre graça, por uma
livre falta.
Sim, mas que liberdade? Liberdade de agir, claro: é a
vontade que é culpada, e uma ação só o é se voluntária. Um dançarino pisa no
seu pé, sem querer: não é maldade, é mau jeito. Ele lhe pede desculpas, que
você aceita de bom grado: não é perdão, é polidez. Só se tem motivo de perdoar quem
agiu de propósito, como se diz, portanto quem fez o que queria, em outras
palavras quem agiu livremente. Liberdade de ação: ser livre, nesse
sentido, é fazer o que se quer. Quanto a saber se ele era livre não apenas para
fazê-lo, mas também para querê-lo, portanto se poderia querer outra coisa, é
uma questão insolúvel, que já não tem por objeto a liberdade de ação, que todos
podem constatar, mas a liberdade da vontade (o livre-arbítrio), que está fora
do alcance das provas e da experiência (pois só se poderia experimentá-la
querendo-se uma coisa diferente da que se quer). Dessa liberdade, os antigos,
salvo às vezes Platão, não se ocuparam, pois eles não buscavam um culpado
absoluto para um castigo eterno. Isso não os impedia, acabo de recordá-lo a
propósito dos estóicos, de opor a piedade à cólera, a justiça à vingança, enfim
a misericórdia ao rancor. Seria preciso, a pretexto de nos preocuparmos mais
com nossa culpa, que nos tornássemos incapazes de perdoar? Como subordinar uma
decisão a uma questão insolúvel?
Como a propósito da generosidade, não quero tratar aqui do
problema do livre-arbítrio. A virtude não poderia depender desta ou daquela
tese metafísica. Direi simplesmente o seguinte: quer o mau tenha escolhido
livremente sê-lo, quer tenha se tornado mau necessariamente (devido ao seu
corpo, à sua infância, à sua educação, à sua história…), não é menos mau por
isso, em todo caso é responsável por seus atos, pois agiu voluntariamente. Por
isso pode ser punido, se for preciso, odiado até, se se quiser. Todavia são
duas coisas diferentes. O castigo pode ser justificado por sua utilidade,
social ou individual, e até por certa idéia que se tem da justiça (“Ele matou,
é justo matá-lo…”). Mas e o ódio? É apenas uma tristeza a mais, e não no
culpado, mas em quem a sente. Para quê? Principalmente, se o mau é o que é, e
quer o seja livremente, quer não, sua própria maldade é uma espécie de
desculpa: seja pelas causas que a provocam, se é uma maldade determinada, seja
por esse amor ao mal, por essa vontade intrinsecamente má, em suma, por si
mesma, se é maldade livre. É culpa dele ser mau? Sim, dir-se-á, pois ele
escolheu o ser! Mas será que o teria escolhido, se já não fosse mau? Pois supor
que ele tenha escolhido o mal quando preferia o bem é supô-lo louco e, com isso,
mais uma vez inocentá-lo. Em suma, cada um é culpado por seus atos, e ainda que
fosse culpado também por si (tendo escolhido livremente ser o que é), isso só
confirma sua maldade, se ele faz o mal pelo mal, ou seu mau coração, como diz
Kant, se faz o mal apenas por egoísmo (para seu próprio bem). A misericórdia
não anula essa vontade má, nem renuncia a combatê-la: ela se recusa a
compartilhá-la, a somar ódio a seu ódio, egoísmo a seu egoísmo, cólera à sua
violência. A misericórdia deixa o ódio ao odiento, a maldade aos maus, o rancor
aos ruins. Não porque estes não sejam verdadeiramente odientos, maus ou ruins
(ainda que fossem por causa deste ou daquele determinismo, como creio, nenhum
determinismo poderia anular aquilo que produz), mas porque o são. Foi o
que Jankélévitch percebeu muito bem: “Eles são maus, mas precisamente por esse
motivo devemos perdoá-los – pois são ainda mais infelizes do que os maus. Ou
melhor, é sua própria maldade que é uma infelicidade; a infinita infelicidade
de ser mau!”
O fato, entretanto, é que perdoaremos mais facilmente
quando tivermos consciência das causas que pesam sobre um ato ou, sobretudo,
sobre uma personalidade. O que há de mais atroz, o que há de mais imperdoável
do que martirizar uma criança? Todavia, quando ficamos sabendo que aquele pai
carrasco é (como acontece com freqüência) um ex-filho martirizado, alguma coisa
muda no juízo que temos dele; isso não suprime o horror da falta, mas ajuda a
compreendê-la e, por conseguinte, a perdoá-la. Como saber se educado como ele,
no medo e na violência, não teríamos evoluído como ele? E, ainda que assim não
fosse, é porque somos diferentes do que ele é (pois supomos que as
circunstâncias teriam sido idênticas). Mas terá ele escolhido por sê-lo? E nós
não o sermos? Como escolheríamos o que somos, aliás, já que toda escolha supõe
o que somos e depende disso? Como a existência precederia a essência – não
seria existência de nada, seria apenas, portanto, inexistência. Essa liberdade
não passaria de um nada, o que dá razão a Sartre, e o refuta.
