Pequeno tratado das
grandes virtudes
11 - A humildade
A humildade é
uma virtude humilde: ela até duvida que seja uma virtude! Quem se gabasse da
sua mostraria simplesmente que ela lhe falta.
Isso todavia
não prova nada: não nos devemos gabar, nem nos orgulhar, de nenhuma virtude, e
é isso que a humildade ensina. Ela torna as virtudes discretas, como que
despercebidas de si mesmas, quase negadas. Inconsciência? É antes uma
consciência extrema dos limites de qualquer virtude, e de si. Essa discrição é
o sinal – ele mesmo discreto – de uma lucidez sem falha e de uma exigência sem
fraquezas. A humildade não é a depreciação de si, ou é uma depreciação sem
falsa apreciação. Não é ignorância do que somos, mas, ao contrário,
conhecimento, ou reconhecimento, de tudo o que não somos. É seu limite, pois
refere-se a um nada. Mas é nisso, também, que ela é humana: “Tão sábio quanto
quiser, mas enfim é um homem: o que é mais caduco, mais miserável e mais nada?”
Sabedoria de Montaigne: sabedoria da humildade. É absurdo querer superar o
homem, o que não podemos, o que não devemos fazer. A humildade é virtude
lúcida, sempre insatisfeita consigo mesma, mas que o seria ainda mais se não o
fosse. É a virtude do homem que sabe não ser Deus.
Assim, é a
virtude dos santos, quando os sábios, fora Montaigne, às vezes parecem
desprovidos dela. Pascal não está de todo errado ao criticar a soberba
dos filósofos. É que alguns deles levaram a sério sua divindade, sobre a qual
os santos não se iludem. “Divino, eu?” Seria preciso ignorar Deus, ou
ignorar a si mesmo. A humildade recusa pelo menos a segunda dessas duas
ignorâncias, e é nisso, antes de tudo, que ela é uma virtude: está vinculada ao
amor à verdade e a ele se submete. Ser humilde é amar a verdade mais que a si
mesmo.
É nisso
também que todo pensamento digno desse nome supõe a humildade: o pensamento
humilde, isto é, o pensamento, opõe-se nisso à vaidade, que não pensa mas crê
em si. Dirão que essa humildade não dura muito… Mas o pensamento também não.
Daí os orgulhosos sistemas.
A humildade,
por sua vez, pensaria antes sem crer em si: ela duvida de tudo, especialmente
de si mesma. Humana, humana demais… Quem sabe se ela não é a máscara de um
orgulho muito sutil?
Mas tentemos
antes de tudo defini-la.
“A
humildade”, escreve Spinoza, “é uma tristeza nascida do fato de o homem
considerar sua impotência ou sua fraqueza.” Essa humildade é menos uma virtude
do que um estado: é um afeto, diz Spinoza, em outras palavras, um estado de
alma. Se alguém imagina sua própria impotência, sua alma “se entristece por
isso mesmo”. É a experiência de nós todos, e seria enganoso fazer dela uma
força. Ora, a virtude, para Spinoza, não é outra coisa: virtude é força de
alma, e sempre alegre! A humildade, portanto, não é uma virtude, e o sábio não
tem por que se preocupar com ela.
É possível,
no entanto, que seja apenas uma questão de palavras. Não apenas porque a
humildade, para Spinoza, sem ser uma virtude, é não obstante “mais útil que
prejudicial” (ela pode ajudar quem a pratica a “viver enfim sob a condução da
razão”, e os Profetas tiveram razão de recomendá-la), mas também, e sobretudo,
porque Spinoza tem em vista expressamente um outro afeto, positivo, que corresponde
exatamente a nossa humildade virtuosa: “Se supusermos um homem concebendo sua
impotência porque ele conhece algo mais potente que ele mesmo, e por esse
conhecimento delimita sua potência de agir, estaremos concebendo então apenas
que esse homem se conhece distintamente, isto é, que sua potência de agir é
secundada.” Essa humildade é de fato uma virtude, pois é uma força maior, para
a alma, conhecer-se adequadamente (o contrário da humildade é o orgulho, e todo
orgulho é ignorância) ao mesmo tempo em que se conhece outra coisa maior. Sem
tristeza? Por que não, se cessa de amar unicamente a si?
Portanto,
apesar de alguns tradutores, evite-se confundir a humildade com a micropsuchia
de Aristóteles, que é mais bem vertida por baixeza ou pequenez.
