Assim Falou Zaratustra
Em Ecce Homo, Nietzsche intitulou seus capítulos:
"Por que sou tão fatalista?", "Por que sou tão sábio?",
"Por que sou tão inteligente?", "Por que escrevo livros tão
bons?". Isso levou muitos a considerarem sua obra como anormal e
desqualificada pela loucura. Essa opinião, no entanto, revela um superficial
entendimento de seu pensamento. Para entendê-lo corretamente, é necessário
colocar-se dentro do próprio núcleo de sua concepção de filosofia: Nietzsche
inverteu o sentido tradicional da filosofia, fazendo dela um discurso ao nível
da patologia e considerando a doença como "um ponto de vista" sobre a
saúde, e vice-versa. Para ele, nem a saúde, nem a doença são entidades; a
fisiologia e a patologia são uma única coisa; as oposições entre o bem e o mal,
verdadeiro e falso, doença e saúde são apenas jogos de superfície. Há uma
continuidade, diz Nietzsche, entre a doença e a saúde e a diferença entre as
duas é apenas de grau, sendo a doença um desvios interior à própria vida;
assim, não há fato patológico.
A loucura não
passa de uma máscara que esconde alguma coisa, esconde um saber fatal e
"demasiado certo". A técnica utilizada pelas classes sacerdotais para
a cura da loucura é a "medicação ascética", que consiste em
enfraquecer os instintos e expulsar as paixões; com isso, considera-se a
vontade de potência, a sensualidade e o livre florescimento do eu como
"manifestações diabólicas". Mas, para Nietzsche, aniquilar as paixões
é uma "triste loucura" cuja decifração cabe à filosofia, pois é a
loucura que torna mais plano o caminho para as idéias novas, rompendo os
costumes e as superstições veneradas e constituindo uma verdadeira subversão
dos valores. Para Nietzsche, os homens do passado estiveram mais próximos da
idéia de que onde existe loucura há um grão de gênio e de sabedoria, alguma
coisa de divino: "Pela loucura os maiores feitos foram espalhados pela
Grécia". Em suma, aos "filósofos além de bem e mal" aos
emissários dos novos valores e da nova moral não resta outro recurso, diz Nietzsche
, a não ser o de proclamar novas leis e quebrar o jugo da moralidade, sob o
travestimento da loucura. É dentro dessa perspectiva, portanto, que se deve
compreender a presença da loucura na obra de Nietzsche. Sua crise final apenas
marcou o momento em que a "doença" saiu de sua obra e interrompeu seu
prosseguimento. As últimas cartas de Nietzsche são o testemunho desse momento
extremo e , como tal, pertencem ao conjunto de sua obra e de seu pensamento. A
filosofia foi, para ele, a arte de deslocar as perspectivas, da saúde à doença,
e a loucura deveria cumprir a tarefa de fazer a crítica escondida da decadência
dos valores e do aniquilamento: "Na verdade, a doença pode ser saúde
interior e vice-versa. A saúde é coisa pessoal; é aquilo que pode ser útil a um
homem ou a uma tarefa, ainda que para outros signifique doença...
Não fui um doente
nem mesmo por ocasião da maior enfermidade".
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