Mas eis que me deixo levar a falar disso, do
livre-arbítrio, que eu queria deixar de lado. Digamos antes o seguinte. Pode
ser que haja duas maneiras de perdoar, conforme acreditemos ou não no
livre-arbítrio do culpado: pura graça, como diria Jankélévitch, se o
acreditarmos, ou conhecimento verdadeiro, como diria Spinoza, se não o
acreditarmos. Mas as duas coincidem no fato – que é a própria misericórdia – de
que o ódio desaparece e de que a falta, sem ser esquecida nem justificada, é
aceita pelo que é: um horror a combater, uma infelicidade a lamentar, uma
realidade a suportar, um homem, enfim, a amar – se pudermos. Os que leram meus
livros precedentes sabem que, pessoalmente, nunca pude acreditar no
livre-arbítrio, mas não cabe aqui eu me explicar. Que me baste evocar a grande
idéia de Spinoza, com a qual cada um fará o que quiser: os homens se detestam
tanto mais quando se imaginam livres, e tanto menos quando se sabem necessários
ou determinados. É com isso que a razão se aplaca, com isso que o conhecimento
é misericordioso. “Julgar”, dizia Malraux, “é evidentemente não compreender,
pois, se compreendêssemos, já não poderíamos julgar.” Digamos antes que não
poderíamos mais odiar, e é tudo o que a misericórdia pede – ou antes, tudo o
que ela propõe.
É esse o sentido de uma das mais famosas fórmulas de
Spinoza: “Não zombar, não chorar, não detestar, mas compreender.” É a própria
misericórdia, sem outra graça, aqui, senão a da verdade. Ainda é um perdão? Não
exatamente, pois quando se compreende já não há verdadeiramente o que perdoar
(o conhecimento, como o amor, torna o perdão a um só tempo necessário e
supérfluo). Desculpa? Não vou discutir por causa de palavras. Tudo se desculpa,
se quiserem, pois tudo tem suas causas. Mas não basta sabê-lo: o perdão realiza
essa idéia, que sem ele não passaria de uma abstração. Não queremos mal à chuva
que cai ou ao raio que fulmina, dizia eu, e por conseguinte nada temos a lhes
perdoar. O mesmo não vale para o mau, finalmente, e não é esse o verdadeiro
milagre – que não é milagre – da misericórdia? Que o perdão se abole no mesmo
instante em que se dá? Que o ódio se dissolve na verdade? O homem não é um
império num império: tudo é real, tudo é verdadeiro, o mal como o bem, e é por
isso que não há nem bem nem mal fora do amor ou do ódio que introduzimos. É
nisso que a misericórdia de Deus, como diria Spinoza, é verdadeiramente
infinita, porque ela é a própria verdade, que não julga. Nessas regiões de que
se aproximam os sábios, os místicos e os santos, ninguém pode habitar em
permanência. Mas a misericórdia tende a elas; mas a misericórdia leva a elas. É
o ponto de vista de Deus, se quisermos, no coração do homem: grande paz da
verdade, grande doçura do amor e do perdão! Mas o amor prevalece sobre o
perdão, ou o perdão arrebata a si mesmo nesse dom do amor. Perdoar é cessar de
odiar, é portanto cessar também de poder perdoar: quando o perdão é consumado,
quando é completo, quando não há nada mais além da verdade e do amor, não há
mais ódio a fazer cessar, e o perdão se abole na misericórdia. Por isso eu
dizia no início que a misericórdia era menos a virtude do perdão do que sua
verdade: ela o realiza, mas suprimindo seu objeto (não a falta: o ódio); ela o
consuma, mas abolindo-o. O sábio spinozista, em certo sentido, nada tem a
perdoar: não porque não pode ser vítima de injustiça ou de agressão, mas porque
nunca é conduzido pelo pensamento do mal nem enganado pela ilusão do
livre-arbítrio. Sua sabedoria nem por isso é menos misericordiosa, e é até
mais: pois o ódio desaparece de todo, levando consigo toda e qualquer idéia de
culpa absoluta (que seria responsabilidade não pelo ato, mas pelo ser), pois o
próprio amor torna a ser possível. É por isso que, em outro sentido, ele perdoa
tudo. Todos inocentes? Todos amáveis? Não, é claro, pela mesma razão! Embora as
obras das pessoas de bem e as dos maus façam igualmente parte da natureza e
decorram de suas leis, explica Spinoza, nem por isso elas deixam de diferir
“umas das outras, não apenas em grau, mas por sua essência: de fato, embora
tanto um rato quanto um anjo, tanto a tristeza quanto a alegria dependam de
Deus (isto é, da natureza), um rato não pode ser uma espécie de anjo, nem a
tristeza uma espécie de alegria”. A misericórdia não acarreta nem a abolição da
falta, que permanece, nem as diferenças de valor, que ela supõe e manifesta,
nem, é preciso lembrar, as necessidades do combate. Mas suprimindo o ódio, ela
dispensa que lhe busquemos justificativas. Aplacando a cólera e o desejo de
vingança, ela permite a justiça e, se necessário, o castigo sereno. Enfim ela
torna concebível que os maus, fazendo parte do real, também sejam oferecidos a
nosso conhecimento, à nossa compreensão e – pelo menos é esse o horizonte que a
misericórdia deixa entrever – a nosso amor. Nem tudo se equivale, claro, mas
tudo é verdadeiro, e o canalha tanto quanto o homem de bem. Misericórdia para
todos, paz para todos – e no próprio combate!