De que se trata? Estamos lembrados de que toda virtude, para Aristóteles, é uma
cumeada entre dois abismos. Assim é no caso da magnanimidade ou grandeza de
alma: quem se afasta dela por excesso cai na vaidade; quem se afasta por falta,
cai na baixeza. Ser baixo é privar-se daquilo de que se é digno, é desconhecer
seu valor real, a ponto de se interditar qualquer ação um pouco elevada, por
nunca se acreditar capaz dela. Essa pequenez corresponde muito bem ao que
Spinoza, distinguindo-a da humildade (humilitas), chama de abjectio,
que se costuma traduzir por desestima ou desprezo por si, mas que Bernard
Pautrat teve razão de traduzir por baixeza: “A baixeza (abjectio)
é fazer de si, por tristeza, menos caso do que seria justo.” É evidente que
essa baixeza pode nascer da humildade, e é isso então que torna esta última
viciosa. Mas não há aí nenhuma fatalidade: alguém pode sentir-se triste com sua
impotência sem com isso exagerá-la, e mesmo – é o que chamo de humildade
virtuosa – achando nessa tristeza um acréscimo de força para combatê-la.
Dir-se-á que isso sai do spinozismo. Não estou certo, e, claro, pouco me
importa. Que a tristeza é uma força em nós, às vezes, ou que ela pode mobilizar
a força de que dispomos, a experiência ensina, parece-me, o que Spinoza por sinal
reconhece e que importa muito mais do que os sistemas. Há uma coragem do
desespero, e também uma coragem da humildade. De resto, não podemos escolher.
Mais vale uma verdadeira tristeza do que uma falsa alegria.
A humildade,
como virtude, é essa tristeza verdadeira de sermos apenas nós. E como
poderíamos ser outra coisa? A misericórdia também vale para nós mesmos,
temperando a humildade com um pouco de doçura. Que é necessário contentar-se
consigo, é o que ensina a misericórdia. Mas sentir-se contente consigo, quem
poderia, sem vaidade? Misericórdia e humildade vão de par e se completam.
Aceitar-se – mas não se iludir.
“O
contentamento de si”, escreve Spinoza, “é na realidade o objeto supremo de
nossa esperança.” Digamos que a humildade é seu desespero, e tudo estará dito.
Tudo? Ainda
não, porém. Pode até ser que o essencial não tenha sido abordado. O essencial?
O valor da humildade. Virtude, disse eu. Mas de que importância? De que
nível? De que dignidade?
Vê-se o
problema: se a humildade é digna de respeito ou de admiração, não é um erro ela
ser humilde? E se ela tiver razão de o ser, como se teria razão de admirá-la?
Parece que a humildade é uma virtude contraditória, que só poderia
justificar-se por sua própria ausência, ou só valer à sua custa.
“Sou muito
humilde”: autocontradição performática.
“Falta-me
humildade”: é um primeiro passo em sua direção.
Mas como um
sujeito pode valer desvalorizando-se?
Alcançamos
aqui, no fundo, a dupla crítica, kantiana e nietzscheana, da humildade. Vejamos
um pouco os textos. Na Doutrina da virtude, Kant opõe legitimamente o
que chama de “falsa humildade” (ou baixeza) ao dever de respeitar em si a
dignidade do homem como sujeito moral: a baixeza é o contrário da honra,
explica ele, e aquela é tão certamente um vício quanto esta, uma virtude. Kant
apressa-se evidentemente em acrescentar que também existe uma verdadeira
humildade (humilitas moralis), da qual ele dá esta bela definição: “A
consciência e o sentimento de seu pequeno valor moral em comparação com a
lei é a humildade.” Longe de atentar à dignidade do sujeito, esta última
humildade a supõe (não haveria razão alguma para submeter à lei um indivíduo
que não fosse capaz de tal legislação interior: a humildade implica a elevação)
e a confirma (submeter-se à lei é uma exigência da própria lei: a humildade é
um dever).
