Pequeno tratado das grandes virtudes
3 -
A prudência
A polidez é a
origem das virtudes; a fidelidade, seu princípio; a prudência, sua condição.
Será ela mesma uma virtude? A tradição responde que sim, e é o que cumpre
explicar em primeiro lugar.
A prudência é
uma das quatro virtudes cardeais da Antiguidade e da Idade Média. É a mais
esquecida, talvez. Para os modernos pertence menos à moral do que à psicologia,
menos ao dever do que ao cálculo. Kant já não via nela uma virtude: é apenas
amor a si esclarecido ou hábil, explicava, não condenável, decerto, mas sem
valor moral e sem outras prescrições que não sejam hipotéticas. É prudente
cuidar da saúde, mas quem veria nisso um mérito? A prudência é vantajosa demais
para ser moral; o dever, absoluto demais para ser prudente. No entanto, não é
seguro que Kant seja aqui o mais moderno, nem o mais justo. Porque ele concluía
que a veracidade é um dever absoluto, em todas as circunstâncias (inclusive – é
o exemplo que dava – quando assassinos perguntam a você se seu amigo, que eles
perseguem, está refugiado em sua casa) e quaisquer que sejam suas
conseqüências: é melhor faltar com a prudência do que faltar com seu dever, nem
que seja para salvar um inocente ou a si mesmo! É o que não podemos mais
aceitar, parece-me, por não acreditarmos muito nesse absoluto para sacrificar a
ele nossa vida, nossos amigos ou nossos semelhantes. Essa ética da convicção,
como dirá Max Weber, até nos apavoraria: o que vale o caráter absoluto dos
princípios, se é em detrimento da simples humanidade, do bom senso, da doçura,
da compaixão? Aprendemos a desconfiar também da moral, tanto mais quanto ela se
crê mais absoluta. À ética da convicção, preferiremos o que Max Weber chama de
ética da responsabilidade, a qual, sem renunciar aos princípios (como poderia?)
também se preocupa com as conseqüências previsíveis da ação. Uma boa intenção
pode levar a catástrofes, e a pureza dos móbeis, ainda que confirmada, nunca
bastou para impedir o pior; portanto seria condenável contentar-se com ela. A
ética da responsabilidade quer que respondamos não apenas por nossas intenções
ou nossos princípios, mas também pelas conseqüências de nossos atos, tanto
quanto possamos prevê-las. É uma ética da prudência, e a única ética válida.
Melhor é mentir à Gestapo do que lhe entregar um judeu ou um resistente. Em
nome de quê? Em nome da prudência, que é a justa determinação (para o homem,
pelo homem) desse melhor. É a moral aplicada, e o que seria uma moral
que não se aplicasse? As outras virtudes, sem a prudência, não poderiam mais
que revestir o Inferno com suas boas intenções.
Mas eu estava
falando dos antigos. É que a palavra prudência é demasiado carregada de
história para não estar sujeita a equívocos; e, de resto, ela quase desapareceu
do vocabulário moral contemporâneo. O que não significa que não precisemos mais
da coisa.
Examinemos com
maior cuidado o problema. Sabemos que os latinos traduziram por prudentia
a phronésis dos gregos e, especialmente, de Aristóteles ou dos estóicos.
De que se trata? De uma virtude intelectual, explicava Aristóteles, pelo
fato de haver-se com o verdadeiro, com o conhecimento, com a razão: a prudência
é a disposição que permite deliberar corretamente sobre o que é bom ou mau para
o homem (não em si, mas no mundo tal como é, não em geral, mas em determinada
situação) e agir em conseqüência, como convier. É o que poderíamos chamar de
bom senso, mas que estaria a serviço de uma boa vontade. Ou de inteligência,
mas que seria virtuosa. É nisso que a prudência condiciona todas as outras
virtudes; nenhuma, sem ela, saberia o que se deve fazer, nem como chegar ao fim
(o bem) que ela visa. Santo Tomás bem mostrou que, das quatro virtudes
cardeais, a prudência é a que deve reger as outras três: a temperança, a
coragem e a justiça, sem ela, não saberiam o que se deve fazer, nem como;
seriam virtudes cegas ou indeterminadas (o justo amaria a justiça sem saber
como, na prática, realizá-la, o corajoso não saberia o que fazer de sua
coragem, etc.), assim como a prudência, sem elas, seria vazia ou não seria mais
que habilidade. A prudência tem algo de modesto ou de instrumental; ela se põe
a serviço de fins que não são os seus e só se ocupa com a escolha dos meios.
