Pequeno tratado das grandes virtudes
4. A temperança
Não se trata de não desfrutar, nem de desfrutar
o menos possível. Isso não seria virtude mas tristeza, não temperança mas
ascetismo, não moderação mas impotência. Contra isso nunca será demais citar o
belo escólio de Spinoza, o mais epicuriano que ele escreveu talvez, em que está
tão bem dito o essencial: “Certamente apenas uma feroz e triste superstição proíbe
ter prazeres. Com efeito, o que é mais conveniente para aplacar a fome e a sede
do que banir a melancolia? Esta a minha regra, esta a minha convicção. Nenhuma
divindade, ninguém, a não ser um invejoso, pode ter prazer com a minha
impotência e a minha dor, ninguém toma por virtude nossas lágrimas, nossos
soluços, nosso temor e outros sinais de impotência interior. Ao contrário,
quanto maior a alegria que nos afeta, quanto maior a perfeição à qual chegamos,
mais é necessário participarmos da natureza divina. Portanto, é próprio de um
homem sábio usar as coisas e ter nisso o maior prazer possível (sem chegar ao
fastio, o que não é mais ter prazer).” A temperança se situa quase toda nesse
parêntese. É o contrário do fastio, ou o que leva a ele; não se trata de
desfrutar menos, mas de desfrutar melhor. A temperança, que é a moderação nos
desejos sensuais, é também a garantia de um desfrutar mais puro ou mais pleno.
É um gosto esclarecido, dominado, cultivado. Spinoza, no mesmo escólio,
continuava assim: “É próprio de um homem sábio, digo eu, mandar servir em sua
refeição e para a reparação de suas forças alimentos e bebidas agradáveis
ingeridos em quantidade moderada, como também perfumes, o adorno das plantas
verdejantes, os adereços, a música, os jogos que exercitam o corpo, os
espetáculos e outras coisas da mesma sorte, de que cada um pode fazer uso sem
prejuízo para outrem.” A temperança é essa moderação pela qual permanecemos
senhores de nossos prazeres, em vez de seus escravos. É o desfrutar livre, e
que, por isso, desfruta melhor ainda, pois desfruta também sua própria
liberdade. Que prazer é fumar, quando podemos prescindir de fumar! Beber,
quando não somos prisioneiros do álcool! Fazer amor, quando não somos
prisioneiros do desejo! Prazeres mais puros, porque mais livres. Mais alegres,
porque mais bem controlados. Mais serenos, porque menos dependentes. É fácil?
Claro que não. É possível? Nem sempre, sei do que estou falando, nem para
qualquer um. É nisso que a temperança é uma virtude, isto é, uma excelência:
ela é aquela cumeada, dizia Aristóteles, entre os dois abismos opostos da
intemperança e da insensibilidade, entre a tristeza do desregrado e a do
incapaz de gozar, entre o fastio do glutão e o do anoréxico. Que infelicidade
suportar seu corpo! Que felicidade desfrutá-lo e exercê-lo!
O intemperante é um escravo, mais subjugado
ainda por transportar em toda parte seu amo consigo. Prisioneiro de seu corpo,
prisioneiro de seus desejos ou de seus hábitos, prisioneiro de sua força ou de
sua fraqueza. Tinha razão Epicuro, que, em vez de temperança ou moderação (sophrosiné),
como Aristóteles ou Platão, preferia falar de independência (autarkéia).
Mas uma não dispensa a outra: “Vemos a independência como um grande bem, não,
em absoluto, para que vivamos de pouco, mas a fim de que, se não temos muito,
nos contentemos com pouco, persuadidos de que os que menos necessitam da
abundância a desfrutam com maior prazer, e de que tudo o que é natural é fácil
de conseguir, mas o que é vão é difícil de obter.” Numa sociedade não muito
miserável, a água e o pão não faltam quase nunca. Na sociedade mais rica, o
ouro ou o luxo sempre faltam. Como seríamos felizes uma vez que somos
insatisfeitos? E como seríamos satisfeitos uma vez que nossos desejos não têm
limites? Epicuro, ao invés, fazia um banquete com um pouco de queijo ou de
peixe seco. Que felicidade comer quando se tem fome! Que felicidade não ter
mais fome quando se comeu! E que liberdade só estar submetido à natureza! A
temperança é um meio para a independência, assim como esta é um meio para a
felicidade. Ser temperante é poder contentar-se com pouco; mas não é o pouco
que importa: é o poder, e é o contentamento.