A imaginação resiste, e o ódio. Resistiríamos a menos. “Se
Spinoza tivesse sido contemporâneo dos extermínios maciços”, diz vigorosamente
Robert Misrahi, “não teria havido spinozismo. Um Spinoza escapado de Auschwitz
não teria podido dizer: ‘Humanas actiones non ridere, non lugere, neque
detestari, sed intelligere.’ A partir daqui, compreender já não é perdoar.
Ou melhor, não se pode mais compreender; não há nada mais a compreender. Porque
os abismos da maldade pura são incompreensíveis.” No entanto, será mesmo? Não é
dar um crédito singular a esses brutos supô-los inexplicáveis ou
incompreensíveis? Como? Einstein, Mozart ou Jean Moulin seriam explicáveis e os
SS não? A vida seria racional e o ódio não? O amor poderia se compreender e não
a crueldade? De tanto ver nos campos de concentração um irracional absoluto,
dá-se razão (apenas nesse ponto, é claro, mas já não é demais?) aos
irracionalistas que os construíram ou prepararam. De que valeria a razão, se só
pudesse compreender os que a seguem ou se submetem a ela? O fato de o nazismo
não ser razoável, o que é claríssimo, não impede que seja racional,
como tudo o que é real – o fato de a razão não poder aprová-lo não impede que
possa conhecê-lo e explicá-lo. Que outra coisa fazem nossos historiadores? E
como, senão, combatê-lo?
É aí que importa sobretudo distinguir o esquecimento da
misericórdia. Que podemos perdoar tudo, é o que a tradição atesta e os
modernos, mesmo os mais fiéis, estão prontos a aceitar:
O perdão não indaga se o crime é digno de ser perdoado, se
a expiação foi suficiente, se o rancor durou bastante… Não há falta tão grave
que não se possa, em último recurso, perdoar. Nada é impossível à onipotente
remissão! O perdão, nesse sentido, pode tudo. Onde o pecado abunda, diz são
Paulo, o perdão superabunda. (...) Se há crimes tão monstruosos que o criminoso
desses crimes não pode sequer expiá-los, resta sempre o recurso de perdoá-los,
pois o perdão foi feito precisamente para esses casos desesperadores ou
incuráveis.
Isso não autoriza, evidentemente, a esquecer o
crime, nem nossos deveres de fidelidade para com as vítimas, nem as exigências
do combate contra os criminosos de hoje ou contra os que zelaram pelos de
ontem. Jankélévitch explicou-se bastante bem a esse respeito, ou antes, bem
demais, para que seja necessário nos determos aqui. No entanto, permanece um
problema, como uma chaga aberta: pode-se, ou deve-se, perdoar os que nunca
pediram perdão? Não, responde Jankélévitch:
Apenas o arrependimento do criminoso e, principalmente, seu
remorso dão um sentido ao perdão, assim como apenas o desespero dá um sentido à
graça. (…) O perdão não se destina às consciências tranqüilas satisfeitas de
si, nem aos culpados não-arrependidos (…). O perdão não é feito para os porcos
ou para suas porcas. Antes que se possa falar em perdão, seria necessário que o
culpado, em vez de contestar, se reconhecesse culpado, sem arrazoados nem
circunstâncias atenuantes, e sobretudo sem acusar suas próprias vítimas – é o
mínimo! Para que perdoássemos, seria necessário primeiro, não é?, que nos
viessem pedir perdão. (…) Por que perdoaríamos os que lamentam tão pouco e tão
raramente seus monstruosos delitos? (…) Porque se os crimes não-expiados são
precisamente os que precisam ser perdoados, os criminosos não-arrependidos são
precisamente os que não necessitam de perdão.