Mas é isso que a torna insubstituível: nenhuma ação, nenhuma virtude – em todo
caso, nenhuma virtude em ato – poderia prescindir dela. A prudência não
reina (mais vale a justiça, mais vale o amor), mas governa. Ora, que seria um
reino sem governo? Não basta amar a justiça para ser justo, nem amar a paz para
ser pacífico; é preciso, além disso, a boa deliberação, a boa decisão, a boa
ação. A prudência decide e a coragem provê.
Os estóicos
consideravam a prudência uma ciência (“a ciência das coisas a fazer e a não
fazer”, diziam eles), o que Aristóteles recusara legitimamente, pois só há
ciência do necessário e prudência do contingente. A prudência supõe a
incerteza, o risco, o acaso, o desconhecido. Um deus não a necessitaria; mas
como um homem poderia prescindir dela? A prudência não é uma ciência; ela é o
que faz as suas vezes quando a ciência falta. Só se delibera quando se tem
escolha, em outras palavras, quando nenhuma demonstração é possível ou
suficiente. É então que é necessário querer não apenas o bom fim, mas os bons
meios que conduzem a ele! Não basta amar os filhos para ser bom pai, nem querer
o bem deles para fazê-lo. Amar, diria o humorista, não dispensa ninguém de ser
inteligente. Os gregos o sabiam, e talvez melhor do que nós. A phronésis
é como que uma sabedoria prática, sabedoria da ação, para a ação, na ação. No
entanto, ela não faz as vezes de sabedoria (de verdadeira sabedoria: Sophia),
porque tampouco basta agir bem para viver bem, ou ser virtuoso para ser feliz.
Aristóteles tem razão, aqui, contra quase todos os antigos: a virtude não basta
mais à felicidade do que a felicidade à virtude. A prudência é, porém,
necessária a uma e à outra, e a própria sabedoria não poderia prescindir dela.
Sabedoria sem prudência seria sabedoria louca, e não seria sabedoria.
Epicuro talvez
diga o essencial: a prudência, que escolhe (pela “comparação e pelo exame das
vantagens e desvantagens”) os desejos que convém satisfazer e os meios para
satisfazê-los, é “mais preciosa até que a filosofia” e é dela que “provêm todas
as outras virtudes”. Que importa o verdadeiro, se não sabemos viver? Que
importa a justiça, se somos incapazes de agir justamente? E por que iríamos
querê-la, se ela não nos trouxesse nada? A prudência é como um saber-viver real
(e não simplesmente aparente, como a polidez), que também seria uma arte de
desfrutar. Ocorre-nos recusar numerosos prazeres, explica Epicuro, quando devem
acarretar maior desprazer, ou buscar determinada dor, se ela permitir evitar
dores piores ou obter um prazer mais vivo ou mais duradouro. Assim, é sempre
pelo prazer que vamos, por exemplo, ao dentista ou ao trabalho, mas por um
prazer no mais das vezes posterior ou indireto (pela evitação ou pela supressão
de uma dor), que a prudência prevê ou calcula. Virtude temporal, sempre, e
temporizadora, às vezes. É que a prudência leva em conta o futuro, na medida em
que depende de nós encará-lo (nisso ela pertence não à esperança, mas à
vontade). Virtude presente, pois, como toda virtude, mas previsora ou
antecipadora. O homem prudente é atento, não apenas ao que acontece, mas ao que
pode acontecer; é atento, e presta atenção. Prudentia, observava Cícero,
vem de providere, que significa tanto prever como prover.