A temperança – como a prudência e como todas as
virtudes, talvez – pertence, pois, à arte de desfrutar; é um trabalho do desejo
sobre si mesmo, do vivo sobre si mesmo. Ela não visa superar nossos limites,
mas respeitá-los. É uma ocorrência entre outras do que Foucault chamava a
preocupação consigo: virtude ética, muito mais que moral, e que é menos do
âmbito do dever do que do bom senso. É a prudência aplicada aos prazeres;
trata-se de desfrutar o mais possível, o melhor possível, mas por uma
intensificação da sensação ou da consciência que se tem desse desfrutar, e não
pela multiplicação indefinida de seus objetos. Pobre Dom Juan, que necessita de
tantas mulheres! Pobre alcoólatra, que precisa beber tanto! Pobre glutão, que
precisa comer tanto! Epicuro ensinava a sentir, antes, os prazeres conforme
eles aparecem, tão fáceis de satisfazer, quando são naturais, quanto o corpo de
aplacar. Há coisa mais simples do que matar a sede? Mais fácil de satisfazer –
salvo miséria extrema – do que um estômago ou um sexo? Mais limitada, e mais
felizmente limitada, do que nossos desejos naturais e necessários? Não é o
corpo que é insaciável. A ilimitação dos desejos, que nos condena à falta, à
insatisfação ou à infelicidade, nada mais é que uma doença da imaginação. Temos
sonhos maiores que a barriga, e censuramos absurdamente nossa barriga por sua
pequenez! Já o sábio “estabelece limites para o desejo, como para o temor”: são
os limites do corpo, e são os da temperança. Mas os intemperantes os desprezam
ou querem livrar-se deles. Não têm mais fome? Provocam o próprio vômito. Não
têm mais sede? Alguns amendoins bem salgados – ou o próprio álcool – resolvem.
Não têm mais vontade de fazer amor? Alguma revista pornográfica dará um jeito
de pôr a máquina para funcionar de novo… Sem dúvida, mas para quê? E a que
preço? Ei-los prisioneiros do prazer, em vez de serem liberados dele (pelo
próprio prazer)! Prisioneiros da falta, a tal ponto que, na saciedade, acaba
por lhes faltar! Que tristeza, dizem então, não ter mais fome nem sede de
nenhum tipo… É que eles querem mais, sempre mais, e não sabem se contentar, nem
mesmo com o excesso! É por isso que os desregrados são tristes; é por
isso que os alcoólatras são infelizes; e o que há de mais sinistro do que um
glutão empanturrado? “Comi demais”, diz ele refestelando-se, e ei-lo pesado,
inchado, esgotado… “A intemperança é peste da volúpia”, dizia Montaigne, “e a
temperança não é seu flagelo: é seu tempero”, que permite saborear o prazer “em
sua mais graciosa doçura”. Já faz assim o gourmet que, ao contrário do
glutão, prefere a qualidade à quantidade. É um primeiro progresso. Mas o sábio
tem objetivo mais elevado, mais próximo de si ou do essencial: a qualidade de
seu prazer importa-lhe mais do que a do prato que o ocasiona. É um gourmet,
se quisermos, mas em segundo grau, que, no entanto, seria o grau primordial: um
gourmet de si ou, antes (pois o eu nada mais é que um prato como outro
qualquer), da vida, do prazer anônimo e impessoal de comer, de beber, de
sentir, de amar… Não é um esteta, é um conhecedor. Ele sabe que só há prazer do
gosto, e só há gosto do desejo: “Os pratos simples”, diz-se ele, “proporcionam
um prazer igual ao de um regime suntuoso, uma vez suprimida toda a dor que vem
da necessidade; e pão de cevada e água proporcionam o prazer extremo, quando
alguém os leva à boca na necessidade. Portanto, o costume de regimes simples e não-dispendiosos
é adequado para perfazer a saúde, torna o homem ativo nas ocupações essenciais
da vida, coloca-nos em melhor disposição quando nos aproximamos, por
intervalos, dos alimentos custosos, e deixa-nos sem temor diante da fortuna.”