O fato é que
Kant a mantém dentro de limites rigorosíssimos, bem aquém, diga-se de passagem,
dos hábitos cristãos (ou apenas católicos?), e mesmo, parece-me, de certa
disposição espiritual de que os místicos, e não só no Ocidente, atestam a
generalidade e – em todo caso para quem leva a sério o que eles têm a nos dizer
– o valor. “Ajoelhar-se ou prosternar-se até o chão, mesmo para tornar sensível
a si a adoração das coisas celestes, é contrário à dignidade humana”, escreve
Kant, e isso é bonito. Mas é verdade? É evidente que ninguém deve ser servil
nem bajulador. Mas será necessário para tanto – e contra as tradições
espirituais mais elevadas e mais comprovadas – condenar também, por exemplo, a
mendicidade? São Francisco de Assis ou Buda pecaram contra a humanidade? A
rigor, podemos admitir que é “em todos os casos indigno de um homem humilhar-se
e curvar-se diante de outro”. Mas, além de que humildade não é humilhação e
nada tem a ver com ela (a humilhação só serve para os orgulhosos ou para os
perversos), acaso devemos por isso levar totalmente a sério, tratando-se de
nós, essa sublimidade, como diz Kant, de nossa constituição moral? Não
seria, precisamente, carecer de humildade, de lucidez – e de humor? O homem
empírico (homo phaenomenon, animal rationale) não tem
importância, explica Kant, mas considerado como pessoa (homo noumenon),
isto é, como sujeito moral, ele possui uma dignidade absoluta: “seu pequeno
valor enquanto homem animal não pode prejudicar sua dignidade como homem
razoável”. Que seja. Mas o que sobra, se os dois são apenas um? São mais
humildes os materialistas, que nunca esquecem o animal neles. Filhos da terra (humus,
de que vem humildade) e indignos para sempre do céu que inventam para
si. E mesmo se tratando da “comparação de si com outros homens?”: é de fato
condenável ou baixo inclinar-se diante de Mozart, Cavaillès ou do abbé
Pierre? “Quem se transforma em minhoca não deve queixar-se, depois, de ser
pisado”, escreve altivamente Kant. Mas quem se transforma em estátua – ainda
que uma estátua à glória do Homem ou da Lei -, deverá se queixar se o acharem
suspeito de presunção ou frieza? Mais vale o mendigo sublime, que lava os pés
do pecador.
Quanto a
Nietzsche, poderíamos segui-lo e retomá-lo interminavelmente: ele tem razão em
tudo, está errado em tudo, e o que diz da humildade não escapa desse turbilhão.
Quem pode contestar que há na humildade, tantas vezes, uma boa parte de
niilismo ou de ressentimento? Quantos só se acusam para melhor acusar o mundo
ou a vida – e com isso se desculparem? Quantos só se negam por incapacidade de
afirmar – e fazer! – o que quer que seja? Sim. “Aqueles que imaginamos mais
cheios de desestima por si mesmos e de humildade são geralmente os mais cheios
de ambição e de inveja”, já dizia Spinoza. Mais uma vez sim. No entanto, será o
caso de todos? Há uma humildade em Cavaillès, em Simone Weil, em Etty Hillesum
– e mesmo em Pascal ou Montaigne! -, ao lado da qual a grandeza nietzscheana é
que parece presunção. Nietzsche retoma a mesma imagem de Kant, a da minhoca: “A
minhoca se enrola quando pisamos nela. Isso encerra muita sabedoria. Com isso,
ela diminui a possibilidade de que tornem a pisar nela. Na linguagem da moral: humildade.”
Mas a humildade é só isso? Será isso o essencial? Alguém imagina, com esse
gênero de psicologia, explicar a humildade de um são Francisco de Assis ou de
um são João da Cruz? “Os mais generosos costumam ser os mais humildes”, escreve
Descartes, que nada tinha de minhoca. Também não se poderia ver na humildade
apenas o inverso de não sei que ódio a si. Não confundamos humildade e
consciência pesada, humildade e remorso, humildade e vergonha. Trata-se de
julgar não o que se fez, mas o que se é. E somos tão pouco… Haverá mesmo o que
julgar? O remorso, a consciência pesada ou a vergonha supõem que poderíamos ter
agido de outro modo, e melhor. A humildade constataria, antes, que não
poderíamos ser melhores. “Você pode fazer melhor”: esta fórmula do mestre acusa
antes de incentivar, e é também o que diz o remorso. A humildade diria antes:
“É o que ele pode.” Humilde demais para se acusar ou se desculpar. Lúcida
demais para ter plena raiva de si. Mais uma vez, humildade e misericórdia andam
juntas – e a coragem não precisa de encorajamentos. O remorso é um erro (porque
supõe o livre-arbítrio: os estóicos e Spinoza recusam-no por isso) antes de ser
uma falta. A humildade, um saber antes de ser uma virtude. Triste saber? Se
quisermos. Porém mais útil ao homem do que uma alegre ignorância. Mais vale se depreciar
do que se enganar.
Sem confundir
uma com a outra, poderíamos aplicar à humildade, e a fortiriori (pois
ela não supõe a ilusão do livre-arbítrio, nem mesmo o aumento de sofrimento), o
que Spinoza diz da vergonha: “Embora seja triste, na realidade, o homem que tem
vergonha do que fez é, no entanto, mais perfeito do que o impudente que não tem
nenhum desejo de viver honestamente.” Mesmo triste, o homem humilde é
entretanto mais perfeito do que o impudente pretensioso. É o que todos sabem
(mais vale a humildade do homem de bem do que a arrogância satisfeita do
canalha), e que faz Nietzsche estar errado. A humildade é virtude de escravo,
diz ele; os amos, “altaneiros e orgulhosos”, nada têm a ver com ela: toda
humildade lhes é desprezível. Admitamos. Mas o desprezo não é mais desprezível
do que a humildade? E a “glorificação de si mesmo”, graças à qual o aristocrata
se reconhece, é compatível com essa lucidez, da qual aliás Nietzsche, e com
razão, faz a virtude filosófica por excelência? “Conheço-me demais para me
glorificar do que quer que seja”, objetaria o homem humilde; “preciso antes de
toda a misericórdia de que sou capaz apenas para poder me suportar…” O que é
mais ridículo do que bancar o super-homem? Para que deixar de crer em Deus, se
é para se enganar a este ponto sobre si mesmo? A humildade é o ateísmo na
primeira pessoa: o homem humilde é ateu de si, como o não-crente o é de Deus.