Virtude da duração, do futuro incerto, do momento favorável (o kairós
dos gregos), virtude de paciência e de antecipação. Não se pode viver no
instante. Não se pode chegar sempre ao prazer pelo caminho mais curto. O real
impõe sua lei, seus obstáculos, seus desvios. A prudência é a arte de levar
isso tudo em conta, é o desejo lúcido e razoável. Os românticos, por preferirem
os sonhos, torcerão o nariz. Os homens de ação sabem, ao contrário, que não há
outro caminho, mesmo para realizar o improvável ou o excepcional. A prudência é
o que separa a ação do impulso, o herói do desmiolado. No fundo, é o que Freud
chamará de princípio da realidade, ou pelo menos a virtude que lhe corresponde:
trata-se de desfrutar o mais possível, de sofrer o menos possível, mas levando
em conta as imposições e incertezas do real, em outras palavras (tornamos a
encontrar a virtude intelectual de Aristóteles), inteligentemente.
Assim, no homem, a prudência faz as vezes do que é, nos animais, o instinto –
e, dizia Cícero, do que é, nos deuses, a providência.
A prudência
dos antigos (phronésis, prudentia) vai, portanto, bem além da
simples evitação dos perigos, a que a nossa praticamente se reduz. As duas, no
entanto, estão ligadas, e esta, de fato, aos olhos de Aristóteles ou de
Epicuro, pertenceria ao domínio daquela. A prudência determina o que é
necessário escolher e o que é necessário evitar. Ora, o perigo pertence, na
maioria dos casos, a esta última categoria; daí a prudência, no sentido moderno
do termo (a prudência como precaução). Todavia, há riscos que é necessário
correr, perigos que é preciso enfrentar; daí a prudência, no sentido antigo (a
prudência como “virtude do risco e da decisão”). A primeira, longe de abolir a
segunda, depende dela. A prudência não é nem o medo nem a covardia. Sem a
coragem, ela seria apenas pusilânime, assim como a coragem, sem ela, seria
apenas temeridade ou loucura.
Cumpre
observar, aliás, que, mesmo em seu sentido restrito e moderno, a prudência
continua a condicionar a virtude. Somente os vivos são virtuosos ou podem sê-lo
(os mortos, no máximo, podem ter sido); somente os prudentes são vivos, ou o
permanecem. Uma imprudência absoluta seria mortal, sempre, em prazos
brevíssimos. Que restaria da virtude? E como ela poderia advir? Eu notava, a
propósito da polidez, que a criança a princípio não diferencia o que é mau (o
erro) do que faz mal (a dor, o perigo). Por isso ela não distingue a moral da
prudência, ambas aliás submetidas, no essencial e por muito tempo, à palavra ou
ao poder dos pais. Mas já crescemos (graças à prudência de nossos pais, depois
à nossa); agora, essa distinção se impõe a nós, de modo que moral e prudência
se constituem diferenciando-se. Confundi-las de maneira absoluta seria um erro;
mas sempre as opor seria outro. A prudência aconselha, notava Kant, a moral
comanda. Portanto, precisamos de uma e de outra, solidariamente. A prudência só
é uma virtude quando a serviço de um fim estimável (de outro modo, não seria
mais que habilidade), assim como esse fim só é completamente virtuoso quando
servido por meios adequados (de outro modo, não seria mais que bons
sentimentos). Por isso, dizia Aristóteles, “não é possível ser homem de bem sem
prudência, nem prudente sem virtude moral”. A prudência não basta à virtude
(pois ela só delibera sobre os meios, quando a virtude também se prende à
consideração dos fins), mas nenhuma virtude poderia prescindir da prudência. O
motorista imprudente não é apenas perigoso, também é – pelo pouco caso que faz
da vida alheia – moralmente condenável. Inversamente, quem não vê que o sexo
seguro, que nada mais é que uma sexualidade prudente, também pode ser uma
disposição moral (pela atenção que um manifesta, mesmo que já esteja doente,
pela saúde do outro)? Entre adultos que consentem, a sexualidade mais livre não
é um erro. Mas a imprudência é. Nesses tempos de AIDS, comportamentos que, em
si, não seriam em nada condenáveis podem vir a sê-lo, não pelos prazeres que
proporcionam, e que são inocentes, mas pelos riscos que ocasionam ou fazem o
outro correr. Sexualidade sem prudência é sexualidade sem virtude, ou cuja virtude,
em todo caso, é deficiente. Isso pode ser encontrado em todos os domínios. O
pai imprudente, diante de seus filhos, pode muito bem amá-los e querer sua
felicidade. No entanto, falta alguma coisa à sua virtude de pai e, sem dúvida,
a seu amor. Se ocorrer um drama, que ele poderia ter evitado, ele saberá que,
sem ser absolutamente responsável pelo ocorrido, também não é de todo inocente.