Eles não, sem dúvida. Mas e nós? O ódio é uma tristeza,
sempre, a alegria é que é boa. Não, decerto, que devamos reconciliar-nos com os
brutos, nem tolerar seus abusos. Mas será que precisamos odiá-los para
combatê-los? Não, tampouco, que se deva esquecer o passado. Mas será que
precisamos do ódio para nos lembrar dele? Não se trata de remitir os pecados, o
que não podemos fazer, repitamos – e, aliás, não devemos (apenas as vítimas
poderiam acreditar-se autorizadas a tanto, mas aqui faltam vítimas, pois foram
mortas). Trata-se de suprimir o ódio, na medida do possível, e de combater
portanto com a alegria no coração, quando ela for possível, ou com a
misericórdia na alma, quando a alegria for impossível ou despropositada –
trata-se de amar nossos inimigos, se pudermos, ou de perdoá-los, se não
pudermos.
Cristo ou santo Estevão deram o exemplo, a crermos na
tradição, desse perdão sem preliminares nem condições; desse perdão que não
espera que o mau o seja menos (pois ele lamentaria tê-lo sido) para o perdoar,
desse perdão que é verdadeiramente um dom, e não uma troca (meu perdão contra
seu arrependimento), desse perdão incondicional, desse perdão em pura perda, se
quisermos, mas que é, contudo, contra o ódio, a maior vitória, e a única
talvez, desse perdão que nunca esquece mas que compreende, que não apaga mas
que aceita, desse perdão que não renuncia nem ao combate nem à paz, nem a si
nem ao outro, nem à lucidez nem à misericórdia! Estou plenamente de acordo com
que esses exemplos nos excedem. Mas isso acaso impede que nos esclareçam?
Não é, no entanto, que as Escrituras possam fazer as vezes
de sabedoria, nem que tenham resposta para tudo, nem que eu as aprove por
inteiro (mesmo deixando de lado a religião). Não estou disposto a oferecer a
outra face, e contra a violência prefiro o gládio à fraqueza. Amar nossos
inimigos supõe que os tenhamos (como poderíamos amar o que não existe?). Mas
termos inimigos não supõe necessariamente que os odiemos. O amor é uma alegria,
não uma impotência ou um abandono: amar os inimigos não é cessar de
combatê-los; é combatê-los alegremente.
A misericórdia é a virtude do perdão, e seu segredo, e sua
verdade. Ela não abole a falta mas o rancor, não a lembrança mas a cólera, não
o combate mas o ódio. Ela ainda não é amor mas o que faz as vezes dele, quando
ele é impossível, ou que o prepara, quando ele seria prematuro. Virtude de
segunda ordem, se quisermos, mas de primeira urgência, e por isso tão
necessária! Máxima da misericórdia: se não podes amar, cessa ao menos de odiar.
Notar-se-á que a misericórdia pode ter por objeto tanto as
faltas como as ofensas. Tal hesitação é bem reveladora de nossa pequenez, que
sempre condena o que nos condena, para a qual toda ofensa é uma falta, para a
qual toda afronta é condenável. Assim é, e é preciso que se saiba. Misericórdia
para todos, e para nós mesmos.
Por ser o ódio uma tristeza, a misericórdia (como o
trabalho do luto, com o qual ela se parece e de que talvez dependa: perdoar é
fazer o luto de seu ódio); por ser o ódio uma tristeza, dizia, a misericórdia
está do mesmo lado da alegria: sem ainda ser alegre, e nesse caso é perdão, ou
já sendo, e nesse caso é amor. Virtude mediadora, ou de transição. No fim,
porém, para quem puder chegar a ele, não há nada mais a perdoar: a misericórdia
triunfa nessa paz (adeus ódio! Adeus cólera!) em que o perdão culmina e se
abole. Misericórdia infinita, como é o mal, ou que deveria sê-lo, e por isso
fora de nosso alcance, sem dúvida. Mas já é uma virtude esforçar-se nesse
sentido: a misericórdia é o caminho, que inclui até mesmo os que fracassam
nela. Perdoa-te, minh’alma, teus ódios e tuas cóleras.
Podemos perdoar a nós mesmos? Claro, pois podemos nos odiar
e cessar de nos odiar. Senão, que sabedoria? Que felicidade? Que paz? Temos de
nos perdoar por sermos apenas nós… E nos perdoar também, quando pudermos, sem
injustiça, por ser o ódio às vezes forte demais, ou o sofrimento, ou a cólera,
para que possamos perdoar a este ou aquele de nossos inimigos… Felizes os
misericordiosos, que combatem sem ódio ou odeiam sem remorso!
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