Por que pretender quebrar todos os ídolos, se é para glorificar o último (o
eu!), se é para celebrar seu próprio culto? “Humildade igual a verdade”, dirá
Jankélévitch – como isso é mais verdadeiro, e mais humilde, do que a glorificação
nietzscheana! Sinceridade e humildade são irmãs: “A implacável e lúcida
sinceridade, a sinceridade sem ilusões é, para o sincero, uma lição contínua de
modéstia; e, vice-versa, a modéstia favorece o exercício da autoscopia
sincera.” É esse também o espírito da psicanálise (“sua majestade, o eu”, como
diz Freud, nela perde seu trono), pelo qual, sobretudo, ela é estimável.
Deve-se amar a verdade, ou amar a si. Todo conhecimento é uma ferida narcísica.
Devemos então
nos odiar, como queria Pascal? Claro que não: seria faltar com a caridade, à
qual todos têm direito (inclusive nós mesmos), ou antes, que dá a cada um, para
além de todo direito, o amor que cada um não merece mas que o ilumina, como uma
graça injustificável e devida, gratuita e necessária – o pouco de amor
verdadeiro, mesmo nos dizendo respeito (mas então ele não se refere mais ao
ego: ele o atravessa), de que às vezes somos capazes!
Amar ao
próximo como a si mesmo, e a si mesmo como a um próximo: “Onde está a
humildade”, dizia santo Agostinho, “está também a caridade.” É que a humildade
leva ao amor, como Jankélévitch recordou, e todo amor verdadeiro, sem dúvida, a
supõe: sem a humildade, o eu ocupa todo o espaço disponível, e só vê o outro
como objeto (de concupiscência, não de amor!) ou como inimigo. A humildade é
esse esforço, pelo qual o eu tenta se libertar das ilusões que tem sobre si
mesmo e – porque essas ilusões o constituem – pelo qual ele se dissolve.
Grandeza dos humildes. Eles vão ao fundo de sua pequenez, de sua miséria, de
seu nada: onde não há mais nada, onde não há mais que tudo. Ei-los sós e nus,
como qualquer um: expostos sem máscara ao amor e à luz.
Mas o amor sem
ilusões nem concupiscência – a caridade -, será que somos capazes dele?
Não cabe aqui
responder a essa questão. Mas, ainda que não sejamos, resta a compaixão, que é
sua face mais humilde e sua aproximação cotidiana.
Em seu
capítulo sobre a humildade, Jankélévitch observa com razão que “os gregos quase
não conheceram esta virtude”. Talvez seja por não se terem dado um Deus
suficientemente grande para que a pequenez do homem aparecesse como deveria?
Não é certo, entretanto, que eles tenham se enganado sempre acerca da sua
grandeza (Jankélévitch se engana, me parece, como Pascal, sobre o “orgulho
estóico”: também há uma humildade em Epicteto, pela qual o ego sabe não ser
Deus, e não ser nada); mas talvez eles tivessem menos narcisismo a combater, ou
menos ilusões a dissipar. O fato é que esse Deus (o nosso: o dos judeus, dos
cristãos e dos muçulmanos), quer se creia nele ou não, é agora, para todos, por
diferença, uma terrível lição de humildade. Os antigos se definiam como
mortais: apenas a morte, pensavam eles, os separava do divino. Não estamos mais
nesse ponto e sabemos agora que mesmo a imortalidade seria incapaz (e por isso,
sem dúvida, insuportável) de fazer de nós outra coisa, infelizmente, que não o
que somos… Quem às vezes não aspira a morrer, para ser libertado de si?
A humildade é
nisso, talvez, a mais religiosa das virtudes. Como gostaríamos de nos ajoelhar
nas igrejas! Por que recusá-lo? Estou falando apenas por mim: é que eu
precisaria imaginar que um Deus me criou – e dessa pretensão ao menos estou
libertado. Somos tão pouca coisa, tão fracos, tão miseráveis… A humanidade
constitui uma criação tão irrisória: como imaginar que um Deus tenha querido isso?
É assim que a
humildade, nascida da religião, pode conduzir ao ateísmo.
Crer em Deus
seria pecado de orgulho.
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