Primeiro, não prejudicar. Depois, proteger. É a própria prudência, sem a qual
qualquer virtude seria impotente ou nefasta.
Eu já disse
que a prudência não impede o risco e nem sempre evita o perigo. Veja o
alpinista ou o navegador: a prudência faz parte de seu ofício. Que risco? Que
perigo? Em que limites? Com que fim? O princípio de prazer o determina, e é
isso que chamamos de desejo ou amor. Como? Por que meios? Com que precauções? O
princípio de realidade o decide e – quando decide da melhor maneira possível
– é o que chamamos prudência.
“A prudência”,
dizia santo Agostinho, “é um amor que escolhe com sagacidade.” Mas o que ela
escolhe? Não, decerto, seu objeto (o desejo se encarrega disso), mas os meios
de alcançá-lo ou protegê-lo. Sagacidade das mães e das amantes, sabedoria do
amor louco. Elas fazem o que se deve, como se deve, pelo menos o que elas
julgam como tal (quem diz virtude intelectual diz risco de erro), e dessa
preocupação nasceu a humanidade – a delas, a nossa. O amor as guia; a prudência
as ilumina.
Que ela possa
iluminar também a própria humanidade! Vimos que a prudência levava em conta o
futuro: é que seria perigoso e imoral esquecê-lo. A prudência é essa paradoxal memória
do futuro ou, para dizer melhor (pois que a memória, enquanto tal, não é
uma virtude), essa paradoxal e necessária fidelidade ao futuro. Os pais
sabem disso e querem preservar o futuro de seus filhos – não para escrevê-lo no
lugar deles, mas para deixar-lhes o direito e, se possível, dar-lhes os meios
de eles próprios o escreverem. A humanidade também deverá compreendê-lo, se
quiser preservar os direitos e as oportunidades de uma humanidade futura. Mais
poder, maiores responsabilidades. A nossa nunca foi tão pesada; ela põe em jogo
não apenas nossa existência ou a de nossos filhos, mas (devido aos progressos
técnicos e seu temível alcance) a da humanidade inteira, e pelos séculos dos
séculos… A ecologia, por exemplo, está ligada à prudência, e é por isso que tem
pontos de contato com a moral. Enganar-se-ia quem acreditasse a prudência
superada; ela é a mais moderna de nossas virtudes, ou antes aquela de nossas
virtudes que a modernidade torna mais necessária.
Moral
aplicada, dizia eu, e nos dois sentidos do termo: é o contrário de uma moral
abstrata ou teórica, mas o contrário também de uma moral negligente. O fato de
esta última noção ser contraditória deixa claro quanto a prudência é necessária,
inclusive para proteger a moral do fanatismo (sempre imprudente, de tanto
entusiasmo) e de si mesma. Quantos horrores consumados em nome do Bem? Quantos
crimes, em nome da virtude? Era pecar contra a tolerância, quase sempre, mas
também contra a prudência, na maioria das vezes. Desconfiemos desses
Savonarola* que o Bem cega. Demasiado apegados aos princípios para considerar
os indivíduos, demasiado seguros de suas intenções para se preocuparem com as
conseqüências…
Moral sem
prudência é moral vã ou perigosa. “Caute”, dizia Spinoza: “Cuidado.” É a
máxima da prudência, e é preciso ter cuidado também com a moral, quando ela
despreza seus limites ou suas incertezas. A boa vontade não é uma garantia, nem
a boa consciência uma desculpa. Em suma, a moral não basta à virtude; são
necessárias também a inteligência e a lucidez. É o que o humor recorda e a
prudência prescreve.
É imprudente
ouvir apenas a moral, e é imoral ser imprudente.
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