Numa sociedade desenvolvida, como era a de Epicuro, como é a nossa, o que é
necessário é fácil de conseguir; o que não, difícil de conseguir ou de
conservar serenamente. Mas quem sabe se contentar com o necessário? Quem sabe
apreciar o supérfluo apenas quando este se apresenta? Somente o sábio, talvez.
A temperança intensifica seu prazer, quando o prazer está presente, e faz as
vezes deste, quando não está. Portanto, ele sempre está, ou quase sempre. Que
prazer estar vivo! Que prazer não carecer de nada! Que prazer ser senhor de
seus prazeres! O sábio epicurista pratica a cultura intensiva – em vez de
extensiva – de suas volúpias. O melhor, não o mais, é o que o
atrai e que basta à sua felicidade. Ele vive com “o coração contente de pouco”,
como dirá Lucrécio, ainda mais seguro do seu bem-estar por saber que “desse
pouco nunca há penúria”, ou que esta, se viesse a se impor, o curaria
rapidamente dela mesma, e de tudo. Aquele a quem a vida basta, de que poderia
carecer? São Francisco de Assis redescobrirá esse segredo, talvez, de uma
pobreza feliz. Mas a lição vale, sobretudo, para nossas sociedades de
abundância, nas quais se morre e se sofre com maior freqüência por intemperança
do que por fome ou ascetismo. A temperança é uma virtude para todos os tempos,
tanto mais necessária, contudo, quanto mais favoráveis eles são. Não é uma
virtude excepcional, como a coragem (tanto mais necessária, ao contrário,
quanto mais difíceis os tempos), mas uma virtude comum e humilde: virtude não
de exceção mas de regra, não de heroísmo mas de comedimento. É o contrário do desregramento
de todos os sentidos, caro a Rimbaud. É por isso, talvez, que nossa época,
que prefere os poetas aos filósofos e as crianças aos sábios, tende a esquecer
que a temperança é uma virtude, para só ver nela – “tomo cuidado”, dizem
– uma higiene. Pobre época, que acima dos poetas só sabe pôr os médicos!
Santo Tomás bem viu que essa virtude cardeal,
embora menos elevada do que as outras três (a prudência é a mais necessária, a
coragem e a justiça as mais admiráveis), prevalecia muitas vezes sobre elas
pela dificuldade. É que a temperança tem por objeto os desejos mais necessários
à vida do indivíduo (beber, comer) e da espécie (fazer amor), que são também os
mais fortes e, portanto, os mais difíceis de dominar. Isso quer dizer que não
se trata de suprimi-los – a insensibilidade é um defeito -, mas no máximo, e
tanto quanto possível, controlá-los (no sentido em que se fala em inglês de self-control),
de regrá-los (como se acerta um balé ou se regula um motor), de mantê-los em
equilíbrio, em harmonia ou em paz. A temperança é uma regulação voluntária da
pulsão de vida, uma afirmação sadia de nosso poder de existir, como diria
Spinoza, em especial do poder de nossa alma sobre os impulsos irracionais de
nossos afetos ou de nossos apetites. A temperança não é um sentimento, é um
poder, isto é, uma virtude. Ela é “a virtude que supera todos os gêneros de
embriaguez”, dizia Alain, e deve, portanto, superar também a embriaguez da
virtude, e de si mesma – e é aí que ela se aproxima da humildade.
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